domingo, 12 de junho de 2016

Moonlight - Capitulo Dez

_ Era agosto de 1991 quando eu o conheci. Eu e minhas amigas havíamos saído para comemorar o aniversário de Liz, uma grande amiga que me ajudou nos momentos mais complicados da minha vida. Infelizmente, não tenho como retribuir esse grande favor. – Sooeun encarou o lenço por alguns instantes, antes de continuar. – Seu pai apareceu naquele pub parecendo um anjo. Os cabelos bem negros, a pele tão alva... As íris tão brilhantes. Meu Deus! Ele era lindo e parecia cansado com o trabalho que estava fazendo. Quando nos apresentamos, descobri que ele estava aqui, em Londres, desde a noite anterior. Cheguei a perguntar como podia um homem ser fluente em inglês, sendo que, quando vim para cá, ainda arrastava o sotaque em algumas palavras.
_ A senhora... – Baekhyun a olhou. – Sabia dizer no que ele trabalhava?
Ele sabia que, na época, o pai era o Líder da Ordem dos Caçadores.
_ Ele pertencia a uma companhia multinacional. Não me recordo sobre o que eles produziam. – ela pensou um pouco. – De qualquer forma, seu pai foi o homem mais maravilhoso que tive a honra de conhecer. E o mais alto. – por fim, riu. – Mesmo usando um salto alto, eu ainda media na altura do peito dele. Acho que tinha 1,93m. E por minha causa, ele decidiu que ficaria por mais alguns dias.
_ Sabia que ele tinha um filho?
_ Sabia. – concordou. – Na nossa primeira noite, eu o estapeei por que estava me entregando para um homem casado. – sorriu ao recordar-se do momento. – Baekhyung me explicou que havia perdido a esposa logo que ela deu a luz à Minseok e que não tirou aquela aliança por que ele tinha um grande respeito pela mãe do garotinho. E então, dois meses depois, ele voltou para a Coréia do Sul.
_ Como ele era? – murmurou o professor quase se arrependendo da pergunta.
_ Maravilhoso. Um perfeito cavalheiro, se me permite dizer. – sorriu, afagando o rosto do filho. – Mas, fisicamente, você só não herdou a altura dele. Agora... Quanto à personalidade...
_ Ok. – o moreno gesticulou com as mãos para que ela parasse. – Apenas continue onde parou.
_ Pois bem. – ela assentiu, voltando a atenção para o lenço. – Só soube que ele havia retornado em março de 1992 quando Liz o vira com o filho e ele perguntara por mim. Mas não fui atrás dele naquele tempo.
_ Por quê? – a olhou confuso.
_ Ora, seu pai e seu irmão foram à Londres para o festival da primavera, além, é claro, de que era aniversário de Minseok. – sorriu. – Por isso, achei melhor não insistir em segui-lo. Então, naquele mesmo ano, nos reencontramos. Era final de agosto e... Céus! Eu precisava tanto dele...
_ E... – mentalmente, Baekhyun fez as contas, engolindo em seco. – Você engravidou dele?
_ Somente descobri que estava esperando você um mês depois. – baixou os olhos. – Eu nunca fiquei com tanto medo como naquele dia. Eu... – e encarou o filho com os olhos marejados. – Eu não podia tê-lo por que, além de perder o meu emprego de fotógrafa, o dinheiro que eu ganhava não dava para te dar o que você precisava.
_ E... Ele soube? – aos poucos, o professor se emocionava.
_ Soube. – assentiu. – Assim como soube que eu estava pensando em abortá-lo. – rapidamente, secou o rosto com o lenço. – Por favor, não me veja como uma péssima mãe, Baekhyun. Mas você precisa entender...
_ E o que ele fez? – interrompeu-a.
_ Num resumo, ele enlouqueceu. – e sorriu de leve. – “Você não pode fazer isso! É o nosso filho!”, era o que repetia. Mas eu nunca o ouvi. Na noite em que discutimos feio, decidi no dia seguinte que procuraria uma clinica clandestina para retirar você de mim. Só que... Antes que eu saísse de casa, ele apareceu lá, implorando-me para que eu não perdesse você. Nós discutimos de novo quando ele me deu uma válvula de escape: eu seria cuidada por um casal durante toda a minha gravidez até o seu nascimento. Até lá, seria sustentado por eles enquanto meu chefe receberia um comunicado, alegando que eu estava com uma doença gravíssima que precisava de tratamento com urgência. – suspirou pesadamente, olhando-o. – A ideia não era ruim, mas... Saber que eu não podia ver nenhuma das minhas amigas durante nove meses doía-me o coração.
