quarta-feira, 8 de junho de 2016

Moonlight - Capítulo Seis

As órbitas de carmesim vagaram para a extensa noite através da grandiosa janela do escritório, enquanto seus pensamentos divagavam por sua decisão escolhida. O Príncipe entendia que tal decisão poderia acarretar uma série de conseqüências que nem ele e nem o líder da Ordem poderão compreender. Mas ela foi tomada. Não havia como voltar atrás. Um suspiro arrastado abandonou os lábios finos do homem, que estranhamente, parecia perdido.
Mais afastado de si e deitado sobre a cama, o Matador analisava o dorso despido do castanho próximo à janela. Sehun percebera que, durante todo o sexo, a mente de seu amante estava a quilômetros de distância. Para ser mais exato, estava nos aposentos do líder da Ordem, Kim Minseok. O vampiro jamais aceitou tal “amizade” dos dois líderes, muito menos dessa obsessão de seu Mestre pelo frágil humano. Devagar, ele se ergueu da cama, caminhando em passos silenciosos até o mais velho e o envolveu em seus braços, absorvendo o perfume de suas madeixas castanhas. Suavemente, roçou os lábios contra a orelha alheia, mordiscando-a, porém, não houve uma reação sequer do Príncipe, que apenas o encarou de soslaio, voltando sua atenção para a noite.
_ Pensei que estivesse satisfeito. – murmurou, ainda sentindo-o lhe provocar. – 18 horas consecutivas não foram o suficiente?
_ Você sempre soube que meu apetite é insaciável. – rebateu, mordendo-lhe o pescoço e o ombro. – Até quando fui humano, no passado.
_ É... – e sorriu, recordando-se. – Eu me lembro. Dinastia Joseon, você era apenas uma criança abandonada para morrer na rua e que oferecia o próprio corpo em troca de comida. – lentamente, desviou os olhos para Sehun que o fitava em silêncio. – Quando o encontrei, estava largado num beco levemente coberto de neve e sangue. Havia sido estuprado por alguns bandidos e quase morto de tanto apanhar.
_ Mas você cuidou de mim. – sussurrou, descansando a testa contra a semelhante alheia.
_ Cuidei, por que não suportava ver um rosto bonito tão deformado quanto o seu estava.
E, nesse aspecto, Luhan estava inteiramente certo. 
Quando as longas pernas da criatura das sombras as guiaram para Joseon – antiga Seul –, Luhan jamais esperava encontrar o seu futuro Matador à beira da morte. Sehun estava jogado em meio a um beco mal iluminado, tremendo de frio, completamente ferido e nu. Sua respiração estava tão fraca que qualquer cidadão que passasse por ali não o ouviria clamar por ajuda. Afinal, ninguém ajudaria um menino pobre e perdido como ele. Mas o castanho de órbitas de Marte notara não muito longe dali, a agonia do jovem rapaz.
Em passos tão silenciosos quanto um gatuno, o castanho se aproximou do menino, afastando parte da neve de seu rosto frio, notando o arroxeado nos lábios finos alheios. Aos seus olhos sangrentos, Sehun era lindo. E não merecia morrer naquela forma tão... Insignificante. Então, num ato de “compaixão”, Luhan o envolveu em seus braços, guiando-o ao seu lar. Cuidou e alimentou bem o rapaz, que se viu na obrigação de retribuir ao seu “novo dono” quando se sentiu melhor. Aliás, nem o humano tinha certeza se poderia acompanhar aquele homem de traços suaves e delicados.
“Deixe-me segui-lo, Mestre”, implorou, ajoelhando diante o outro, após anos de convivência. “Eu o protegerei com minha vida”. