terça-feira, 7 de junho de 2016

Moonlight - Capitulo Quatro

E dando aquela conversa por encerrada, Minseok entrou em seu quarto, deixando Jongdae em seus próprios questionamentos. Sem demorar muito, as longas pernas caminharam apressadas pelo corredor até os quartos no subsolo, e, de supetão, o moreno invadiu um dos quartos dos Recrutas. O estrondo que a porta de madeira fizera acabou acordando os dez rapazes que estavam hospedados ali, forçando-os a ficar de pé ao lado das camas. Muitos que ainda estavam com sono, tiveram que se esforçar para acordar de vez, ou poderiam ser repreendidos com treinamentos intensivos. O homem de olhos pequenos passou por uma das camas e, num rápido movimento, segurou Kyungsoo pela camisa branca, arremessando-o contra o pilar da outra cama, assustando os outros ‘recrutas’.
_ Vou ser direto. – rosnou baixo o suficiente para que apenas o rapaz de olhos grandes o ouvisse. – Aonde você levou o Sr. Kim?
_ À Máscara, mas assim que aquele homem apareceu, ele pediu para voltarmos. – respondeu confuso.
Jongdae encarou aquelas órbitas escura por longos minutos, percebendo que aquela criança estava contando a verdade. Sem conseguir mais nenhuma explicação do mais novo – que rapidamente lhe dissera o que ocorrera durante o trajeto – o moreno o soltou, bufando sonoramente. Logo, ordenou que todos fossem dormir, deixando o cômodo em seguida. O Mordomo até tentaria ser mais calmo e estenderia um diálogo mais longo, mas não havia delicadezas quando se tratava de Kim Minseok.
Não quando Kim Jongdae estava intensamente atraído pelo líder da Ordem.
E Minseok sabia dessa atração que seu Mordomo possuía de si. Sabia, mas mesmo assim, não deixava nem um pouco claro sobre sua posição. Os olhos azul-safira desviaram lentamente para o relógio sobre a mesinha de cabeceira, notando que o mesmo marcava onze e dezoito. Tecnicamente, era para o líder da Ordem estar dormindo, mas homem não conseguia pregar os olhos. Não quando sua mente ainda fervilhava com as palavras do gangrel: “Alguém muito próximo de você parece não concordar com isso.” Minseok sabia que se tratava de Jongdae. Aliás, seu Mordomo já o alertara antes sobre essa “relação de negócios” com o Príncipe.
_ Meu senhor... – insistiu pela ultima vez Jongdae, que estava próximo a janela, assistindo seu Mestre vestir-se para um jantar com o Príncipe. – Compreendo perfeitamente que deve haver uma parceria para que nenhuma das duas raças provoque uma guerra, mas devia tomar cuidado com este ventrue. Por mais que o senhor confie nele, eu não posso fazer o mesmo...
_ Jongdae. – Minseok o interrompeu. – Luhan é como o Primeiro-Ministro da Inglaterra. Se quisermos que Londres amanheça todo dia, devemos manter um acordo de paz com os seres da noite.
_ Eu sei, senhor. – suspirou arrastado.
_ Então, não há com o que se preocupar. – concluiu.
_ Eu só temo que essa relação de paz se torne um problema depois. – sussurrou, olhando-o.
_ Não se tornará. – e sorriu-lhe. – Agora, vamos.
Minseok se lembrava bem do que ocorrera após aquela conversa com seu Mordomo. O jantar com o Príncipe havia seguido conforme os planos feitos, entretanto, havia algo que o próprio homem não cogitara a ideia de ocorrer: ele jamais pensaria que seria flertado pelo castanho de orbes rubi.
Não houve um instante em que Luhan não tirara os olhos de seu rosto.
Não houve um segundo em que seu rosto escondera o sorriso travesso nos lábios.
O humano chegou a pensar que poderia acusar a própria bebida por tais visões confusas, como por exemplo, o vampiro segurar sua mão sobre a mesa e deslizar os dedos pelo dorso da palma, eriçando, assim, os pelos do homem. Porém, Minseok era inteligente o suficiente para não se deixar ser levado pelo álcool e os próprios desejos. Para provocar o Príncipe, o homem de olhos azulados riu e debochou das investidas de Luhan, que eram lançadas constantemente, numa tentativa cega de que funcionasse.