_ E o que você fez? – piscou devagar, deixando que algumas lágrimas descessem.
_ Eu aceitei a proposta. – Sooeun encarou o vazio por um tempo. – Como ele não podia ficar para me vigiar, enviou o casal que havia citado e nós fomos para uma mansão. Sob as ordens dele, todas as pessoas daquele lugar deviam ter total respeito e cuidado comigo. O Sr. Kim havia me explicado como são as regras naquela mansão, enquanto a Srta. Jung, que também estava grávida, me explicava sobre a alimentação que eu teria que fazer.
_ Você passou os nove meses naquela mansão? – Baekhyun ficou surpreso. Afinal, nem mesmo ele sabia que sua mãe já atravessara aqueles portões de ferro.
_ Foram os nove meses mais longos da minha vida. – comentou. – Foi difícil ver cada dia se passar, cada semana, e minha barriga crescer na medida em que você crescia. – e encarou-o. – Eu nunca me vi como mãe, Baekhyun. Nunca. Mas, por alguns instantes, a Srta. Jung me fazia mudar de ideia. – logo, um sorriso bobo se formou em seus lábios. – Todas as tardes, nós nos sentávamos na varanda e eu a observava se balançar na cadeira de balanço enquanto afagava a enorme barriga. “O meu menino está quase chegando”, dizia ela. “O pequeno Joonmyunnie”. – um novo suspiro escapou de sua boca. – Em março de 1993, Baekhyung e Minseok vieram me visitar. Seu irmão era muito fofo com aquelas bochechas enormes e o olhar curioso.
_ Eles vieram te ver? – questionou.
_ Na verdade, vieram me convencer a se juntar a eles. – explicou. – “Seja a mãe que o Minseok não teve”, pedia Baekhyung. “Assim, você será a mãe de nossos meninos e minha esposa. Pode até mesmo voltar para Seul conosco”. Só que eu não queria voltar para Seul. Eu já havia deixado tudo para trás e recomeçado em Londres por causa de meu país. Acabei pedindo desculpas e não aceitei a proposta.
_ E depois? – Baekhyun, aos poucos, se erguia pronto para deixar aquela casa. – O que... Aconteceu?
_ No inicio de maio, naquele mesmo ano, você nasceu. – ela disse, reconhecendo a cara de desprezo do filho. – Pedi a Dra. Kim Eunjung para que não me deixasse ver você. Para que eu não me apegasse. Só que... Enquanto eu era transferida para um quarto onde descansaria pela ultima vez, eu o vi nos braços do seu pai e seu irmão o olhando tão surpreso quanto alguém que recebe um presente-surpresa.
_ Aquela foi a ultima vez que você me viu? – sussurrou.
_ Exato. – concordou. – Somente soube de você novamente quando Minseok apareceu na porta da minha casa, completamente encharcado e me implorando para que eu cuidasse de você.
Baekhyun fitou a janela do táxi que há mais de vinte minutos estava parado em frente a sua casa. Involuntariamente, as lágrimas desceram por seu rosto, gotejando em seu casaco escuro, enquanto repassava a conversa sobre seu nascimento. Aquela versão que sua mãe contou era totalmente contrária a que tinha ouvido quando tinha apenas seis anos. Não fora seu pai quem o tirara de sua mãe, como Sooeun lhe dizia antes. Era ela quem não o queria e seu pai cuidou de si durante todo o tempo em que esteve vivo.
O jovem professor tirou algumas notas do bolso e entregou ao taxista, deixando o veiculo, ao que o mesmo partiu, desaparecendo na esquina. Rapidamente, limpou o rosto molhado e entrou em casa, seguindo para o quarto. “Eu peço desculpas se fiz a sua cabeça, Baekhyun. Mas... Quando eu vi o que você havia se tornado... Um garotinho tão lindo... Eu... Não podia deixá-lo voltar para o seu irmão”, revelou sua mãe em meio ao choro, enquanto lhe impedia de passar pela entrada da casa. Ele, agora, tinha um grande remorso: havia julgado seu pai precipitadamente.
Baekhyung não era o filho da puta que Baekhyun acreditava ser.
De imediato, retirou o celular do bolso e verificou que havia uma chamada perdida a noiva. Por fim, removeu-a, discando o número de Minseok e, desesperadamente, implorou para que o irmão atendesse. Ele precisava se desculpar. Somente no terceiro toque, ele ouviu a voz baixa do mais velho e suspirou aliviado, escondendo qualquer vestígio de que estivesse chorando.
_ Estará ocupado hoje à noite? – perguntou.
Estarei. – respondeu.
_ Preciso falar com você. – resumiu. – É importante. Posso passar que horas?
Meia noite. – disse. – É muito importante o que você tem a falar?
_ É.
O silêncio durou apenas três segundos.
Às 21h00min. – e desligou.

_ O senhor... Está pronto? – Jongdae avaliava o próprio mestre, enquanto se controlava para não gaguejar, muito menos, hesitar na proposta.
Minseok manteve seus Netunos brilhantes totalmente direcionados a face de seu Mordomo, enquanto removia o roupão rubro, expondo, não apenas o tronco nu, mas as marcas de combate e treinamento da infância. Mancando, o homem de madeixas acinzentadas pegou o bastão de madeira e posicionou-se, enquanto vento gelado daquela noite passava por seus corpos. Jongdae engoliu em seco, tentando não se distrair com aquela visão privilegiada do mais velho.
_ O que havia dito, Jongdae? – um sorriso desafiador escapou dos lábios finos do líder, ao que o moreno assentiu, entrando em posição de combate.
_ Está pronto, Minseok? – repetiu.
E, sem responder, Minseok avançou no Mordomo que conseguiu se desviar e afastar alguns passos. A luta entre os dois homens seguiu acirrada, empolgando involuntariamente seus telespectadores: os instrutores dos três departamentos e os ‘recrutas’. Quando uma das armas passava a milímetros do rosto de um dos oponentes, um urro em uníssono ecoava pelos cômodos da mansão. Kyungsoo, que assistia do andar de cima com seus amigos e algumas garotas, ouviu alguns garotos apostarem em qual dos dois venceria a competição.
Jongdae chocou ambos os bastões, segurando-os, quando subitamente recebeu um chute no abdômen, fazendo-o cambalear alguns passos para trás. Minseok ofegou, apoiando-se no bastão e esperou que o outro se recuperasse. Os olhos escuros do Mordomo vagaram do mais velho para a mansão, notando que tanto a varanda quanto as janelas estavam lotadas de olhares curiosos. Sem se importar, o moreno fez uma investida contra o de cabelos platinados, que desviou, porém, de imediato, foi desarmado. Não demorou muito para que ele arqueasse a sobrancelha, um tanto surpreso pela atitude repentina do mais novo.
_ Não esperava por isso, não é? – e sorriu, girando os dois bastões.
_ Não. – disse sincero. – Eu não esperava por isso.
_ O senhor está sendo assistido. – Jongdae desviou os olhos para as pessoas. – Especialmente, pelas mulheres.
_ Não é a primeira vez que tenho um público me assistindo. Mas não me importo se eles estão lá ou não. – e avançou contra o outro. – Agora, foque-se na luta.
O moreno rapidamente largou os bastões e defendeu-se dos socos e chutes do líder da Ordem. Em nenhum segundo, Minseok deu um pouco de descanso para o seu Mordomo, chegando a quase lhe acertar alguns chutes próximo ao seu rosto. Jongdae rolou pela grama, antes de se erguer e novamente encarar seu oponente. E mais uma chuva de investidas recomeçou, fazendo o mais novo se defender constantemente. Todavia, quando ele conseguira se desviar do chute aéreo, o mais velho lhe dera uma rasteira, observando escorregar e cair no chão.
Minseok imobilizou o Mordomo, prendendo a cabeça e os braços do mesmo entre suas pernas, enquanto se segurava para não deixá-lo escapar. Jongdae relutou contra a chave, tentando se levantar, mas cada vez que fazia, mais o seu Mestre o apertava. O ar já escapava rápido demais de seus pulmões e, por um instante, sua mente ficou atordoada. Quando, finalmente, avisara ao mais velho com leves tapas, o líder o soltou novamente se aproximando, porém, a fim de saber se o outro estava bem.
_ Jongdae? – chamou-o, batendo de leve em seu rosto, enquanto o moreno piscava devagar. – Jongdae!
_ Eu estou bem. – engoliu em seco ao notar o quão próximo aquelas safiras estavam de seus olhos. – Senhor...
_ Tem certeza? – e tentou sentá-lo, apoiando as costas alheias em sua perna. – Respire devagar. Vamos. Inspire e expire...
