domingo, 12 de junho de 2016

Moonlight - Capitulo Onze

Se o jovem professor pudesse comparar a sua ressaca com algum objeto seria o Empire State Building, em Nova York. Afinal, nem mesmo Baekhyun conseguia entender de onde ele tirara a coragem para quase acabar com a garrafa de uísque de seu irmão. E o pior de tudo é que Minseok não deixou a situação passar despercebida: durante o seu café da manhã na cama, o líder da Ordem deu-lhe um sutil sermão de dois minutos, que mais pareciam uma eternidade. Mas talvez o outro estivesse certo: ele era um homem maduro. Não podia se submeter aos caprichos do álcool.
Seus dedos deslizaram pelas madeixas escuras e levemente bagunçadas, enquanto mais um suspiro deixava seus lábios. E pensar que ele mesmo quase cometeu a loucura de voltar para a Ordem. Sorte sua que seu irmão estava sóbrio e negou seu pedido. Ainda de olhos fechados e com a cabeça pesando sobre a mão, Baekhyun sorriu de leve ao se recordar das palavras alheias: “Eu neguei o seu pedido por que sabia que você se arrependeria depois, Baekhyun. Eu espero que somente tome essa decisão quando estiver completamente sóbrio e certo do que quer”.
Realmente, Minseok estava disposto a cuidar dele.
Suavemente, seus devaneios foram interrompidos pelo tilintar da xícara sobre o pires, fazendo-o revelar as safiras brilhantes e cansadas e desviá-las para o ser ao seu lado. Com um sorriso largo e as roupas escuras – algo que o moreno teria que começar a se acostumar em vê-lo assim –, Richard lhe serviu um pouco de café, enquanto se acomodava em silêncio ao seu lado, já que ambos se encontravam na biblioteca.
_ Deve ter sido uma festa e tanto, não? – questionou, avaliando as roupas alheias. – Está com cara de que bebeu todas e acabou dormindo fora de casa.
_ Mais ou menos. – murmurou, puxando o objeto de porcelana para perto. – Achei que estivesse organizando os livros. – segundo a Sra. McCleen, o carrinho sempre ficava lotado de livros aos quais os alunos não guardavam em seus lugares. Baekhyun sabia disso muito bem, já que muitas vezes vinha para ajudá-la.
_ Eu organizo depois. – alegou, dando de ombros. – E então: qual é o motivo de ter enchido a cara?
_ Eu não enchi a cara. – rebateu, bebericando o café.
_ Tudo bem. Fingirei que acredito.
Richard o fitou por longos minutos, deslizando o indicador sobre a mesa de madeira maciça em um circulo perfeito e assentiu, removendo do bolso uma cartela de comprimidos. Por fim, deixou-a sobre a mesa e, antes de sair, sorriu-lhe abertamente, alegando que ele deveria tomar um remédio para dor de cabeça, se quisesse enfrentar mais algumas turmas naquele dia. Baekhyun alternou os olhos entre o rapaz alto que se afastava, enquanto recolhia os livros deixados na mesa, e a cartela de comprimidos, retirando um. Rapidamente o tomou, terminando seu café e deixou a biblioteca sem se despedir. Ou talvez o moreno quisesse se despedir, mas não havia encontrado o maior dentre os corredores.
Porém, no corredor B4, Richard observava atentamente, pela fenda das prateleiras, o professor de história seguir até a porta e desaparecer de seu campo de visão. Com um meio sorriso e alguns livros em mãos, tornou a guardar os últimos livros na prateleira, seguindo para a enorme janela, mas não se aproximou muito desta, já que o sol se fazia presente parcialmente no céu londrino e aquilo poderia torrá-lo. Literalmente.
O homem não-humano tinha uma desconfiança quanto às características do Professor Byun. Não os olhos. Claro que ele sabia que aquelas pedras preciosas e brilhantemente azuladas também pertenciam ao seu inimigo. Todavia, aquele rosto... Ele já vira aquele rosto em algum momento de sua vida. E se recordava muito bem de que aquelas feições estavam interligadas às antigas semelhantes, contudo, de forma mais madura. Então... Para Richard – ou Chanyeol –, Byun Baekhyun seria a versão juvenil de...?
_ Richard? – ainda que seu pensamento fosse interrompido pela voz suave, o maior não se virou na direção da porta. Claro, numa atuação medíocre de que não houvesse escutado a voz alheia. – Richard.
_ Hã? – e se virou confuso, piscando um tanto assustado. Mais afastado, Baekhyun reprimia um sorriso confuso, ao que o castanho sorriu novamente largo, se aproximando de si. – Ah, Baekhyun.
_ Você, por acaso, fará alguma coisa mais tarde? – questionou um pouco escondido atrás da porta. – Quer dizer... Podíamos sair para almoçar.
_ C-claro. – afirmou, empolgado. – Eu... Adoraria.
_ Então... Mais tarde, nos vemos na sala dos professores. – e, por fim, acenou, desaparecendo de vista.
Nos vemos na sala dos professores. – repetiu num sussurro, enquanto um grupo de alunos entrava na biblioteca.
Aos olhos escuros – cobertos pelas lentes de contato – do novo bibliotecário, as horas pareciam se seguir da forma mais lenta e arrastada possível. A cada minuto que se passava mais alunos entravam naquele espaço, deixando-o falsamente ansioso e faminto. Richard imaginou o que aconteceria se ele trancasse as portas grossas da biblioteca e tomasse do sangue de cada um daqueles alunos estudiosos. Com certeza, seria um enorme banquete, porém, consequentemente, Baekhyun se afastaria de si, pois ele descobriria que Richard Park, na verdade, é Park Chanyeol. E a relação deles seria como aquela saga do vampiro que brilha. O bibliotecário riu de tal pensamento e tornou a se concentrar em sua leitura silenciosa.
Contudo, seu pensamento retornou as feições do jovem professor de História. Talvez fosse alguma coincidência do Destino, afinal... É possível que você conheça quatro ou cinco pessoas parecidas com você durante sua vida. Mas... No caso de Baekhyun, fosse diferente. Quer dizer, tirando a aparência física – que tanto o lembra aquele homem –, o sobrenome não é o mesmo. Richard repensou em algumas hipóteses sobre o nome e o sobrenome do professor, todavia, foi interrompido pelo sino da instituição. Não demorou muito para que os alunos deixassem a biblioteca, permanecendo apenas dois ou três, o que fez o responsável também deixar o espaço, atravessando os corredores movimentados.
Com sua visão aguçada, o vampiro procurou dentre os incontáveis rostos que transitavam, as feições do professor, logo o encontrando com os professores de Biologia, Química e Geografia. Porém, ao invés de se aproximar, permaneceu escondido atrás de alguns armários, lhe esperando. Baekhyun riu de algum comentário feito por Aaron – algo que Richard o identificou após examinar sua grade curricular e se recordar que ele também estava no pub quando reencontrou o menor –, balançando a cabeça e alegou que, somente daquela vez, recusaria o pedido deles. Benjamin – o professor mais comentado dentre as alunas – o fitou levemente entristecido e se conformou, deixando o corredor, juntamente com o amigo e Andrew, que acenara para o moreno, se afastando de vez.
Em passos silenciosos, Richard se aproximou do professor, permanecendo atrás de si e suspirou quase inaudível, sorrindo largo. Baekhyun assistiu os amigos desaparecerem no fim do corredor e, ao se virar, assustou-se com a enorme presença do bibliotecário atrás de si.
Eu te assustei? – perguntou, sorrindo.
_ Quase. – respondeu, rindo baixinho. – Eu... Achei que ainda estivesse na biblioteca. Iria passar por lá agora mesmo.
_ Ah... É que... – e baixou a cabeça, sorrindo tímido. – Eu estava conversando com uma das alunas quando eu te vi...
_ Ok. – estranhou, concordando.
_ Hã... Baekhyun, eu trouxe algum dinheiro e não sei... – começou, meio preocupado, enquanto seguiam pelos corredores.
_ Relaxa. – falou ao que os dois entraram na sala dos professores. – Eu pedi comida para nós dois. Por hoje, fica por minha conta.
O maior se acomodou em uma das cadeiras, ao que Baekhyun fez o mesmo, sentando a sua frente. Não demorou muito para que se servissem e comessem em silêncio. De vez em quando, a atenção do moreno se desviava para o outro que parecia relutar um pouco em comer – o castanho mexia na comida, jogando-a para lá e para cá – e, somente conseguiu devorar alguns pedaços de carne quando o menor insistiu para que o fizesse, já que ele teria uma jornada de trabalho maior que o professor. Richard concordou com as palavras alheias, alegando já estar satisfeito.
_ Mas você não comeu nada. – Baekhyun baixou os olhos para a comida que sobrou no prato.
_ É que... Eu comi alguns biscoitos antes do almoço. – explicou, enquanto se levantava e abria o seu armário, tirando dali, uma garrafa preta.
_ O que tem aí? – perguntou, vendo-o tomar um gole.
_ Sangue. – e o olhou, vendo Baekhyun arquear uma das sobrancelhas. – Brincadeira, é suco de tomate.