_ Devia parar, Sr. Lu. – alertou Minseok, pousando a taça vazia de vinho sobre a mesa. – Não irei me deitar com você.
_ Está dizendo isso agora. – respondeu sorridente, inclinando-se de leve na direção do outro. – Mas se realmente me conhecesse, não estaríamos aqui. Sabe disso.
_ E onde estaríamos? – provocou, estreitando os olhos.
_ Em meus aposentos. – sibilou, vagando os olhos pela extensão do corpo alheio, desde as jóias preciosas até o órgão reprodutor por sob as vestes. – Sobre minha cama, gemendo e nos contorcendo loucamente, apenas imerso em nossos prazeres. – por fim, piscou para o outro.
_ Bem direto, não acha? – comentou.
_ Não gosto de rodeios. – respondeu. – Mas, então? O que me diz?
Minseok riu daquelas palavras, chamando pelo garçom, que logo surgira e pediu a conta do jantar. Quando o mesmo trouxe, o humano verificou o valor final e pagou-lhe em dinheiro vivo, alegando precisar de uma boa noite de sono, se afastando em seguida. Ele não podia atravessar o território inimigo. Ele sabia exatamente qual era o próprio limite. Mas Luhan... Luhan não se importava com limites. Nem mesmo se importou quando deixou, pessoalmente, o líder da Ordem em seu casarão, sendo questionado pelos outros lideres da Máscara.  
Ele teria de tomar muito cuidado em suas próximas decisões. Principalmente esta, que poderá acarretar um grave problema não apenas para si ou a Ordem, mas para seu irmão. Porém, por hora, tentaria descansar um pouco. Afinal, aquela noite foi agitada. E enquanto Minseok descansava em seus aposentos, os planetas vermelhos de Luhan examinavam atentamente as palavras escritas pelo líder humano. Uma ordem formal para assassinar o antigo líder dos gangrels, Park Changmin.
O vento gelado daquela noite passou pelo corpo despido do Príncipe, que estava sentado sobre a varanda, encarando a noite acolhedora. Fora ela quem o abraçou séculos atrás. A mesma Noite que abraçou seu Matador e todos os outros. Sua única e solitária amiga. O cheiro da chuva chegou aos sentidos do castanho que sorriu de leve, descendo do parapeito de pedra, entretanto, não era apenas ela que estava chegando naquele céu nublado.
Sehun – ou como Luhan o chama: o bom filho – a casa torna.
_ Deseja algo? – questionou o timbre grave e rouco, fazendo o mais velho desviar, gradativamente, a atenção para o mais novo.
_ Sim. – assentiu, se aproximando e estendeu-lhe um envelope. Quando Sehun segurou-o, Luhan o deteve, impedindo-o de levar a mensagem. – Alerte Changmin sobre o que estar por vir.
_ Devo alertar Chanyeol também?
_ Sim. – concordou desta vez, baixando levemente os olhos, enquanto seus pensamentos disparavam. – Creio que os Srs. Park devam saber sobre a decisão final do Sr. Kim. 

_ Algo o incomoda. – as palavras de Taeyeon chegaram aos ouvidos treinados de Baekhyun, que a fitou por alguns segundos, voltando a ler uma revista sobre veículos. – Posso perceber por que você ainda não mudou de página.
Sentados próximos à lareira, os noivos permaneceram em silêncio devido o choque que sentiram após a morte da estudante Evelyn Byrne. Taeyeon havia decidido que, pela manhã, levaria Baekhyun ao velório da menina e, em seguida, ao hospital, a fim de fazer o amado ser consultado por um psicólogo. Até por que o moreno sequer abriu a boca após sua ligação para seu irmão mais velho, Kim Minseok.