Jongdae obedeceu àquela voz suave próxima aos seus ouvidos e fechou os olhos, enquanto o ar entrava e saia de seus pulmões. Aos poucos, a tontura desaparecia, fazendo-o recobrar os sentidos completamente. Por fim, quando desviou a atenção para o líder, o mesmo sorria de leve, se levantando. Minseok mancou devagar, porém, foi surpreendido por uma imobilização no braço. De soslaio, encarou o moreno que se mantinha calado e concentrado no treinamento, quando recebeu um soco na testa.
_ Ataque-surpresa? – questionou, alongando o braço.
_ Pode-se dizer que sim. – respondeu, afagando a testa.
O líder estava prestes a atacar o Mordomo quando a voz de Jongdeok o chamou da varanda. Minseok desviou os olhos para o Chefe do Departamento dos Caçadores que se aproximou e curvou-se a sua frente, alegando que seu irmão mais novo, Byun Baekhyun, acabara de chegar. Jongdae alternou os olhos entre seu Mestre e seu irmão, ao que o mais velho assentiu, fazendo uma pausa de vinte minutos para que o outro descansasse.
_ Você está bem? – perguntou o caçador.
_ Estou. – respondeu o Mordomo, caminhando devagar para a varanda.
_ Não parecia. – Jongdeok o seguiu. – Você estava perdendo feio para o líder.
_ Cala a boca. – Jongdae o olhou, logo pegando uma garrafa de água e tomou um gole.
_ E então? – murmurou próximo ao outro. – Até quando vai manter esse amor platônico pelo nosso líder?
Imediatamente, o mais novo se engasgou com a água, tossindo nervosamente. O Chefe dos Caçadores reprimiu uma risada, enquanto assistia o desespero do irmão em tentar se recuperar. Jongdae desviou os olhos, encarando furiosamente o mais velho e num rápido movimento, ergueu um dos bastões, quase acertando a ponta do mesmo na face de Jongdeok, que se desviou, afastando alguns passos.
_ Hey! – protestou o Caçador, rindo. – Está ficando louco? Quer me matar, por acaso?
_ Talvez eu queira. – e avançou contra o outro sem qualquer piedade.

Seus pés seguiram para dentro da mansão até seu escritório, onde avistou o moreno de órbitas azuladas encarando o enorme quadro dos dois. Pelo canto dos olhos, Baekhyun notou quando Minseok o fitou breve e seguiu na direção das bebidas, mas antes mesmo que o outro se servisse, o timbre suave soou como um sussurro:
Vai colocar um uísque duplo, como o nosso pai fazia? – Minseok encarou o copo por alguns instantes, antes de desviar os olhos para o mais novo que se acomodava no sofá. – Minha mãe dizia que era a bebida preferida dele.
_ O que quer, Baekhyun? – perguntou, desistindo da bebida e retornou para onde o outro estava. Rapidamente, o professor foi até a mesa de bebidas e serviu dois copos de uísque duplo com gelo, retornando para o sofá. Por fim, entregou uma delas ao irmão. – Alguma coisa mordeu você hoje?
_ Não. – negou, tomando a bebida de uma vez. – Droga. Isso queima.
_ É por que não se deve tomar o uísque de uma vez. – explicou, bebericando. – A menos, é claro, que você queira ficar bêbado mais rápido.
_ Talvez eu queira. – comentou, sorrindo fraco e se levantou, pegando a garrafa.
Minseok assistiu o irmão encher e entornar metade da garrafa de uísque – que, por acaso, era a preferida de seu pai – antes de tomá-la de suas mãos. Baekhyun resmungou, gesticulando para que o outro devolvesse a garrafa e, meio cambaleante, se levantou, avançando no mais velho. Rapidamente, o homem de cabelos acinzentados afastou o moreno e o sentou no sofá, acomodando-se ao seu lado, enquanto o prendia com sua perna ruim. Estranhamente, era a que mais pesava no colo do professor.
_ Hey, pare com isso e dê-me a garrafa... – protestou.
_ Espero que sua noiva saiba que você veio aqui... – começou, mas calou-se ao ouvir o soluço e o choro de Baekhyun. Como se não bastasse um irmão bêbado, ele também era chorão. – Baekhyun...
_ Você tinha razão sobre tudo, Minseok. – e o encarou. – Sobre tudo! Você tinha total e absoluta razão!
_ Do que você está falando? – franziu o cenho.
_ Ora... – bufou, fitando o vazio. – Do meu nascimento. Você tinha me dito naquela noite, quando me seqüestrou e me trouxe para cá, que a minha própria mãe estava fazendo a minha cabeça. E é verdade! Ela fez a minha cabeça dizendo que meu pai me tirou dela a força, sendo que...