Em tese, Richard não estava mentindo. Havia 250 ml de sangue e 250 ml de suco de tomate dentro daquela garrafa. Mas Baekhyun não precisava saber disso. Pelo menos, ainda não. Logo, o bibliotecário se acomodou novamente em sua cadeira e afastou o prato, voltando a encarar os Netunos brilhantes do professor.
_ E o que achou do seu primeiro dia? – Baekhyun questionou. – Cansativo?
_ Achei que fosse mais puxado. – comentou, observando-o comer. – Mas foi divertido.
_ Que bom que gostou. – sorriu de leve. – Espero que fique por mais tempo. A Instituição agradeceria.
Eu também. – concordou. – Hã... Baekhyun, eu posso fazer uma pergunta? – logo, o outro assentiu, mastigando devagar. – Você... É casado?
_ O que? – piscou rápido, quase se engasgando.
_ Ah... É que eu vi sua aliança e... – e apontou para o discreto símbolo no anelar alheio. – Eu pensei que...
_ Não. – negou, rindo e rapidamente se limpou. – Eu estou noivo.
_ Oh, eu não sabia. – comentou surpreso. – Aposto que ela teve muita sorte.
_ Eu acho que fui eu quem teve sorte. – murmurou, sorrindo de leve. – E não se preocupe: você não é o único que não sabia.
_ Não? – olhou-o confuso.
_ Não. – negou. – Até o meu... Meio irmão também não sabia.
Não demorou muito para que o professor de história perdesse o apetite e recolhesse as vasilhas sujas. Quando o assunto se voltava ao seu irmão, tudo em volta do professor se tornava desinteressante.
_ Ok. – Richard agitou as mãos, interrompendo-o. – É melhor você começar do começo. – e mais uma vez, a risada de Baekhyun preencheu seus ouvidos. – Começando pela cor dos seus olhos. Pelo seu nome e de onde veio... Não era para você ter olhos azuis. São lentes de contato?
_ Todo mundo me pergunta isso. Acho que você não é o primeiro e nem será o ultimo a me questionar. – comentou, rindo. – Mas não. A cor dos meus olhos é um defeito genético recessivo. Acabei herdando de meu pai, que herdou do pai dele... E assim, sucessivamente. – explicou.
_ Seu meio irmão também tem os olhos azuis? – claro que ele tem. Baekhyun concordou em silêncio, um pouco pensativo. – Mas... Por que você o considera como “meio irmão”? Vocês não são da mesma família?
_ Eu e ele somos filhos do mesmo pai, mas de mães diferentes. – alegou. – Como... Eu não queria pertencer à família dele, adotei o sobrenome da minha mãe.
_ E como seu nome deveria ser? – Richard piscou devagar, acomodando-se melhor na cadeira.
Kim Baekhyun. – respondeu. – Mas como eu adotei o sobrenome da minha mãe, ficou Byun Baekhyun. – por fim, sussurrou. – O curioso é que minha mãe não se cansa de repetir que sou parecido com meu pai.
Kim Baekhyun.
Agora, Richard entendia a ligação entre o jovem professor e o outro homem... Ele é o filho de Kim Baekhyung. E sim. A mãe dele tinha razão. O menor era quase como uma cópia legítima do pai, porém, bem mais jovem e com traços mais suaves. Com muito esforço, o bibliotecário reprimiu um sorriso animalesco, baixando os olhos para a garrafa e tomou um novo gole da bebida. O moreno notou que o outro estava um pouco diferente, mas antes que pudesse questionar, foi interrompido pelo mesmo com uma nova pergunta.
_ E você acha que ela está certa? – questionou, vendo-o franzir o cenho. – Sobre você ser parecido com seu pai?
_ Não. – mentiu. – Eu vi uma foto dele e eu não sou parecido com ele. – por fim, voltou sua atenção para o maior. – Mas e você? Nome inglês, sobrenome coreano... Quer me explicar isso?
_ Ah... – e riu, balançando a cabeça. – Bom... Eu não menti quando disse que meus pais são sul-coreanos. Só que... Eu nasci durante uma viagem deles com a minha irmã mais velha.
_ Mesmo? – piscou surpreso.
_ Pois é. – deu de ombros. – Os dois estavam no quarto de hotel em Manchester quando a bolsa dela estourou. Eles pensaram em me registrar quando voltassem para Seul, mas a minha mãe tinha tanta pressa que acabou sendo num cartório daqui mesmo. Por isso, quando entrei para a Instituição, tive que levar minha mãe como prova para que me aceitassem. Foi hilário ver a cara do diretor enquanto encarava o meu currículo. Do tipo “como assim, você é naturalmente inglês, mas de descendência sul-coreana?”. – Richard tomou mais um gole antes de continuar. – Mas você se esqueceu de me explicar como conheceu a sua noiva, Baekhyun.
_ Ah... – pensou um pouco antes de começar. – Nós nos conhecemos na Universidade. Foi... Diferente, sabe? Eu realmente iria a uma palestra, enquanto ela foi arrastada pela amiga. – e um sorriso se formou em seus lábios. – Passamos um tempo conversando e entendendo um ao outro. Para dizer a verdade... Ela foi à melhor coisa que já aconteceu comigo.
_ Acho que eu sei como é isso. – murmurou, roubando a atenção do menor. – Eu... Também tinha me apaixonado por uma pessoa assim, só que, num estilo mais clichê. Tipo, ele me olhou e eu olhei para ele... E ficamos numa contemplação mútua por longos minutos até ele partir...
_ Richard... Ele? – franziu o cenho, confuso. – Não é ela?
_ Não. – negou, sorrindo. – O meu primeiro e, talvez, único amor foi um homem. Ele era mais alto do que eu... Bem mais alto, para dizer a verdade. – e riu. – Talvez tivesse 1,93m de altura... E... Deus! Eu era louco por ele. Sei que você não é do tipo que escuta isso, e peço desculpas pelo que irei dizer, mas ele foi o único que me fazia gritar de prazer. – Richard teve que reprimir uma risada alta ao ver o rosto levemente corado e o discreto nervosismo do professor.
_ Uau... – suspirou. – Ele deve ter sido muito importante para você. E como se conheceram?
_ Bem... – começou, pensativo. – Foi há muito tempo. Eu e dois amigos havíamos ido a uma festa de gala que acontecia em Daegu. Não tinha tantas pessoas lá: somente socialites, governadores e alguns presidentes de empresas multinacionais. Meus amigos decidiram se afastar para ver se conseguia alguma garota e eu fui para o bar.
Foi então que eu o vi. Tomava um uísque duplo com gelo e parecia admirar algum grão de pó sobre o balcão de vidro. Ele estava lindo, mesmo aparentando estar prestes a deixar a festa, já que estava sem o terno e a gravata. Meu pai sempre me dizia que eu era muito atrevido e acho que ele tem razão, por que, sem qualquer cerimônia, eu me aproximei dele e paguei uma nova bebida. Naquela noite, nós conversamos pouco, já que o assistente dele apareceu e disse que eles precisavam ir. Mas eu não podia deixá-lo escapar, então, fui atrás dele. E, por muito pouco, não arrumei uma baita confusão.
A questão é que, com o passar dos dias, eu sempre conseguia encontrá-lo. Aonde quer que ele fosse. E ele se surpreendia com a minha capacidade. Tornamo-nos próximos por um longo tempo, mas o problema era que ele só me enxergava como um irmão mais novo. Até eu finalmente declarar o meu amor, ele vivia bagunçando os meus cabelos e ria de minhas palavras alegando que “você é apenas um irmãozinho para mim, Richard”.
Quando eu finalmente revelei meu amor, ele me olhou por alguns minutos, como se tentasse encontrar alguma mentira nos meus olhos, entende? E, quando viu que não tinha nenhuma mentira, que eu realmente o amava do fundo da alma... Ele suspirou e disse àquelas palavras que até hoje me ferem o coração: “Eu não posso fazer isso com você. Eu... Gosto de você, Richard, mas não da mesma forma que você gosta de mim”. Chovia muito naquela noite e eu me encontrava tão fora de mim que o beijei ali mesmo, no beco, sem me importar se ele me abandonaria ou não. O curioso é que ele não o fez. Envolveu-me nos braços com tanta delicadeza... Com tanto amor que jurei que aquela fosse a última vez que fosse fazer. Beijar aquela boca... Sentir aquele cheiro...
E à medida que Richard continuava a contar sua história, mais Baekhyun percebia o quão apaixonado o outro era. Enquanto lhe descrevia a sensação de beijar aquele homem, o maior vagava as órbitas no extenso espaço, como se somente ele pudesse rever aquela cena. Os corpos molhados na chuva, em meio às escuras, abraçados e beijando-se intensamente. Estranhamente, o professor podia ver o típico sobretudo do bibliotecário vestindo o tal homem, assim como as roupas escuras e as botas, enquanto o maior trajava roupas mais simples.
E então, começamos a namorar em segredo. O problema é que... Quatro meses depois, quando voltamos a nos ver, ele revelou que iria se casar e que a garota estava esperando um filho dele. Baekhyun... Eu senti meu chão desabar. Enlouqueci e gritei com ele... Acho que só não o chamei de ‘santo’. Como é que ele podia fazer aquilo comigo?
_ E o que aconteceu depois? – perguntou.