Mas havia um motivo por Baekhyun não falar nada desde então: ele ainda repassava todo o acidente mentalmente, verificando se havia alguma falha, desconfiança da parte de sua aluna ou até mesmo alguma vigília de seu assassino, que se enganara, raptando a moça ao invés dele. Olhando uma última vez para a noiva, o moreno se ergueu de sua poltrona, largando a revista e o cobertor em seus ombros, seguindo na direção do hall de entrada. Taeyeon tentou segui-lo, mas logo parou quando a porta se fechou atrás do mais novo.
Baekhyun precisava pensar. Precisava entender. E só conseguia fazer isso enquanto caminhava. Seguiu por algumas ruas e, estando a sete quadras de casa, seu celular vibrou no bolso do casaco, alertando-o. Remexeu no interior e removeu o aparelho, verificando a chamada. Era o chefe de policia solicitando sua presença no departamento. O professor concordou com o pedido, desligando em seguida e acelerou os passos.
Estava chegando próximo ao Departamento de Polícia quando seu corpo foi puxado violentamente para dentro de um beco, sendo prensado contra a parede. O impacto contra a sua cabeça atordoou-o, deixando sua visão um tanto embaçada, enquanto os sons de vozes ordenando-lhe para entregar qualquer objeto de valor soavam pelo espaço mal iluminado. Baekhyun até pensou em retirar a carteira, quando o homem que o segurava o puxou para junto de si, fazendo-o cair na poça d’água.
Urros e gritos – muitos por clemência – ecoaram pelo beco, forçando o professor a se arrastar para longe, levantando desajeitado, e correr na direção do Departamento de Polícia. E, à medida que se afastava Chanyeol absorvia a última gotícula de sangue da jugular, observando atentamente o outro humano seguir numa lentidão absurda. Os orbes rubis assistiram os passos – um por um – do moreno que parecia mais confuso, cada vez que virava os olhos na direção do beco.
Ele não poderia deixar testemunhas... Poderia?
Não.
Park Chanyeol nunca deixava testemunhas.
Ele “brincava” com elas.
E depois as matava.
Mesmo com a visão turva, Baekhyun tentou correr para longe, forçando suas pernas a ir mais rápido e mais longe. Ainda estava confuso com o que acontecera naquela fenda entre dois prédios. Havia mais alguma coisa ali... Mas o que? Dois homens. Sim. Havia dois homens que o prenderam contra a parede... O professor forçou um pouco mais a mente para pensar quando seu corpo se chocou com algo notavelmente firme e duro, fazendo-o cair para trás.
Involuntariamente, as mãos seguiram para a cabeça, protegendo o local de impacto e ao verificá-las, Baekhyun percebeu que estava sangrando. Gradativamente, a visão escureceu e, a única coisa que conseguiu avistar a sua frente fora um homem, talvez mais alto que ele...
Uma ordem de ‘acorde’ soou em sua cabeça, fazendo-o abrir os olhos lentamente. Os planetas azulados vagaram sem órbita, ora pela luz, ora pela escuridão, enquanto flashes de imagens aleatórias se repetiam em sua mente. Sempre dois meninos. Correndo. Eram essas as imagens que se repetiam. Baekhyun forçou-se a abrir os olhos, focando-se no teto branco, quando o rosto de um médico apareceu. O homem, que verificava uma ficha presa à prancheta metálica, sorriu de leve, verificando seus reflexos.
_ Está tudo bem, amigo? – perguntou ele.
_ Eu... – gaguejou, olhando em volta, vendo uma enfermeira, que o acompanhava, lhe aplicar o soro. Baekhyun passou a mão pelo rosto, respirando fundo e negou de leve. – Onde eu estou?
_ No hospital. – respondeu homem.
Baekhyun o encarou de forma confusa e fechou os olhos, colocando a mão no rosto. Nem mesmo ele soube dizer como fora parar ali. Mas quando a palma deslizou para os cabelos escuros, o moreno sentiu uma pontada na parte de trás. A enfermeira sorriu, fazendo o professor se deitar novamente na cama e baixou seu braço, pedindo-lhe para que ficasse quieto.
_ Olá. Eu sou o Dr. O’Brien. – começou o médico, em seu coreano perfeito. – O senhor é casado, senhor...
_ Byun. – respondeu. – Eu consigo entender em inglês.
_ Oh, me desculpe. – e riu, concordando. – O último coreano que conheci era do curso de medicina. – logo, balançou a cabeça, como se tentasse afastar qualquer lembrança do passado. – Mas, voltando ao senhor, Sr. Byun. Pode me dizer como conseguiu esse machucado na cabeça? Foi bastante feio, se me permite dizer.
_ Eu... – murmurou, pensativo. – Fui assaltado... Não me lembro de muita coisa.
_ Compreendo. – assentiu, fazendo algumas anotações. – Por acaso, consegue se lembrar para onde o senhor estava indo?
_ Para a delegacia. – disse. – O chefe de polícia pediu para que eu fosse vê-lo e, quando estava chegando, fui abordado.
_ Sim. – por fim, o olhou, sorrindo de leve. – Há algum número que devo ligar para que venham buscá-lo?
_ Tem... – concordou. – A minha noiva. 

Desde a chegada de Taeyeon no Hospital Geral até ambos entrarem no veículo foi feito num silêncio mórbido. As poucas palavras que deixaram os lábios femininos foram “sim” e “tudo bem”, além de declarar-se como noiva do homem acamado e responder algumas perguntas do médico. Baekhyun estava agradecido por ela não dar ataques como muitas garotas que chegou a conhecer.
Até aquele momento... 
_ Sai de casa sem dizer aonde vai, recebe uma ligação do chefe de polícia e ainda é assaltado? – Taeyeon estava visivelmente nervosa, apesar de não deixar transparecer para o mais novo. – Baekhyun, é sério. Eu não sabia onde você estava...
_ Obrigado. – interrompeu-a. – Por ter me buscado.
A morena o olhou por breves segundos e suspirou, voltando sua atenção para a estrada. Desde então, todo o trajeto de carro foi feito em silêncio, exceto pelo rádio ligado numa estação aleatória. Os olhos azulados vagaram pela rua deserta, e, aos poucos, se fechavam, enquanto o sono se apossava e fugia com seus sentidos, deixando-o inconsciente em poucos minutos.
Sonhou com a Escuridão. Personificada num homem alto. Esguio, mas com um pouco de músculos nos braços. Cabelos castanhos, ondulados e cheios. Eram notáveis as orelhas saltando timidamente por dentre os fios soltos. Rosto triangular, porém, achatado suavemente no queixo. Lábios cheios, como uma rosa em seu desabrochar. O nariz afilado formava um conjunto perfeito à face tranqüila. Apenas os olhos, tão vermelhos quanto o mais brilhante rubi já encontrado, eram o gritante contraste com a tez puramente branca.
E todo aquele ser trajava apenas uma calça escura e botas de cano baixo. O homem estava numa distância considerável do professor que ameaçava alguns passos para trás. Ele não o conhecia. Então devia temê-lo, esta é a lógica. Assim, começou a se afastar mais rápido, desde passos apressados até que começou a correr, ofegando muito, e, à medida que olhava para trás, mais a Escuridão se aproximava em seu desfilar lento e demorado.
O moreno continuou correndo, enquanto gritava pela noiva, porém, nenhum som abandonava seus lábios escancarados. Forçou a garganta o máximo que pode, mas nada era produzido. O terror preencheu as órbitas azuladas que mais uma vez olhou para trás, e se arrependeu, pois a Escuridão o segurou pelos ombros. Baekhyun tremeu ao sentir as palmas quentes contra sua pele fria e, ao ser girado para o homem, sentiu-se completamente despido diante a entidade.
Aos poucos, a Escuridão o abraçava, mantendo seu peito rente ao do menor que relutou. Porém, seu corpo sequer correspondeu às ordens de seu cérebro, que implorava para sair dali. Que aquilo o mataria. Seu consciente jogava-lhe informações de que aquela entidade não era amigável, mas seus olhos pareciam não enxergar o mesmo. Havia uma calma transparente naqueles rubis cintilantes. E Baekhyun percebeu aquilo.