_ Baekhyun, chega. – ordenou o mais velho, notando o olhar confuso do outro. – Você está embaralhando as coisas por que está bêbado. – por fim, se ergueu, arrumando o roupão rubro no corpo. – Pedirei que Yixing providencie um quarto para que durma...
Mas o jovem professor de história não queria dormir. Ele queria desabafar; colocar para fora toda aquela dor, raiva, angústia e arrependimento para fora de alguma forma. Nem que, para isso, utilizasse do álcool como uma escapatória.
_ Você tinha razão sobre Kim Baekhyung! – gritou, fazendo o líder parar ao mesmo tempo em que Jongdae se aproximava do escritório. Baekhyun desviou os olhos para o irmão que virou a cabeça em sua direção, sem olhá-lo. – Baekhyung fora um grande homem e um ótimo pai. Ele... Deu toda a assistência para aquela mulher, até quando ela mesma havia dito que não queria ter filhos... Você sabia que ela queria me abortar?
_ Basta! – Minseok se virou, encarando furiosamente o mais novo que estava abalado. – A Sra. Byun Sooeun apenas fez a sua cabeça na intenção de protegê-lo, como toda mãe.
_ Mas ela não queria ter filhos! Então... Por que está protegendo-a? – tentou questionar, mas Minseok fingiu não ouvi-lo. Ele estava cansado - talvez, mais do que seu próprio irmão - sobre aquela história de muitas versões.
_ Tudo o que aconteceu entre ela e o meu pai estão no passado. – continuou. – Se você veio para chorar pelo o que disse ou pensou contra ele, não precisa fazer isso. Baekhyung sempre o amou e isso é tudo o que importa.
_ Por que... Está dizendo isso? – piscou devagar e novas lágrimas desceram. – Eu vim me desculpar por tudo o que eu falei sobre ele e sobre você...
_ Não precisa perdoar! – gritou num tom mais alto. Minseok, devagar, se aproximou do irmão que estava de pé e segurou seu rosto, limpando-o. – Não precisa me perdoar por que você não é o culpado. Nunca foi. – disse num tom mais baixo. – Eu sempre soube, Baekhyun, que você era a vítima dessa situação e não o culpo por isso.
_ Mas... Eu... Julguei...
_ Sim. Julgou nosso pai precipitadamente. Mas aposto que, se ele estivesse vivo, o perdoaria da mesma forma. – apressou-se em falar. – Agora, descanse. Jongdae. – chamou o Mordomo que entrara no escritório de cabeça baixa. – Leve o Sr. Byun a um dos quartos. Ele precisa de uma boa noite de sono.
Baekhyun ainda encarou o mais velho por alguns instantes. Era impossível para ele acreditar que seu irmão tinha um coração bondoso, por trás de tudo o que ele era capaz de fazer. Por um lado, o professor desejava que Minseok o esmurrasse até que perdesse a consciência, como uma forma de se vingar por tudo o que ele dissera e blasfemara contra o próprio pai. Afinal, ele reagiria dessa forma se os papeis fossem inversos. Porém, por outro, se conformou com a simples decisão tomada pelo mais velho e suspirou arrastado, baixando a cabeça.
_ Sim senhor. – concordou o maior que prontamente segurou o professor e o guiou devagar para fora do cômodo. – Vamos, Sr. Byun.
_ Hyung... – chamou Baekhyun, parando na entrada da sala, ao que o outro lhe olhou por um instante. – Se eu pedir para voltar para a Ordem... Você me aceitaria?
_ Não. – disse. – Mas podemos conversar sobre isso quando estiver mais sóbrio.
Afinal, Minseok conhecia bem o irmão que tinha e, com toda a certeza do mundo, o moreno se recusaria a acreditar que havia voltado – inconscientemente – para a Ordem.
Baekhyun concordou brevemente e deu alguns passos com o Mordomo antes de desmaiar em seus braços. Jongdae logo o pegou no colo e seguiu para um dos quartos da mansão – o que sempre foi reservado ao irmão do líder – e o deixou em sua cama, retornando para o jardim onde Minseok o esperava, enquanto girava o bastão lentamente. O silêncio entre os dois homens durou alguns minutos, enquanto encaravam a noite estrelada. Ambos podiam ouvir os sons dos animais noturnos e o cheiro das árvores que se balançavam conforme a velocidade do vento gelado.
_ O senhor quer voltar ao treinamento? – perguntou o moreno.