_ Fiquei um tempo sem vê-lo. – murmurou, baixando os olhos para a garrafa. – Em sua despedida de solteiro, ele me encontrou e disse que queria passar sua última noite comigo, já que no instante em que amanhecesse, ele deveria voltar sua atenção para a sua verdadeira família. – devagar, ele assentiu, sorrindo fraco. – Você deve estar pensando que eu fui muito idiota de ter deixado ele me tocar... Mas eu precisava tanto dele que me deixei levar pelos sentimentos.
_ Vocês... – sussurrou.
_ É. Viajamos para Ulsan e fizemos amor naquela noite. – suspirou. – Só que... Eu não consegui deixá-lo, entende? Houve tantos momentos em que me aproximei dele... Que até perco a conta. Quando... – e pigarreou. – Quando a esposa dele morreu, eu vi o desespero dele. Foi a primeira vez que o vi completamente fora de si. Cheguei a lhe sugerir para que eu cuidasse da criança, mas ele não permitiu, alegando que nenhum membro da família dele podia ter noção da minha existência.
Talvez estivesse tentando me afastar.
Um ano depois, ele me veio com outra bomba: disse que precisava viajar para Londres, mas que logo voltaria. Perguntei sobre o que era, mas ele não contou. E partiu. Quando retornou alguns meses depois, disse que se sentia bem melhor. Mas eu sabia que ele estava feliz com outra pessoa. Nossas brigas se tornaram constantes. Eu o odiara tanto que desejei insanamente que ele perdesse o filho e essa nova garota. Mas o tiro saiu pela culatra e ele se tornou pai de um novo garotinho. Os dois garotinhos... Eu cheguei a vê-los de longe, pois não me permitiram a aproximação. Lembro-me bem que, naquela tarde, eu me tranquei no quarto e chorei até me sentir melhor, apesar de realmente não estar. Parecia que, quanto mais eu chorava, mais triste eu me sentia. E dizem que chorar lava a alma, não é?
_ O que você fez depois? – Baekhyun o fitou preocupado, porém, Richard se calou. – Richard?
_ Hã? – e o olhou cansado. – Ah... Bem... Eu... Eu o evitei. Fiquei sem saber de nenhuma notícia dele durante um bom tempo. Ele também não me procurou... Só que... Numa noite, quando eu estava voltando para casa... Meu pai me disse que...
_ O que? – esperou.
Ele o matou. – e fechou os olhos, enquanto o sangue de Baekhyun congelava nas veias. – Meu pai havia assassinado o homem que eu amava depois de tanto tempo.

_ Estas são as bestas que lhe expliquei anteriormente, Kyungsoo. – Jongdeok apontou para os tipos de armas que os caçadores geralmente usavam durante suas caçadas às crias mal-abraçadas. – E, particularmente falando, esta é a minha preferida.
E pegou a arma de madeira maciça. O Chefe dos Caçadores explicou que ela era mais pesada do que as outras e, geralmente, é utilizada em distâncias longas, enquanto seu portador fica escondido atrás dela. “Como uma sniper para os atiradores de elite, entende?”, e o olhou. “E não é muito aconselhável correr enquanto a segura, por causa do peso”, por fim sorriu, colocando-a no lugar. Kyungsoo podia notar a empolgação do homem enquanto falava sobre cada uma das armas e a função delas. Sequer Jongdeok conseguia esconder o sorriso largo e, por um instante, pensou em como seria o sorriso do Mordomo, já que ambos são irmãos. Jongdae sorriria largo como o mais velho?
_ Alguma pergunta? – e o olhou, por fim.
_ Somente os caçadores usam as bestas? – questionou. – Digo... E o líder? O que ele usa?
_ Minseok tem uma artilharia diferente. – comentou, cruzando os braços e encostou-se à bancada. – Ele geralmente usa adagas ou machados, já que muitos de seus inimigos tendem a fazer uma luta mais corporal, entende? Mas se fosse usar alguma arma de fogo, aposte em modelos da primeira e segunda guerra mundial. A preferida dele é uma Colt New Service 1917, calibre.45 ACP. Ele tem duas dessas de prata. 
_ Uau... – piscou surpreso.
_ Pois é. – concordou.  – É muito raro ele usá-las. E, se eu não me engano, só houve uma única vez que ele as usou. – e pensou um pouco. – Estávamos caçando um vampiro antigo... Acho que era um antigo Príncipe da Máscara, eu não tenho tanta certeza, mas pode perguntar a Jongdae. Ele se lembra bem desse dia, já que quase custou a vida dele.
_ Como assim? – franziu o cenho, confuso.
_ Por que não explica ao ‘recruta’ sobre aquela noite em que você quase morreu, Jongdae? – rapidamente, os olhos grandes e escuros de Kyungsoo se desviaram para a porta onde Jongdae os observava em silêncio. – Eu os deixarei sozinhos.
Por fim, Jongdeok saiu da sala de armas, permanecendo apenas o Mordomo e o ‘recruta’, que se encararam por alguns minutos que não pareciam se findar. Kyungsoo assistiu o maior se aproximar devagar e parar ao seu lado, enquanto encarava as bestas. Jongdae não gostava de se recordar daquela noite por que foi a primeira vez que viu seu Mestre fora de controle e extremamente furioso consigo. Afinal, Minseok nunca reagira dessa forma. Consequentemente, aquela também foi a primeira e última vez que ele teve medo.
_ Estávamos numa caçada a um antigo Príncipe, para ser mais exato, o que antecedeu Luhan. – explicou com calma. – Chovia muito e estávamos num número considerável: 3 para 1. Jongdeok, eu e o líder. Entretanto, quando conseguimos encurralá-lo, o vampiro veio na minha direção e eu não fiz nada. Como um “recruta” idiota e inexperiente, eu fiquei com medo e deixei que ele me atacasse. Meu irmão tentou me defender, tirando-o de cima de mim, mas foi jogado para longe. Já o Mestre pulou na criatura e eu me vi livre.
Durante toda a briga entre eles, eu poderia ter pegado a espingarda de Jongdeok e atirado na cabeça do vampiro... Mas eu não conseguia. Só ficava ali, observando Minseok lutar bravamente, disputando força contra força.  Quando o líder foi jogado para longe, a criatura avançou em mim e eu... Eu fugi. E, como recompensa pela minha atitude imatura, ganhei três rasgos nas costas e uma perfuração no peito. Fiquei estático no chão, sem saber o que fazer, se deveria correr ou ficar... E, quando senti que minha garganta seria estraçalhada pela mão dele, o Sr. Kim descarregou suas duas Colts na cabeça do vampiro.
_ D-descarregou? – gaguejou, confuso. – M-mas...
_ Cada arma comporta seis balas. – e o olhou. – Ele descarregou as doze no antigo Príncipe. Depois, Jongdeok cortou-lhe a cabeça e queimou o corpo. Não me lembro bem do que aconteceu após ver as chamas, mas quanto voltei à tona, o Mestre estava muito furioso. – Jongdae se calou por alguns segundos antes de continuar. – Cheguei a lhe pedir desculpas e recebi uma tapa como resposta. Somente percebi o tamanho do meu erro quando ele alegou que eu estava no cargo errado, já que, se eu realmente quisesse proteger o líder, teria que dar a vida por ele. “A função Mestre/Mordomo é uma via de mão dupla. Se você me proteger, eu o protejo, Jongdae”.
Fiquei dois meses da enfermaria e somente sabia do que acontecia na Ordem quando Jongdeok me contava. Em todas às vezes que lhe perguntava sobre o Mestre, ele dizia que o Sr. Kim continuava furioso comigo e que, por hora, mesmo que eu estivesse completamente recuperado, deveria evitar estar no mesmo lugar que ele. E, por muito tempo, me mantive longe dele até que, finalmente fui chamado de volta ao meu posto.
_ E o que fez depois? – questionou.
_ Aperfeiçoei meu modo de combate. – explicou. – Treinei duro e lhe mostrei que eu estava disposto a protegê-lo.
_ E quanto às armas?
_ Estão guardadas, já que as empresas de armamento não produzem mais balas para aquele tipo de arma. – suspirou. – Jongdeok não mentiu quando disse que é raro vê-lo usando uma arma de fogo. Ele prefere as adagas por serem mais fáceis de carregar e utilizar.  – por fim, balançou a cabeça, voltando sua atenção para Kyungsoo. – Por isso, eu espero que você não cometa o mesmo erro que eu cometi, Do. Ou acabará morto.
_ Sim senhor. – concordou, baixando a cabeça.
_ Mas... Quanto à conversa que tivemos ontem... – recomeçou, estreitando os olhos. – Sobre a sua real função que não é me substituir.
_ Bem... – e engoliu em seco. – Eu não sei bem como isso vai acontecer ou quando... Mas, segundo o Sr. Kim, o motivo por eu estar sendo treinado está relacionado ao seu irmão...
_ Para de enrolar e fale de uma vez! – ordenou, segurando-o pelas vestes.
_ Eu irei proteger o seu irmão mais novo. – resumiu, vendo Jongdae piscar rápido e confuso.
_ O que? – franziu o cenho. – Você... Vai... O que?
_ Durante um dos treinamentos com o Sr. Kim, ele me deu uma tarefa e ordenou-me para que eu a cumprisse até o fim. – começou, sendo largado aos poucos. – Mesmo que o nosso líder não sobreviva até lá.
