segunda-feira, 13 de junho de 2016

Moonlight - Capitulo Doze

Senhores passageiros com destino a São Paulo, por favor, dirijam-se ao portão 04. – anunciou a voz no interfone.
As órbitas azuladas alternaram entre as mãos entrelaçadas e as pessoas que transitavam próximas deles. A partida do jovem arquiteto seria mais dolorosa do que ele imaginava. Disso, o Mestre tinha total certeza. Afinal, Suho foi seu maior porto-seguro que conhecera na vida e, agora, ele estaria partindo. Com a cabeça descansada em seu ombro, Joonmyun tirava um breve cochilo, já que a viagem de volta à Busan seria um pouco longa. Gradativamente, as Vênus se abriram, vagando pela pequena parede a sua frente – seis caçadores formavam uma meia-lua em torno da dupla –, enquanto um pequeno sorriso deixava seus lábios suavemente carnudos. Por fim, o loiro suspirou longamente, acomodando-se melhor ao lado do outro.
_ Pare de ficar em alerta como um cão de guarda. – comentou, logo arrancando um meio sorriso do mais velho. – Estou falando sério, Minseok. Você está esmagando a minha mão com seu nervosismo.
_ Desculpe. – sussurrou, afrouxando o aperto.
O mais novo avaliou a face séria do outro por alguns minutos, enquanto uma leve pontada de dor se apossava em seu peito. Joonmyun não queria partir. Principalmente, não depois da conversa de ambos após o ato consumado. Mesmo lhe beijando apaixonadamente, mesmo lhe tocando em partes que o arrepiavam, a mente de seu amante parecia estar em outro lugar. Quando finalmente foi lhe questionado a razão pelo qual estava alterado, Minseok explicou que talvez, só talvez, aquela fosse a última vez que ele o veria vivo. O loiro ficou confuso quanto às palavras alheias, principalmente quando este complementara: “por favor, aproveite esses últimos minutos comigo”.
Mas, afinal... O que ele estava escondendo?
_ Não precisava ter vindo. – falou baixinho, enquanto o olhava.
_ Eu... Precisava. – respondeu sem olhá-lo.
_ Não... Está me escondendo de nada... Não é? – comentou, sentando-se melhor na cadeira. – Minseok.
Aos poucos, o líder da Ordem desviou a atenção para as órbitas castanho-esverdeadas do menor e, lentamente, afagou-lhe o rosto, roubando-lhe, assim, um beijo discreto, no instante exato em que anunciaram que o avião com destino à Busan partiria em 20 minutos. De imediato, o coração de Joonmyun disparou contra o peito, fazendo-o se erguer e abraçar o homem de madeixas acinzentadas por alguns minutos. Se ele lhe ordenasse para ficar, com certeza, o rapaz ficaria. Sem sequer pensar duas vezes. Porém, o conhecia melhor do que ninguém e tinha certeza de que o outro não faria aquilo consigo. Minseok sorriu de leve, afagando-lhe os cabelos, enquanto ouvia baixinho o choro alheio e selou-lhe a têmpora, limpando suas bochechas coradas.
Faça-me ficar”, implorou mentalmente, erguendo a atenção para o rosto redondo e as pedras preciosas. “Não me deixe partir”. Joonmyun continuou em silêncio, reprimindo o choro que ameaçava deixar sua garganta e, prontamente, agarrou-lhe pelo pescoço, colando as bocas num ósculo desajeitado. Minseok segurou o corpo próximo de si e, lentamente, o afastou, apartando o beijo. Ofegaram baixinho, ao que o maior arrumou as roupas alheias – anteriormente amassadas por suas palmas – e entrelaçou mais uma vez as mãos.
_ Esperem aqui. – ordenou aos caçadores sem olhá-los, enquanto pegava a mala do outro e arrastava na direção do portão 01.
Joonmyun engoliu o choro, escondendo o rosto por baixo do capuz e acompanhou o outro que mancava devagar pelo saguão. Discretamente, sua mão se soltou da semelhante alheia, fazendo Minseok desviar os olhos para si e finalmente parar de andar. O mais velho esperou pacientemente para que o outro o seguisse até a fila de embarque, quando o rapaz segurou seu braço e o agarrou com força.
_ Se eu vou partir, devo pelo menos relutar um pouco. – murmurou, notando o discreto sorriso alheio. – Sabe que a Sede em Busan está quase pronta, não sabe?
_ Sei. – concordou, continuando a andar. Joonmyun o fitou breve e baixou os olhos, suspirando arrastado. Logo que ambos chegaram à fila, Minseok lhe entregou a mala e pousou as mãos em seu rosto, fazendo-o olhá-lo nos olhos pela última vez. – E eu mal posso esperar para voltar para casa.
_ Eu também. – sorriu choroso, abraçando-o em seguida.
Permaneceram naquela troca de calor por alguns segundos e somente se separaram quando anunciaram que o avião partiria logo. Joonmyun limpou o rosto molhado e sorriu largo, se afastando do outro. Sem olhar, Minseok sentiu quando um de seus caçadores lhe entregou a bengala, retornando ao lado dos outros. As safiras brilhantes observaram o rapaz entregar a passagem e mostrar o passaporte, agradecendo pela permissão para passar. Entretanto, antes que entrasse no corredor, sua atenção se virou para o noivo que sorriu, acenando de leve com a mão.
_ Prometa-me que vai ficar vivo quando eu voltar. – sibilou, recebendo um aceno positivo com a cabeça. – Eu te amo. – murmurou, se afastando em seguida.
Minseok esperou que o outro sumisse de seu campo de visão e retornou ao banco onde estava anteriormente. Devagar, se sentou, suspirando arrastado e ordenou que um dos caçadores fosse ao setor de check in, a fim de ter certeza de que Joonmyun partiu no avião. Logo que o caçador se afastou, o homem de madeixas acinzentadas removeu o celular do bolso e ligou-o – havia desligado, já que não queria ser interrompido durante a partida do outro –, notando que havia seis ligações perdidas de seu Mordomo. Parecia ser urgente o que Jongdae tinha para falar. Rapidamente, excluiu as ligações, recebendo a notícia de que o avião partira e, finalmente, o líder da Ordem deixou o aeroporto.
Durante a viagem de volta à Ordem, os brilhantemente profundos Netunos vagaram pelas ruas escuras e movimentadas da cidade londrina, ainda que seus pensamentos estivessem concentrados nos próximos passos de seu plano. Minseok sabia que a partir daquele momento, sua atenção se voltaria completamente aos treinamentos do futuro Mordomo de seu irmão. Se ele não estivesse enganado, Kyungsoo havia evoluído bastante nos últimos dias e era esperado que ele se tornasse melhor do que Jongdae. Aos poucos, do lado de fora, a chuva aumentava, embaçando os vidros do veículo que virara numa esquina, seguindo até a mansão dos caçadores. 
E, enquanto o líder divagava sobre o que faria dali em diante, Jongdae observava o carro preto se aproximar devagar da mansão. Apesar de ter obedecido às ordens de seu Mestre – em treinar Kyungsoo –, o jovem Mordomo ainda precisava conversar com o líder sobre o rapaz. Suas vestes – uma camisa branca e uma calça preta – estavam extremamente encharcadas, já que, desde as cinco da tarde, a chuva não dera uma trégua. Sua respiração soprava um pouco de fumaça e todo o seu corpo tremia levemente de frio, porém, sequer arredou os pés da entrada. Quando finalmente o veículo estacionou, o moreno abriu o guarda-chuva e seguiu até a porta, abrindo-a, enquanto cobria o homem de madeixas acinzentadas.
_ Para me ligar muitas vezes, você deve ter algo bastante importante para dizer, não? – comentou, segurando o guarda-chuva, após sair do carro. – Entre. Você está encharcado.
Entretanto, o outro não lhe seguiu. Suas órbitas escuras encararam o chão por alguns minutos, antes de desviarem para o homem que se afastava. Jongdae não podia permitir que seu Mestre fizesse aquilo com o ‘recruta’. Independente de quantos anos aquele rapaz tinha, Kyungsoo não podia assumir uma posição que, a qualquer momento, causaria sua morte. E, no instante em que chegou aos pés da escada, Minseok parou e se virou, observando seu Mordomo se aproximar devagar.
_ Vai matá-lo. – murmurou diante o Mestre que ameaçou se afastar. – Kyungsoo não vai suportar.
_ Eu não vou matá-lo, Jongdae. – comentou, atravessando o hall de entrada. – E Kyungsoo é forte o suficiente para...
_ Ele não vai. – Jongdae se pôs diante o líder da Ordem, respirando com calma. – Kyungsoo está assustado com o seu plano e o senhor quer colocá-lo num fogo cruzado?
_ Jongdae. – Minseok suspirou, arqueando uma das sobrancelhas. Algo que fez o moreno tremer, porém sequer desviou os olhos do outro. – Minhas intenções para com Kyungsoo são apenas para ajudá-lo. Ele precisa ser forte.
_ Teste-o quantas vezes o senhor quiser. – falou levemente hesitante. – Kyungsoo não suportará. É um peso muito grande para carregar nas costas!
_ Por que algo me diz que ele é capaz disso? – questionou.