_ Você já descansou? – e o olhou, vendo-o concordar. – Então, vamos voltar.
Minseok largou o bastão e seguiu mais para o centro do jardim, seguido do Mordomo e, de imediato, voltaram ao treinamento. Foram longas horas chutando, esquivando, defendendo e atacando um ao outro. O suor já escorria pelas faces dos dois oponentes que sequer interromperam o combate, por mais cansados que estivessem. Gradativamente, cada um dos telespectadores desaparecia das janelas e varandas da mansão, permanecendo apenas Kyungsoo, Jongdeok, Yixing e Eunjung, que assistiam da janela da enfermaria em silêncio.
_ Jongdae não é páreo para Minseok. – a médica começou, rindo. – Ele ainda precisa treinar muito para poder conseguir derrubá-lo.
_ Para dizer a verdade. – o chinês cruzou os braços. – Jongdae está no mesmo nível que Minseok.
_ O que quer dizer, Sr. Zhang? – Kyungsoo o olhou.
_ Bom... – começou o homem, assistindo a luta. – Pelo que eu sei sobre o Jongdae e o que ele passou para se tornar o Mordomo do nosso líder, posso dizer apenas que ele é superior a nós. Ou eu estou enganado, Jongdeok? – e fitou o irmão mais velho do Mordomo que sorriu.
_ Não. – respondeu. – Jongdae evoluiu física, moral e intelectualmente numa velocidade impressionante. Acho que ele é muito melhor em combate do que eu. Talvez, melhor até do que todos os instrutores.
_ Mas como eu sei bem, Kyungsoo irá superá-lo, não irá? – Eunjung desviou a atenção para o ‘recruta’ que ainda assistia ao combate. – Kyungsoo?
_ Eunjung, me desculpe pelo que direi, mas... – Jongdeok riu baixinho. – Kyungsoo vai ter que lutar muito para poder vencer Jongdae numa luta corpo a corpo. Pelo menos, se ele quiser chegar ao nível de Minseok.
_ E ele chegará. – ela sorriu, mantendo os olhos no moreno de olhos grandes.
No jardim, os dois oponentes se afastaram, enquanto o líder encarava o Mordomo cansado. Jongdae sentia parte de seu corpo doer devido ao impacto dos golpes defendidos, enquanto se esforçava em se erguer. Por um instante, seus mares escuros acompanharam as gotículas de suor escorrer pelo peito másculo e o abdômen alheio, desaparecendo no cós da calça preta. E nessa fração de segundos, seu descuido foi o suficiente para que Minseok o segurasse e o derrubasse no chão, prendendo o joelho direito contra o peito do mais novo.
_ Está desconcentrado, Jongdae. – reclamou Minseok, largando-o. – Foque-se!
_ Sim senhor. – assentiu, levantando.
_ Diga-me: onde está a sua cabeça? – as safiras brilhantes se desviaram para o moreno que engoliu em seco, entrando em posição de combate. – Responda!
_ No treinamento, senhor. – respondeu.
Em passos largos, Minseok correu até o Mordomo e enlaçou as pernas em seu pescoço e tronco, derrubando os dois no chão. O impacto das costas de Jongdae contra a grama foi abafado, porém não o impediu de sentir dor, fazendo-o arquear a coluna. O homem de madeixas acinzentadas suspirou arrastado e largou o moreno, deitando ao seu lado. Aos poucos, as respirações se normalizavam, enquanto a brisa esfriava os corpos quentes e suados.
_ O que havíamos combinado? – perguntou, encarando o céu.
_ Que... – pigarreou. – Treinaríamos o senhor.
_ Então, por que, raios, você não está concentrado na luta? – e sentou, olhando-o. – Jongdae, eu preciso de você. Não posso treinar usando os outros instrutores, por que aquele com quem enfrentarei está num nível muito superior!
_ Sim senhor. – assentiu, ouvindo-o.
_ Irá me ajudar no treinamento? – perguntou novamente.
_ Sim senhor. – respondeu.
_ E, por favor. – desta vez, Minseok se levantou, ajudando o mais novo a se erguer. – Não me chame de ‘senhor’. Combinamos que me chamaria de ‘Minseok’, não foi?
Jongdae encarou aquelas íris brilhantemente azuladas e concordou em silêncio, murmurando “Minseok”, onde um sorriso pequeno transpareceu nos lábios do líder. Por fim, a dupla se afastou o suficiente para recomeçar o treinamento. Entretanto, todas as reclamações que o Mestre dera, de nada adiantara. O moreno continuou desatento e descuidado, fazendo o homem de madeixas acinzentadas suspirar arrastado e, violentamente, desferir um gancho de direita no rosto do maior.