Estávamos em seu escritório quando ele me explicou qual era o meu objetivo. Por mais que ele estivesse calmo, eu percebi que havia uma ponta de desespero em seu timbre quando disse que eu precisava treinar e ser forte, se possível, mais do que você, Jongdae. Ele me contou um pouco sobre os antigos líderes e seus ‘assistentes’ durante o decorrer das décadas. Que muitos foram mortos por seus parceiros e alguns desapareceram completamente do radar. Entretanto, quando seu avô assumiu a posição de líder, as coisas mudaram. Talvez até faça sentido o que você havia me dito: “A função Mestre/Mordomo é uma via de mão dupla”.
O Sr. Kim me disse também que meu treinamento seria completamente diferente dos meus amigos. Eu teria que treinar duro, por um longo tempo e meus instrutores não seria esses ao qual nós, ‘recrutas’, somos treinados. Meus professores seriam os próprios Chefes dos Departamentos. Ele também alegou que meus pertences seriam transferidos para um dos quartos da mansão, para assim, facilitar meu trajeto até a sala de treinamento.
Quando fomos ao pub após visitar a Máscara, ele me mostrou a foto de seu irmão mais novo, Byun Baekhyun, e contou o que havia acontecido no passado entre eles. Eu... Cheguei a lhe perguntar por que ele não escolhia você para protegê-lo, já que você é bem mais experiente do que eu, mas ele se negou. Disse que eu sou mais apto do que você e que ele nunca erra em seus palpites.
Agora, ele me vem com essa conversa de que, além dos Chefes dos Departamentos Médico, dos Caçadores e dos Zeladores... Eu também seria treinado por você! Acho que o nosso Mestre está contra mim. O problema, Jongdae, é que eu não entendo por que! Por que Kim Minseok... O seu Mestre... Decidiu me escolher?
Quando finalmente Kyungsoo se calou, o chão do Mordomo desabou sob seus pés. Agora, todo aquele treinamento, todas as conversas com os Chefes dos Departamentos, tudo... O que estava relacionado à Do Kyungsoo, ao qual o próprio Mordomo pensou ser uma provocação... Estava fazendo sentido. As órbitas pequenas e escuras do moreno se alternaram entre as semelhantes grandes e levemente marejadas do menor que baixou a cabeça e limpou o rosto, controlando o choro. E, sem proferir uma única palavra, Jongdae deixou a sala, quase correndo pelos corredores. Ele precisava falar com o líder imediatamente. Procurando pelos cômodos – todos eles, para ser mais exato –, o moreno não viu sequer uma única sombra do homem de madeixas acinzentadas. Enquanto continuava procurando, Kyungsoo lhe seguia mais atrás, também sem entender as razões do maior estar visivelmente alterado. Por acaso, alguma coisa que ele disse resultaria na própria morte? Por fim, a correria se findara no salão de treinamento, entretanto, sem sucesso: Minseok também não estava lá.
_ Jongdae, o que foi? – questionou o baixinho, vendo-o retirar o celular e pressionar um botão na discagem rápida. – Jongdae...
_ Calado. – ordenou, seguindo para a janela.
Todavia, ninguém atendia na outra linha. Jongdae tentou inúmeras vezes ligar para o líder, mas o máximo que conseguia era “este número está fora de área ou desligado. Tente novamente” ou “Deixe uma mensagem de voz após o sinal”. Kyungsoo assistiu o moreno se desesperar com seu próprio celular e somente se assustou quando Jongdeok surgiu na porta do salão.
_ O que houve com ele? – perguntou, vendo o outro negar preocupado. – Com quem você quer falar, Jongdae? – Jongdeok chamou a atenção do outro.
_ Onde está o líder?! – gritou furioso, ao que os outros dois se encolheram um pouco. – Onde está Minseok?!
_ Ele saiu. – respondeu com calma. – Minseok saiu com Joonmyun e nenhum deles disse que horas voltariam.
_ E só agora que você me diz isso?! – tornou a gritar.
_ Primeiro, se acalma, Jongdae. – pediu o mais velho, gesticulando para o outro. “O líder vai matá-lo, Deokkie.”, comentou o mais novo, passando a mão pelos cabelos. – Agora, escute. – Jongdeok arqueou uma das sobrancelhas, demonstrando sua autoridade em controlar a situação. Naquele instante, quem falava não era o irmão do Mordomo e sim, o Chefe dos Caçadores. – Qualquer que seja a conseqüência final, foram ordens diretas do líder. Nenhum de nós, seja eu, Yixing, Eunjung ou você, pode intervir certo? Não podemos desobedecer!