_ Ele está apenas obedecendo a uma ordem sua, meu senhor. – devagar, o moreno se aproximou, encarando intensamente as íris brilhantemente azuladas. – Não percebe que ele só faz isso para agradá-lo? Kyungsoo não está preparado. – por fim, engoliu em seco, baixando os olhos. – Quando menos esperar, ele estará morto e...
_ E? – gradativamente, sua sobrancelha arqueou. – E o que, Jongdae?
_ A probabilidade de seu irmão também morrer é ainda maior. Ou pior... Ele pode se tornar um deles. – sussurrou.
_ E você acha que Kyungsoo não é capaz de proteger Baekhyun? – questionou.
Em resposta, Jongdae assentiu minimamente, baixando a cabeça. Os traços felinos avaliaram em silêncio as feições do jovem Mordomo que ainda encarava o vazio. Por um lado, Minseok não estava errado em escolher Kyungsoo para a tarefa de proteger seu irmão mais novo. Afinal, o ‘recruta’ é um ótimo lutador com pouco potencial explorado. Por outro, talvez ele tivesse razão quanto ao garoto: até onde o líder da Ordem conseguiu acompanhar, o baixinho de olhos grandes não conseguiu vencer o seu assistente.
Todavia... Minseok não mudaria a sua escolha.
_ Então, por que não me escolheu para proteger...
_ Por que você o mimaria mais do que o ajudaria, Jongdae. – respondeu, vendo-o piscar surpreso. – Preciso de alguém que faça meu irmão crescer e amadurecer. E Kyungsoo é capaz disso. – por fim, suspirou arrastado, seguindo na direção da escada para o andar acima. – Agora, troque suas roupas e...
_ Não, Minseok. – o timbre do mais novo soou quase como um rosnado para o líder que parou no meio da escadaria, desviando gradativamente a atenção para o Mordomo que se virou em sua direção, encarando-o. – Como você mesmo disse: eu serei seu instrutor de combate ao anoitecer. Agora, desça as escadas. É uma ordem.
Pouco a pouco, as órbitas azuladas se estreitaram, enquanto os pés do líder da Ordem desciam, um por um, os degraus da escadaria. O Mordomo observou o mais velho parar finalmente a sua frente e lhe entregar a bengala quando este estendeu a mão. Aquela troca de olhares durou exatamente dois minutos; o suficiente para que Jongdae ordenasse que Minseok fosse ao jardim e o este último sorrir levemente surpreso com a atitude alheia. Afinal, ele não esperava que o outro agisse assim. Por fim, seguiram para o jardim, onde se despiram da cintura para cima e retornaram ao treinamento.
Durante todo o combate, nenhuma palavra fora emitida. Nem mesmo uma reclamação sobre a situação em que se encontravam. Minseok atacava e se defendia dos golpes do moreno que ainda estava confuso com a decisão do mais velho. Lutaram sem se importar com as futuras marcas que permaneceriam em seus corpos. Entretanto, quando o líder avançou contra Jongdae, o mesmo o girou, derrubando-o no chão e prendeu ambas as adagas próximas ao seu pescoço.
Mais afastado dali, Kyungsoo assistia ao combate extremamente surpreso com o que acabou de presenciar. Como podia o Mordomo do líder ameaçá-lo dessa forma? Temeroso, o ‘recruta’ seguiu até a varanda, fazendo os dois homens desviarem a atenção para si involuntariamente.
_ É exatamente assim, Sr. Kim, que Kyungsoo se sente. – murmurou próxima a orelha alheia. – Como se o senhor tivesse colocado uma faca em sua garganta.
Por fim, o soltou, deixando as adagas ao lado do Mestre e se afastou. Minseok observou a silhueta do moreno desaparecer de seu campo de visão e logo se ergueu, levemente ofegante. Kyungsoo assistiu o maior se afastar em passos largos, entretanto, não ousou chamá-lo. Afinal... Jongdae estava de cabeça quente. Aproximando-se da varanda, as íris brilhantes do líder se desviaram para o rapaz que baixou a cabeça, permanecendo em silêncio.
_ Você nos ouviu? – questionou, notando a hesitação alheia. – Kyungsoo.
_ Sim, senhor. – murmurou.
_ E o que Jongdae dissera... É verdade? – fitou-o, notando o olhar nervoso do moreno. – Pode responder.
_ Em... Partes. – engoliu em seco.
_ A tarefa que lhe dei... – encarou-o. – É árdua demais para cumprir?
_ N-não... Senhor. – gaguejou, por fim, olhando-o.
_ Então, não há nada o que temer, Sr. Do. – concluiu, afastando-se em seguida.