O professor não se importou com a longa troca de olhares com a entidade, não se importou com o arquear da sobrancelha alheia, que o avaliava se deveria ou não levá-lo consigo. O moreno nada lhe disse ou clamou para que não lhe machucasse, já que não possuía consciência disso. Não quando encarava aquelas pedras preciosas.
A Escuridão o apertou em seu abraço, roçou as maçãs dos rostos – estranhamente quentes comparados as do menor – e o aspirou. Uma série de correntes elétricas percorreu pela extensão do corpo menor, desde a ponta dos dedos até a jugular, que estava tão dormente quanto o restante dos membros. Baekhyun se sentia pesado, sonolento, fraco e completamente... Entregue. Ele não sabia o que ela estava fazendo consigo, mas aquilo tirava as forças do homem.
Silenciosamente, uma lágrima abandonou seu olho escorrendo tão lentamente que, antes da mesma chegar à curva de sua maçã, um ardor se apossou em sua bochecha, seguido de um grito estrondoso em seu rosto.
_ Baekhyun! Pelo amor de Deus, acorda! – o moreno piscou rápido, encontrando a noiva sobre si, que ofegava chorosa. – Meu Deus! O que aconteceu? Você começou a gemer e gritar e... – mas cada vez que Taeyeon tentava continuar, mais se atrapalhava em suas palavras.
O professor somente se deu conta de que estava em casa quando viu a morena sair do veiculo e caminhar de um lado para o outro, bloqueando o rosto com as mãos. Cambaleante e visivelmente tonto, Baekhyun desceu do carro, apoiando-se neste e arrastou-se até a menor, abraçando-a. Com a voz embargada, Taeyeon lhe explicou que, após o grito, ele ficou mudo e sequer respirava. Ela tentava fazê-lo respirar, mas nada adiantava e então, entrou em desespero, lhe acertando algumas tapas.
_ Ei! – chamou-a, segurando a mulher pelos ombros, afagando assim seu rosto. – Eu estou bem. Já passou, sim?
Ainda nervosa, a morena concordou com um aceno positivo de cabeça e o abraçou, afundando o rosto em seu peito. Baekhyun fechou os olhos, suspirando arrastado e afagou-lhe as madeixas, repetindo que estava tudo bem. Que tudo não passava de um sonho.
Um sonho estranho.
E o novo líder dos gangrels sabia muito bem disso. Tanto, que sorriu em malícia, enquanto assistia o casal em frente à própria casa, abraçados. Chanyeol ficou curioso ao invadir o sonho alheio. Aquele homem parecia disposto a oferecer seu pescoço para salvar qualquer um que fosse próximo a ele. Levando as pontas dos dedos aos lábios, ele deslizou indicador e polegar, como um grande pensador da Antiguidade.
_ Estou demasiado curioso sobre você, Byun Baekhyun. – pensou alto. – Acho que devíamos nos encontrar algum dia... Por curiosidade.
_ Sr. Park. – a voz suave do Matador soou através do vento, fazendo-o olhar de soslaio na direção do som. – Solicitam vossa presença na mansão. É urgente.
O timbre discretamente preocupado, usado por Sehun ao se dirigir para Chanyeol, deixou o próprio gangrel preocupado, fazendo-o correr numa velocidade sobre-humana. Alguns taxis que transitavam pela avenida principal pareciam borrões aos olhos do vampiro, que se movimentava como um raio por dentre os veículos. Além da floresta, a criatura pode avistar os grandes portões de ferro e a belíssima mansão “mal-assombrada” – era assim que algumas de suas crias chamavam aquele lar –, parando bruscamente diante o símbolo da Máscara.
Algo lhe dizia que havia algo de estranho naquele lugar.
Mas Chanyeol não acreditava em superstições ou intuições.
Ele deixava isso para os humanos, que sempre se enganavam.
O líder dos gangrels atravessou os portões abertos, caminhando como um humano – ele preferia a velocidade, ao invés do arrastar de zumbis que os homens faziam – e subiu as escadas até o hall de entrada, fechando um botão do sobretudo de couro preto. Chanyeol parou diante da centena de vampiros, que direcionaram sua atenção para o recém-chegado, mantendo o insuportável silêncio no ambiente.