Ele é um menino! – gritou, desta vez, apontando para Kyungsoo, o que fez o rapaz gelar. – Só um menino!
_ Ele não é mais uma criança, Jongdae! – rebateu, vendo-o piscar rápido. Jongdeok suspirou arrastado e se virou para Kyungsoo que parecia confuso com aquela gritaria. – Kyungsoo tem 20 anos... Certo? – começou, desviando os olhos para o garoto que concordou. – Viu? – e voltou a olhá-lo. – Ele não é mais um menino. É um homem. Você é quem foi um menino quando se tornou o que ele vai se tornar. Agora, por tudo o que é mais sagrado... – enquanto falava, Jongdae passou a mão pela face cansada. – Volte a treiná-lo. Minseok pediu para assistir seu treinamento enquanto ele não estivesse. E rápido, por que vocês dois estão perdendo tempo.
E, ainda confuso com todo o diálogo, Kyungsoo observou o Chefe dos Caçadores se acomodar na poltrona, onde geralmente Minseok ficava, e esperou pacientemente o treinamento começar. Jongdae alternou os olhos entre o irmão mais velho que sequer desfez a carranca e o ‘recruta’ que rapidamente removeu os sapatos, as meias e o casaco, colocando-os num canto. Foi preciso o mais velho gritar novamente com o Mordomo para que ele se mexesse e iniciasse, finalmente, o combate. Mas, diferente das outras vezes, a mente de ambos os oponentes estavam distantes. Nem mesmo conseguiam se concentrar na luta que travavam ou nas imobilizações que faziam um contra o outro. Entretanto, Jongdeok não era tão paciente quanto o líder e, não demorou muito para que o próprio Chefe descontasse toda a sua raiva nos dois rapazes, derrubando-os no chão.
_ Escutem vocês dois. – começou com seu timbre grave. – Ou treinam direito, ou eu mesmo mato os dois, ouviram? Eu tenho a permissão do líder para fazê-lo! E outra: Jongdae – desta vez, o corpo do Mordomo foi sustentado no ar apenas pelas vestes que seu irmão segurava. – É melhor treinar sério o rapaz ou, caso contrário, você será o total culpado pela morte dele, ouviu?
Ao soltá-lo, um baque seco das costas contra o chão soou pelo salão de treinamento, enquanto Jongdeok deixava o cômodo em passos largos. Lentamente, Kyungsoo sentou no chão, desviando os olhos confusos para o moreno que mantinha os olhos fechados e duas lágrimas escorriam silenciosas por seu rosto. Jongdae sabia qual era a verdadeira função do ‘recruta’.
_ O que ele... Quis dizer, Jongdae? – questionou preocupado.
_ Nada. – negou, levantando-se num salto.
_ Jongdae...
_ Vamos voltar ao treinamento. – e o encarou. – Concentre-se.
Mais uma vez, Jongdae o atacou, porém, Kyungsoo não desviou do golpe, o que lhe resultou numa dor fortíssima no maxilar, fazendo-o ir ao chão. O maior lhe encarou confuso e se aproximou, ajudando-o a se sentar. As órbitas escuras desviaram para o mais velho que ofegou e tornou a gritar consigo, já que não entendia por ele não se defendera.
_ O que está fazendo?! – berrou, sacudindo-o.
_ Eu não vou me defender enquanto você não me explicar o que está acontecendo. – rosnou, derramando algumas lágrimas.
_ Kyungsoo, pare de chorar e...
_ Estou falando sério, Jongdae! – ordenou, empurrando-o e rapidamente se pôs de pé. – O que significa tudo isso? Essa conversa, seu surto maluco... Tudo! O que significa? Por que o líder quer me matar?
_ Ele não quer matá-lo. – suspirou cansado.
_ Então... – e engoliu em seco. – Por que o líder me escolheu?
_ Há uma antiga história de que, no início, os líderes e os Mordomos eram escolhidos separadamente pelos Chefes dos Departamentos. Nós não éramos indicados pelo nosso Mestre. – começou. – Acredito que Minseok possa explicar melhor sobre isso do que eu.
_ E o que isso tem a ver comigo? – franziu o cenho.
_ A sua função não é apenas proteger o irmão mais novo do Sr. Kim, Kyungsoo. – explicou. – Todo o seu treinamento está remetido a um único objetivo.
_ Que é...?
_ Se o Destino não modificar o que está prestes a acontecer, se eu não estiver errado e se o líder não voltar atrás com sua decisão... – por fim, o encarou. – Você, Do Kyungsoo, será futuramente o Mordomo do líder.
_ M-mas... E... Quem seria...
_ Quem mais? – e sorriu fraco. – Byun Baekhyun será o Líder da Ordem dos Caçadores.

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