Mancando devagar, Minseok subiu as escadas e atravessou o longo corredor, rumando em direção aos seus aposentos. Sua mente repensou nas palavras de seu Mordomo e sobre as hipóteses citadas pelo mesmo durante a conversa dos dois. “Talvez Kyungsoo precise de um forte incentivo para continuar treinando”, pensou, abrindo a porta de seu quarto. Ao adentrar o cômodo, notou que o silêncio ali era demasiadamente sombrio. Como se seu quarto somente obtivesse vida com a presença de Joonmyun. Ou... Da outra pessoa. Um suspiro arrastado abandonou seus lábios, fazendo-o andar devagar até a varanda e abrir as janelas, onde o vento frio percorreu por seu corpo, agitando as cortinas.
_ Quanto tempo faz... – uma voz suave soou próxima aos ouvidos do líder, lhe fazendo andar alguns passos para fora do quarto. Sentado no parapeito da varanda, Luhan estendia a mão para uma biqueira, onde escorria a água da chuva, enquanto mantinha os olhos avermelhados no humano. – Desde que vim aqui?
_ Combinamos de que não viria mais. – alegou.
_ Eu sei. – concordou, sorrindo de leve, logo sacudindo a mão e enxugando-a nas roupas. – Mas eu precisava vê-lo.
O castanho desceu do parapeito e caminhou lentamente na direção do menor que lhe encarava em silêncio. Três segundos foram o suficiente para Luhan sorrir e tocar-lhe o rosto com seus dedos frios. Entretanto, ao ameaçar beijá-lo, Minseok segurou-lhe o pulso, algo já esperado pelo Príncipe: o líder da Ordem não voltaria atrás com suas decisões. Gradativamente, um meio sorriso se formou nos lábios finos do vampiro que desviou a atenção para o pulso, sentindo aquele pequeno metal queimar um pouco sua pele. A prata da aliança no anelar alheio estava surtindo efeitos em si.
_ Estou vendo que essa aliança ainda vai me dar trabalho. – comentou, afagando o pulso quando o outro lhe soltou. – Por quanto tempo vai me evitar?
_ Luhan... – Minseok recomeçou, porém seu corpo foi rapidamente empurrado para a outra extremidade da varanda, parando finalmente contra o parapeito. O rosto pálido e as órbitas de Marte estavam tão próximos de suas semelhantes de Netuno que, por um momento, sentiu a respiração alheia contra a sua pele. – O que está fazendo?
_ A pergunta certa é “o que estou pensando em fazer?”, Minseok. – e sorriu largo, pousando a mão em cada lado do corpo alheio. – Acredite: estou lutando muito para não destruir as suas roupas nesse exato segundo.
_ Pensei que respeitasse as simbologias. – e o fitou.
_ Apenas algumas. – sorriu. – A aliança no anelar não significa absolutamente nada para mim.
_ Para os humanos, há um significado. – rebateu simplista.
_ O que eu quero dizer, Sr. Kim, é que eu não me importo se és ou não noivo de alguém. – foi direto, notando o arquear da sobrancelha alheia. – Eu quero você e isso basta.
_ E quanto ao seu Matador? – questionou, conseguindo afastar um pouco a criatura de muitos séculos. – Sehun o ama, sabia disso?
_ Sehun. – repetiu, pensando um pouco. – Eu também o amo, mas... Não é o mesmo que sinto por você.
_ Oh, por favor. – Minseok revirou os olhos, fingindo estar cansado. – Não me coloque em um daqueles romances góticos vampirescos de adolescente.
_ Claro que não. – o castanho riu. – Nosso relacionamento não pode ser descrito em um livro. Somos muito mais do que isso.
_ Nosso relacionamento? Acha mesmo que temos alguma coisa, Príncipe? – e estreitou os olhos, se aproximando. – Pensei ter deixado bastante claro sobre minha posição.
_ Até quando irá negar? – perguntou.
_ Perdoe-me. – bufou, balançando a cabeça. – Mas não gastarei minha saliva para repetir o que acabei de dizer.
Antes mesmo que o líder pudesse retornar para o seu quarto, Luhan o puxou novamente pelas vestes e o prendeu contra o pilar, ameaçando tomar os lábios alheios. Porém, Minseok removera a pequena adaga prateada e a encostou no peito alheio, apenas esperando o próximo movimento do vampiro. Com as bocas a milímetros de distância uma da outra, o castanho desviou a atenção das safiras para o objeto gelado contra a sua pele, bufando e sorrindo surpreso. O Príncipe estava notando que todas as suas investidas para com aquele humano não estavam lhe dando êxito, afinal. E, no segundo em que decidiu proferir suas palavras, as luzes de toda Londres se apagaram subitamente.