Mas como o seu líder queria que ele se concentrasse se o próprio Minseok o torturava com aquele físico e aquele cheiro? Jongdae tentou lutar bravamente para se focar no combate e no treinamento de seu Mestre, porém era sempre derrubado pelos movimentos do mais velho. Impaciente, o homem passou a mão pelos cabelos claros e desviou os olhos para o rapaz ajoelhado, sem acreditar que ele era incapaz de continuar treinando.
_ Eu... Sinto muito... – murmurou ofegante. Havia acabado de receber uma chave de braço no pescoço. – Sinto muito, senhor.
_ Jongdae... – Minseok suspirou, caminhando até o outro e o segurou pelo queixo, avistando suas órbitas marejadas. – Eu não queria dizer isso, mas... Se você não me ajudar a treinar... Eu vou morrer nas mãos do Changmin. – gradativamente, seus olhos cresceram surpresos.
Então... Era por causa de uma luta contra o vampiro, que assassinara seu pai, que seu Mestre estava treinando consigo? Minseok, devagar, se abaixou próximo ao moreno e sentou-se na grama, suspirando arrastado. Ambos se encararam por alguns instantes, enquanto o silêncio preenchia aquele momento. Por fim, o mais velho se pronunciou:
_ Há vinte anos, meu pai foi morto por Park Changmin. – explicou. – E eu jurei que treinaria muito para me vingar pelo que ele fez à minha família. Durante toda a minha infância, lutei e apanhei dos instrutores apenas para superá-los. Participei de caçadas aos desobedientes antes do tempo que colocaram para mim. Imagine: 12 anos e queimando friamente o corpo de um vampiro! – e um sorriso triste despontou de seus lábios. – Todo esse treinamento não era apenas para me tornar líder da Ordem. – logo, negou com a cabeça. – Não. O meu objetivo, durante todo esse tempo, é ter força o suficiente para acabar com o desgraçado que matou o meu pai. Nada mais. – um suspiro deixou sua boca pequena, fazendo Jongdae observá-la atentamente. – É por isso que eu preciso de você, Jongdae. – e desviou os olhos para o moreno que o encarou. – Você treinou mais do que qualquer ‘recruta’, instrutor e chefe de todos os departamentos apenas para chegar aonde chegou: Mordomo do Líder. 
_ Por isso, me quer para detê-lo? – murmurou.
_ Eu o quero para derrotá-lo. – corrigiu. – Changmin não pode sobreviver ao combate, por que, se ele sobreviver... Eu não estarei vivo.
O moreno encarou a grama por alguns instantes e assentiu, compreendendo as palavras de seu Mestre. Por fim, se levantou do chão e estendeu a mão para que o outro a segurasse, erguendo-o logo em seguida. Minseok observou Jongdae se afastar alguns passos e entrar em posição de combate, o que fez o mais velho sorrir em alívio e repetir o movimento. O Mordomo obedeceria às ordens de seu Mestre e o faria vencer. Nem que, para isso, tivesse que perder os movimentos das pernas e quebrar os dois braços, ele faria o outro derrotar Changmin.

Ao fim da luta, o jovem Mordomo não sentia mais os próprios dedos ou movia sua perna esquerda. Por seu corpo, inúmeros hematomas se estendiam em diferentes tamanhos. O suor escorria livre de seu peito para a grama enquanto sua camisa branca era colocada sob sua cabeça. Ainda sentia o gosto férreo em sua boca, enquanto parte do sangue escorria em filetes pelo canto dos lábios. Seus olhos escuros encaravam o céu estrelado por longos minutos até finalmente desviar a atenção para o seu Mestre que sorria largo. Era uma surpresa para Jongdae ver aquele sorriso bonito e aberto de Minseok, enquanto o mesmo cuspia um pouco de sangue.
O combate entre eles havia sido tão violento que somente se encerrara quando Jongdae sentiu a lâmina fria da adaga em sua garganta e a respiração cansada de seu Mestre próximo ao seu ouvido. Agora, ambos estavam descansando no enorme gramado, enquanto esperava as respirações normalizarem. Minseok desviou a atenção para o Mordomo que fechou rapidamente os olhos, ofegando constantemente.
_ Consegue sentir alguma coisa? – perguntou.
_ Tirando a dor da minha perna e do meu corpo, eu não sinto essa mão. – e ergueu a mão direita, arrancando uma risada baixa do mais velho. – E o senhor?