As órbitas de Marte avaliavam cada uma dos presentes ali, que se direcionavam como imãs para si. E isso era notável, já que Chanyeol subia as escadas devagar, sendo acompanhado pelas centenas de pares de olhos avermelhados. Por fim, seguiu pelos corredores e parou diante os próprios aposentos.
As portas estavam abertas e, sentado sobre sua cama, seu pai examinava uma ordem enviada pelo Príncipe. Ele reconhecia o selo da Máscara. Chanyeol caminhou devagar até o mais velho que fechou a carta recebida e sorriu abertamente para o filho, pondo-se, assim, de pé. O líder sabia que seu pai estava escondendo algo de si e percebera bem quando este cercara os braços em torno de seus ombros, afagando-lhe os cabelos.
Changmin, durante toda a existência de Chanyeol, nunca lhe demonstrou qualquer afeto como pai. Sempre o tratou como uma jóia preciosa, como um guerreiro preferido, como um amigo, mas nunca como um filho de verdade. Um filho que é sangue de seu sangue.
_ Meu pequeno Chanyeol... – sibilou contra o ouvido alheio. E sem esperar uma resposta, continuou. – Sempre soube que seria como eu. Desde que o vi se tornar como nós... Eu sempre soube. – e afastou-se o suficiente para olhá-lo e sorrir. – Seja um líder muito melhor do que eu fui, Channie.
Changmin se afastou do filho logo que concluiu seu discurso, caminhando pelo silencioso cômodo, sendo observado pelo outro que ainda não compreendia as palavras alheia.
_ O que está dizendo? – sussurrou o menor.

_ Vocês não acharam estranho a atitude do Mordomo? – comentou um “recruta”, olhando para os outros.
_ Aquele cara já é assustador calmo. – completou outro. – Vocês viram a cara dele quando foi falar com o Kyungsoo?
As órbitas escuras de Kyungsoo desviaram de leve para os colegas daquele dormitório, voltando a fitar as próprias mãos. Ainda estava confuso com a conversa que ouvira do líder da Ordem com aquele vampiro. Concentrando-se o máximo que pode, ele repassou o diálogo mentalmente a fim de entender o significado de tudo aquilo e, principalmente, os motivos por Jongdae quase crucificá-lo.
O homem – ao qual seu líder chamara de Chanyeol – disse-lhe que salvou o irmão do Sr. Kim, matando uma cria mal-abraçada que tentou se passar por si. Este mesmo homem também questionou à Minseok sobre os motivos que o levava a se encontrar com o Príncipe. Kyungsoo sabia que o líder da Ordem teria de resolver alguns assuntos com o suposto Príncipe, já que era seu dever. Mas havia algo que o moreno notara no tom de voz do vampiro.
Havia uma provocação. Havia algo por trás daquela relação diplomática entre o líder da Ordem e o Príncipe da Cidade. E, pelo que Kyungsoo pode perceber, era um laço bastante forte entre os homens. Sem sequer pensar nas conseqüências que gerariam para si, o “recruta” deixou o dormitório, sob os alertas de seus colegas de quarto, e atravessou os corredores da mansão.
Ele não sabia exatamente para onde estava indo. Ou mesmo se havia virado no corredor certo, mas, de alguma forma, ele precisava encontrar a sala de treinamento. Esgueirou-se pela escuridão, fazendo o mínimo de barulho possível – já que muitos dos treinadores possuíam a audição apuradíssima, em caso de ataque-surpresa – e parou, por fim, no corredor de acesso ao grande salão. Kyungsoo respirou fundo, caminhando em passos lentos na direção das portas brancas e tocou a maçaneta dourada, girando-a.
Não foi necessária muita força para abrir a porta de carvalho e logo o rapaz encontrou o cômodo silencioso e vazio. Exatamente como naquela manhã. Devagar, o moreno fechou a porta, seguindo novamente em silêncio na direção da porta ao qual Minseok surgira. Kyungsoo o ouvira dizer – antes de deixar o treinamento com muitos hematomas – que, quando se sentisse confuso sobre qualquer coisa, o procurasse de imediato ali. Naquele salão.