Não havia um único ponto de luz no meio daquela densa escuridão. Nem mesmo as luzes do Palácio de Westminster iluminavam o grande relógio famoso. Até mesmo as nuvens carregadas pareciam ser assustadoramente gigantes aos olhos dos mais medrosos. Minseok somente conseguia ver a cidade londrina através dos relâmpagos que se faziam presentes após a queda dos raios. Entretanto, sequer o Príncipe conseguia entender o motivo de “desligarem as luzes”.
_ Pelo visto... – e desviou os olhos para o horizonte. – Londres permitiu-se ser apagada.
_ Queda em uma subestação? – murmurou, seguindo o olhar alheio.
_ Provavelmente. – sussurrou ao que sua face foi iluminada por um novo relâmpago. – Vivi por muitos anos em Londres. Eles não desligariam as luzes da cidade por escolha própria.
_ Tentará descobrir o que é? – questionou Minseok, observando-o se afastar e arrumar o longo sobretudo no corpo.
_ Prometo não demorar muito. – e o olhou, sorrindo maroto. – Nem sentirá a minha falta.
_ Convencido. – sibilou, ouvindo a risada alheia.
_ E antes que eu me esqueça. – por fim, se virou para encará-lo. – Encontrei dois corpos a caminho daqui. Homens. Na faixa dos 30 anos.
_ Em que estado?
_ Irreconhecíveis aos olhos humanos. – e deu de ombros. – Quase não consegui diferenciar o cheiro deles, já que tinha muito sangue e miolos para todos os lados. – Luhan logo remexeu nos bolsos do casaco e retirou um pequeno bilhete, entregando ao outro. – Estas são as coordenadas.
Minseok recebeu o pequeno pedaço de papel, abrindo-o e leu as coordenadas da localização, entretanto, ao erguer os olhos para frente, percebeu que Luhan havia desaparecido. De alguma forma, o Príncipe tinha razão quanto ao blackout na cidade. Não seria possível que um humano descuidado tenha desligado toda a energia. Em passos lentos, se aproximou do parapeito e recostou-se ali, enquanto observava silenciosamente a cidade escura ficar temporariamente mal iluminada pelos céus. Subitamente, as portas de seu quarto se abriram, ao que Yixing e Jongdeok adentraram o cômodo, caminhando até o líder que estava perdido em devaneios.
_ Meu senhor, não há energia. – disse Jongdeok. – Ordenei que os caçadores ficassem em alerta, em caso de ataque.
_ Sabe de alguma coisa, não sabe? – questionou Yixing.
_ Ainda não. – negou, baixando os olhos para o pedaço de papel. – Mas temos um problema.
_ Qual? – devagar, o chinês se aproximou.
_ Mais corpos apareceram. – suspirou, entregando-lhe o pedaço de papel. – Envie uma equipe para limpar o local.
_ Sim, senhor. – concordou o outro, rapidamente deixando o lugar.
_ Se o senhor me der licença... – Jongdeok curvou-se breve, porém ao ameaçar sair, seu nome fora pronunciado pelo líder, fazendo-o se virar para o outro.
_ Onde está... Seu irmão? – questionou, desfazendo o cinto. Além do mais, ele sequer pegou sua camisa de volta.
_ Provavelmente, em seus aposentos, meu senhor. – explicou.
Minseok removeu o cinto, colocando-o sobre a cadeira e apenas assentiu, gesticulando para que o outro saísse. Jongdeok o fitou por alguns segundos antes de, finalmente, deixar o cômodo escuro. Logo, removeu a calça, estendendo-o sobre o móvel, porém, antes que entrasse no banheiro, a porta de seu quarto se abriu, revelando a fisionomia forte e seminua de seu Mordomo. Jongdae vestia apenas a calça escura de dormir, enquanto levava os sapatos e a camisa de seu Mestre em um dos braços.
_ O senhor se esqueceu... – alegou, olhando-o. – Na varanda. – por fim, caminhou até a cadeira e colocou os pertences ali, curvando-se breve. Jongdae sequer imaginava que o outro estaria apenas de boxer preta. – Com licença.
_ Jongdae.
A voz de Minseok soou baixa, mas o suficiente para que o moreno parasse diante a porta e desviasse gradativamente a atenção para o mais velho. Diante das safiras brilhantemente azuladas, nem mesmo parecia que seu Mordomo era fisicamente atraente, ainda que este vestisse algumas roupas justas. Afinal, quantos anos se passaram desde que ele se tornara seu assistente? E como, somente agora, ele percebera as mudanças alheias? Jongdae estava demasiadamente mudado e isso era bastante notável através dos relâmpagos que iluminavam do lado de fora como constantes flashes. O silêncio entre os dois homens duraram longos e quase incontáveis minutos, apenas encarando-se quando o mais novo quebrou o contato. No fundo, ele ainda se sentia desconfortável com a presença e o olhar alheio.