_ Tirando a perna direita que nunca me obedeceu... – falou, desviando os olhos para o braço esquerdo. – Meu braço está completamente travado.
_ O senhor quer que eu a alongue? – sugeriu, ameaçando sentar, quando Minseok o fez se deitar novamente. – O que foi?
_ Você levou uma bordoada e está sangrando, Jongdae. – alertou, vendo-o levar a mão atrás da cabeça e, ao olhar, surpreendeu-se com a quantidade de sangue que escorria. Afinal, nem mesmo ele sabia que estava sangrando tanto assim. – Espere aqui. Irei chamar Eunjung.
_ Não precisa. – o impediu, segurando-o pelo pulso e, devagar, se sentou na grama. – Já levei bordoadas piores.
Minseok se levantou, ajudando o moreno a ficar de pé e apanhou a camisa ensangüentada do outro. Entretanto, quando Jongdae ameaçou alguns passos para dentro da mansão, sua mente desligou, fazendo-o desmaiar de imediato. E, por alguma sorte inacreditável, ele só não foi ao chão por que seu Mestre o segurara a tempo. Devagar, o mais velho arrumou o mais novo em seus braços, ao mesmo tempo em que Kyungsoo deixava a varanda e corria até os dois, seguida da médica.
_ Eu falei para você. – alertou-o, balançando a cabeça.
_ Deixe comigo, senhor. – pediu Kyungsoo, segurando o Mordomo. – Já o peguei.
_ Obrigado. – agradeceu, mancando atrás do ‘recruta’, enquanto ele e Eunjung arrastavam o moreno para dentro da mansão.
_ Não precisa de ajuda, Minseok? – perguntou ela, olhando-o, ao que ele negou com a cabeça.
Subiu as escadas devagar, enquanto assistia seu Mordomo ser arrastado na direção da enfermaria. Não demorou muito para que sua atenção se voltasse para a camisa ensangüentada do moreno em mãos e um sorriso curto transparecerem em seus lábios. Entretanto, ao se virar para o seu quarto, Minseok avistou Joonmyun se aproximar de si com um sorriso tímido, mas o mesmo desapareceu ao ver a camisa ensangüentada.
_ Você se machucou? – perguntou preocupado, tomando o tecido das mãos alheias.
_ Não. – respondeu, enquanto encarava a camisa nas mãos alheias.
_ Esse sangue... É de quem?
_ Jongdae. – suspirou, se afastando devagar. – Estávamos treinando e ele se machucou.
_ Mas ele vai ficar bem? – questionou, seguindo-o pelo corredor.
_ Vai.
_ Minseok... – por fim, Joonmyun lhe segurou pelo pulso, fazendo o mais velho parar de andar. Gradativamente, sua atenção se desviou para o seu rosto, enquanto as órbitas de Vênus desviavam para o chão. – Ainda está chateado com o que eu disse hoje de manhã? – por fim, olhou-o, estranhamente assustado com a frieza daqueles Netunos brilhantes. – Está... Chateado por que irei voltar para Busan?
_ Não é isso. – negou, desviando os olhos para o próprio pulso.
_ Então... O que é? – e sorriu preocupado.
Mas o homem nada respondeu. Apenas tornou a olhar para o loiro de órbitas castanho-esverdeadas e soltou-se dele, seguindo devagar até o seu quarto. Rapidamente, Joonmyun lhe seguiu pelo corredor e adentrou o cômodo, sendo pego de surpresa quando sua boca foi tomada sem pudor pela semelhante do mais velho. Suas mãos prontamente se prenderam as madeixas acinzentadas do líder que o segurou pelas pernas, pressionando-o contra a porta trancada. Minseok explorou a cavidade alheia com calma, friccionando as línguas e, lentamente, soltou o outro, mantendo seus corpos próximos.
_ Eu não queria que fosse... – sussurrou contra os lábios fartos e vermelhos do outro. – Pelo menos, ainda não.
_ Eu sinto muito... – respondeu no mesmo tom, enquanto as lágrimas desciam livres pela face alheia.
_ Há tanta coisa que eu preciso lhe dizer... – e beijou-lhe o pescoço, apertando o corpo contra si.
_ Conte-me... Quando eu... V-voltar... – gaguejou embriagado com os toques e o cheiro alheio. – Seokkie...
“Talvez não dê tempo quando você voltar”, pensou ele, segurando aquelas madeixas douradas e macias, enquanto tomava-lhe a boca num novo ósculo.

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