E não havia oportunidade melhor do que aquela.
Kyungsoo possuía muitas dúvidas sobre o próprio líder e a Máscara.
Estava tão próximo da grande mesa e da porta que sequer percebeu que estar sendo seguido. Os passos, centenas – talvez, milhares de vezes – mais silenciosos que os seus se aproximaram de Kyungsoo o suficiente, ao que seu dono o segurou pelos braços e os imobilizou, prendendo seu rosto contra a mesa.
O impacto de seu rosto contra a madeira ecoou pelo extenso salão, não assustando apenas o jovem “recruta”, mas também todos os treinadores da Ordem. Incluindo Jongdae, que fora o primeiro a entrar no cômodo, portando uma arma e apontando na direção dos dois homens. Kyungsoo respirou abafado, sentindo seus olhos arderem devido ao súbito acender de luzes e piscou algumas vezes, a fim de se adaptar a claridade.
Ainda prendendo-o firmemente contra a mesa, Minseok desviou os olhos para os homens que o assistiam em silêncio e gesticulou para que todos saíssem dali. Jongdae foi o único que se aproximou, sob o olhar do líder e examinou o rosto do “recruta”, reconhecendo-o de imediato. O sangue do Mordomo ferveu tão rápido que foi necessária a ordem ditada pelo homem de cabelos acinzentados para que ele saísse dali.
E, mais uma vez, o salão ficou em silêncio e vazia.
Exceto pelos dois: Kyungsoo e Minseok.
As safiras examinaram atentamente a face amassada contra a madeira de Kyungsoo, notando que uma lágrima escorria de seu olho e pingava sobre a mesa. Nenhuma palavra foi proferida quando Minseok afrouxou a imobilização, afastando alguns passos. Os olhos negros do menor se fecharam, enquanto suas mãos se apoiavam na mesa e, gradativamente, se virou, encarando o mais velho por longos minutos.
_ Me disse que, se eu ficasse confuso... – murmurou, protegendo os braços machucados.
_ Podia vir ao meu encontro. – completou o outro, baixando os olhos. – Mas não esperava que ficasse confuso às três da manhã, Kyungsoo.
_ Desculpe-me, senhor. – disse, baixando a cabeça. – Mas não consegui dormir por causa dessas dúvidas.
_ Não faz mal. – suspirou Minseok, bagunçando as madeixas acinzentadas e passou a mão pelo rosto. – Eu também não consigo dormir. – e gesticulou para que o seguisse. – Venha. Vamos tomar um chá.
Em passos lentos, Kyungsoo seguiu o maior que mancou para fora do salão, atravessando os corredores silenciosos. Vez ou outra, o moreno desviava os olhos para o mais velho que o fitava de soslaio sem se virar e logo pararam na cozinha da mansão, onde Minseok gesticulou para que se acomodasse a mesa, enquanto procurava pelos saquinhos de chá e uma chaleira.
O silêncio mórbido naquela cozinha era apenas quebrado pela suave garoa que caia fora da casa, sendo ouvida pelos dois homens. Kyungsoo decidiu esperar que o líder terminasse o chá e se acomodasse consigo, onde poderia explicar o que tanto lhe tirava o sono. Já Minseok cogitou a ideia de pedir desculpas pela forma como machucara o mais novo, além, é claro, de ter acidentalmente roçado nas nádegas fartas do outro, cobertas pelo moletom de malha preto e pela boxer.
Recordar-se daquele curto instante fez um arrepio percorrer pela coluna do mais velho, que tragou um pouco de saliva e serviu duas xícaras de chá – camomila, pois ela o acalmava, mas não o suficiente – levando-as para a mesa. Kyungsoo agradeceu com um breve aceno, puxando uma das xícaras, oferecida pelo outro, pelo pires e esperou que Minseok se acomodasse ali.
Esperando que o dono das safiras tomasse um gole de seu chá, Kyungsoo moveu seu saquinho para lá e para cá, enquanto assistia a água quente mudar de cor gradativamente. Por sobre a própria xícara, Minseok observou o moreno baixar os olhos para a própria bebida e colocar duas – ou seriam três colheres? – de açúcar no recipiente, mexendo com uma colher.