_ O senhor precisa descansar, meu senhor. Boa noite. – alegou, acenando com a cabeça e deixou o cômodo. 

Estando a dois quilômetros do local de onde provavelmente viria o motivo pela falta de energia, Luhan notou que havia um cheiro pairado no ar, completamente diferente do que estava acostumado a sentir. Uma mistura de sangue, chuva e um odor altamente repugnante. Involuntariamente, seus pés interromperam a corrida diante a entrada da subestação, enquanto observava atentamente em volta. Pelo chão cimentado, ainda era possível ver os últimos resquícios de sangue escorrer para o esgoto, além, é claro, de que as correntes do portão estavam quebradas e alguns pedaços espalhados. Cautelosamente, o Príncipe adentrou o território, caminhando devagar pela torres elétricas, quando escutou um silvo atrás de si.
Desconfiado, se virou devagar, notando que nada estava lhe seguindo. O que era estranho. Afinal... Luhan sentiu a presença de mais alguém ali. E, antes que continuasse seu trajeto, seus pelos se eriçaram ao sentir a presença de um inimigo lhe atacando. Num reflexo instantâneo, girou o corpo no tempo suficiente para não ter parte de seu tronco removido por dentes caninos. Prontamente, o castanho entrou em posição de ataque e avançou contra a criatura que gargalhou animalescamente, revidando com um contra-ataque. Por muito pouco, as garras não cortaram a garganta do vampiro, que deslizou por baixo do braço do monstro, logo o segurando e arremessando-o contra alguns fios de alta tensão.
Levemente ofegante e surpreso, Luhan assistiu a criatura grunhir e se remexer contra os fios, parando somente quando o cheiro de pelos queimando chegou aos seus sentidos. Ele estava assando. Sem compreender o que aquilo era exatamente, o Príncipe desviou a atenção para o caminho que seguiria, entretanto, o mesmo estava barrado por outras duas criaturas semelhantes e um homem entre elas. Trajando suas vestes escuras – um sobretudo aberto e uma calça rasgada nas pernas –, o homem sorriu, destacando a sobrancelha cortada ao arqueá-la.
Ora, ora... Vejam o que temos aqui. – começou, em seu timbre grave. – Uma sanguessuga... Da Máscara. – ao ouvir aquilo, Luhan franziu o cenho confuso. Como ele podia saber da Máscara? – Perdida, princesa?
_ Parece que sim. – a voz grotesca de uma das criaturas ecoou pela subestação, surpreendendo o vampiro. Aquele animal não poderia falar... Poderia? – O que foi? O cão comeu sua língua?
_ Talvez ela seja apenas tímida. – justificou o homem, se aproximando devagar. – Não gosta do escuro, princesa?
Luhan afastou-se um pouco do trio, algo que estranhamente agradou o homem, fazendo-lhe sorrir mais abertamente. E, num estalar de dedos, as duas criaturas avançaram contra o vampiro, que saltou, logo subindo em uma das torres. Todavia, o castanho não esperava ser seguido pelas mesmas. Prontamente, o Príncipe ficou de pé e avançou contra os monstros, chutando-lhes as faces animalescas, mas antes que pudesse despencar da torre – como planejara – seu pé foi firmemente segurado por uma das criaturas, enquanto a outra lhe rasgava o corpo.
Não demorou muito para que o cheiro de sangue enchesse suas narinas e o enfurecesse. Num movimento rápido, socou o crânio da criatura que o segurava, afundando sua mão no mesmo e, rapidamente seu pé foi largado, fazendo-o despencar de 10 metros de altura. Infelizmente, Luhan não conseguiu se fincar de pé e seu corpo tombou sobre o concreto, praticamente aos pés do homem. As órbitas escuras e brilhantes do estranho avaliaram as condições do vampiro e uma risada deixou seus lábios, enquanto se abaixava próximo. 
_ Examinando melhor... Você não é uma garota. – comentou. – O que o próprio Príncipe da Máscara está fazendo aqui? Por acaso, veio me atrapalhar, alteza? – subitamente, o corpo da segunda criatura caiu ao lado dos dois. – Ah, não... Você acabou de matar o Luke.
_ Devemos matá-lo? – a ultima criatura pousou ao lado do homem, rosnando para o vampiro que, inutilmente, se afastava dos dois. – Ele também matou o Mike. – e apontou para o monstro nos fios de alta tensão.
_ É... Por que não? – e sorriu, olhando para Luhan. – Nunca fui fã dos vampiros mesmo.
Desesperado, Luhan tentou se erguer, porém foi inútil, já que o homem chutou cruelmente suas costelas, fazendo-o gritar de dor. Constantemente, o – aparentemente – humano lhe ordenava para que chamasse pelos seus seguidores, sendo respondido por grunhidos e gemidos de dor. “Onde estão as suas sanguessugas, Princesa?”, questionou num sussurro. Enquanto repetia, a mente do Príncipe se focava nas feições de seu Matador, numa súplica para que ele o ouvisse. 
Se Sehun, pelo menos, lhe atendesse...
_ Deixe-me matá-lo. – pediu a criatura, recebendo um aceno de negação.
_ Eu cuido dele. – falou, voltando a atenção para o vampiro.
E, no segundo em que quase lhe esmagou a garganta, o homem foi segurado e arremessado para longe, ao que seu corpo se chocou contra o da criatura, caindo bem mais afastado da “vítima”. Cansado e gravemente ferido, Luhan ergueu a cabeça, avistando a fisionomia encharcada e furiosa de Sehun que encarava seus oponentes em silêncio. O Matador removeu as duas armas dos coldres e caminhou devagar na direção da dupla, quando o monstro avançou em si num salto. Diante das órbitas avermelhadas, o ruivo pulou e girou o corpo, colocando os canos contra as costas da criatura para, no fim, puxar os dois gatilhos.
Assim que tornou a ficar de pé, voltou a seguir a criatura, enquanto descarregava as duas armas até que o monstro não se movesse mais. Infelizmente, Sehun não conseguiu impedir que o homem avançasse em seu Príncipe e o assistiu segurá-lo pelo pescoço, antes de enterrar as garras no abdômen. Luhan arfou e relutou contra a invasão, segurando sua mão com seus últimos resquícios de força na vã tentativa de expulsá-lo. E, finalmente, o homem arremessou o castanho para o Matador que o segurou surpreso.
_ Tem três segundos para desaparecer da minha frente ou a Máscara ficará sem Príncipe e Matador. – começou. – Um...
E Sehun segurou firmemente o corpo de seu Mestre, deixando imediatamente a subestação. Sem esperar mais um instante, ambos se refugiaram no apartamento escuro do próprio Matador, que logo descansou o corpo quase destruído e ensangüentado de Luhan sobre a cama. Ágil, o ruivo abriu as roupas do mais velho, examinando os ferimentos gravíssimos. Por fim, ele abriu a gaveta da mesa de cabeceira e retirou uma faca dali, se cortando em seguida.
_ O-o que está fazendo? – murmurou sem forças.
_ Precisa de sangue. – resumiu, puxando-lhe o corpo e ofereceu-lhe o pescoço.
Luhan admirou pela última vez a tez pálida com seu contraste vermelho vivo e afundou os dentes na fenda, sugando-o. Por um segundo, o Matador sentiu parte de suas forças se dissiparem, mas se manteve forte para seu Mestre. Numa delicadeza fora de seu normal, seus dedos longos afagaram as madeixas castanhas do mais velho que estava muito mais interessado no que corria em suas veias ao invés do próprio dono. Aos poucos, Sehun pode vislumbrar parte dos ferimentos alheios se fecharem, permanecendo apenas a de seu abdômen. Logo, o Príncipe o soltou, tombando na cama e ofegou cansado, enquanto examinava a situação em seu próprio corpo.
_ Como me encontrou? – questionou, vendo o ruivo cambalear um pouco ao se levantar.
_ Eu estava por perto. – respondeu.
_ Mentira. – disse, vendo-o andar até o pequeno frigobar e abri-lo, retirando duas bolsas de sangue. – O que fazia em Manchester? Pôquer?
_ Estava investigando um assunto. – explicou, retornando e entregou-lhe uma das bolsas. – Tome. Precisa se recuperar.
_ Sehun. – Luhan segurou o pulso alheio, encarando-o longamente. – Sobre o que estava investigando?
_ Sobre as mortes estranhas em Londres. – suspirou, se soltando. Logo, o ruivo subiu na cama e posicionou-se entre as pernas do castanho, afastando os tecidos do corpo alheio. – Não havia apenas aqueles corpos que o senhor encontrou. – explicou. – Os moradores de Manchester estão achando que algum animal está passeando pelas ruas de lá.
_ E o que você acha que é?
As íris de Marte do mais novo avaliaram a face séria de seu Mestre por alguns longos segundos e desviaram para o ferimento no abdômen, lambendo, assim, a extensão. Involuntariamente, Luhan suspirou de prazer, enquanto tomava do sangue recebido de seu Mordomo. Quando a superfície do corpo alheio se tornou lisinha e pálida, como o restante do corpo, Sehun limpou a boca com o dorso da mão, voltando à atenção para as feições suaves do castanho que, com dificuldade, sentou na cama e deslizou o polegar por sua bochecha, limpando uma pequena mancha de sangue.