Fofo e triste. Seriam essas as palavras que Minseok nomearia Do Kyungsoo – somente descobrira seu sobrenome olhando através de sua ficha –, o “recruta” misterioso a sua frente. Talvez Eunjung estivesse certa: talvez aquele rapaz esteja num nível completamente diferente de todos os “recrutas” que chegou a conhecer. Mais misterioso, até, do que Yixing.
E, se tratando de Yixing – ou Lay, como gostava de ser chamado – o mesmo adentrara a cozinha, surpreendendo-se com os dois homens sentados à mesa. O moreno desviou os olhos para o loiro de aparência calma e relaxada, confuso com sua aparição. Trajando as tradicionalíssimas roupas de caça – um sobretudo estragado na barra, calça, botas de couro e uma camiseta. Todas pretas –, o loiro alternou os olhos entre os dois homens, soltando a bolsa de viagem ao lado do corpo.
_ Trocaram “o chá das cinco” para “o chá das três da manhã”? – comentou, desta vez, mantendo os olhos no líder.
_ Não achei que fosse voltar hoje. – Minseok murmurou abafado. – O trabalho que lhe dei devia durar, em média, dez anos.
_ Mas eu terminei. – respondeu, se aproximando e sentou sobre mesa, tirando alguns biscoitos acebolados de um recipiente próximo a si. – Se esqueceu? Você me mandou para a China em janeiro de 2005. Ainda quando tentava se aproximar de seu irmão... – e colocou o pé sobre o assento da cadeira.
_ Por que não vai dormir? A viagem de volta devia ter sido bastante cansativa. – o menor baixou a xícara, sem desviar os olhos de Kyungsoo. E, notando que o outro não se movera, Minseok suspirou. – Se manda daqui, Yixing.
_ Tudo bem. – respondeu, se levantando, enquanto mantinha os olhos no moreno à frente do líder. – Mas esse garoto é novo por aqui, não é?
Finalmente, Minseok desviou as safiras cintilantes para o maior, fuzilando-o em silêncio. Yixing notou o olhar sombrio do mais velho e acenou de lado com a cabeça, compreendendo as palavras alheias. Por fim, pegou a mala, jogando-a sobre o ombro e deixou o cômodo, permanecendo, finalmente, os dois. Logo, Kyungsoo desviou a atenção da entrada para o líder que suspirou, balançando a cabeça.
_ Peço desculpas pela intromissão de Yixing. Eu não sabia que ele voltaria hoje. – começou, olhando-o. – Mas, diga-me: que dúvida está lhe tirando o sono, Kyungsoo?
O moreno pensou e repensou nas inúmeras formas de formular aquela pergunta sem que soasse como acusação. Os olhos grandes e escuros fitaram o líder da Ordem que transparecia – apesar da sonolência – uma calma não vista pelos outros treinadores. Minseok, inconscientemente, deixou um meio sorriso se formar em seus lábios, fazendo Kyungsoo suspirar arrastado e lhe questionar:
_ Eu não sei como perguntar isso sem que soe como suspeita, mas... – murmurou, tragando um pouco de ar. – Que tipo de ligação o senhor tem... Com o Príncipe da Cidade? Sei que não é da minha conta, já que assuntos entre os representantes da Ordem e da Máscara são de particularidade, mas...
Mas Kyungsoo não conseguiu concluir. Por dois simples motivos: o primeiro, por que o jovem “recruta” não conseguia encontrar termos para explicar melhor sua pergunta feita ao outro. O segundo, por que Minseok logo cerrou o semblante e se levantou, dirigindo-se a entrada da cozinha. Ele não tinha que dar satisfações àquele garoto que, há pouco tempo, ficara ali. O moreno ainda cogitou a ideia de segui-lo, mas parou quando este o olhou de soslaio, pronunciando sua última sentença antes de sair:
_ Está certo, Kyungsoo. – murmurou. – Isso não é da sua conta. Agora, volte ao seu dormitório.

Nenhum comentário:

Postar um comentário