_ Não se mova tanto. – sugeriu. – Eu apenas fechei o ferimento. Não o curei.
E deixou a cama, ajudando-o a deitar novamente. Alegando que ficaria de vigilância naquela noite, Sehun seguiu para a poltrona ao lado e sentou-se, recarregando as duas armas. Luhan o observou em silencio e reprimiu um sorriso quando o viu fechar as grossas cortinas e janelas. Todavia, havia uma pergunta ao qual o castanho não conseguia uma resposta plausível.
_ Quem é aquele homem? – questionou num sussurro. – O que nos atacou hoje?
 Subitamente, as luzes do apartamento se acenderam, assim como o restante da cidade. Sehun abriu uma fenda nas cortinas, notando que Londres estava, mais uma vez, iluminada pelas luzes dos postes. Logo, voltou a se acomodar novamente na poltrona, porém, notou que as órbitas de Marte estavam direcionadas ao seu rosto. Luhan ainda esperava uma resposta, afinal, ele viu o mesmo homem enfrentar seu Matador há duas noites. E o ruivo percebeu isso.
_ Sehun. – recomeçou, escutando-o suspirar.
_ Há duas noites, estava saindo de um bar em Liverpool quando encontrei esse homem acompanhado de outro. – começou. – Ambos comentavam que muitas coisas mudaram desde a última vez que estiveram na Inglaterra. Ele parecia não concordar com o estilo medieval e imperial da Inglaterra. “Prefiro as tecnologias avançadas do Japão”, alegou na conversa.
_ Tecnologias do Japão? – repetiu.
_ Exato. – assentiu. – E aquela não foi a primeira vez que ele veio à Inglaterra.
_ Está dizendo que ele conhecesse essa ilha... Antes da Revolução Industrial? – questionou, notando o silêncio alheio. – E o que o fez retornar 175 anos depois?
_ Eu não sei. – negou. – Mas posso investigar melhor, se o senhor quiser.
_ Ainda não. – disse, se acomodando melhor sobre o colchão.
Sehun o observou o castanho adormecer em sua cama e um suspiro arrastado abandonou seus lábios finos. Rapidamente, ele pegou o celular e discou para um dos protegidos da Máscara, que após o terceiro toque, lhe atendeu. Em poucas palavras, o Matador ordenou para que a moça do clã Ventrue fosse ao seu apartamento e ficasse em vigilância constante do Príncipe. Após as ordens dadas, o ruivo deixou o local, saltando do prédio e seguiu, numa velocidade sobre-humana, até a Ordem dos Caçadores.
Num salto, o Matador quase ultrapassou os muros da Instituição se não fosse atingido em raspão por uma bala de prata no braço. O ruivo caiu ajoelhado próximo aos limites e rosnou baixo, encarando os postos dos caçadores. Havia seis homens armados apontando para o vampiro que se ergueu, olhando-os com um meio sorriso. Se eles soubessem que seu Mestre sempre visitou o líder da Ordem, teriam reforçado a proteção da Sede antes. Alguns minutos se passaram até que, finalmente, os portões de ferro se abriram, revelando um impaciente Jongdae.
_ O que faz aqui? – questionou, engatando a arma. – E, por favor, espero que tenha uma boa razão.
_ Ficaria surpreso se eu dissesse que meu Mestre se encontra com o seu em quase todas as noites? – comentou, se aproximando. Entretanto, Jongdae não reagiu o que fez Sehun franzir o cenho. – Então... Você sabe.
_ Veio me contar alguma novidade? – perguntou.
_ Estranhamente... Sim. – concordou, parando diante o outro. – Mantenha seus caçadores sob vigilância constante. Londres não é tão segura quando aparenta ser.
_ Como se eu não soubesse.
_ Você não entendeu, Jongdae. – ao sussurrar, Sehun aproximou seu rosto do semelhante do Mordomo. – Alguma coisa maior está por trás dessas mortes estranhas. Por isso, deve ficar em alerta.
_ É uma ordem? – arqueou uma das sobrancelhas, sorrindo de leve.
Sehun alternou os olhos entre os semelhantes negros e os lábios suavemente carnudos do humano e aproximou as bocas o suficiente para deixar o moreno levemente desconsertado. Jongdae podia sentir o hálito gelado e férreo do ruivo que ainda o encarava e sentiu um estranho arrepio ao ouvi-lo murmurar baixinho.
Não é uma ordem, Jongdae. É um conselho.

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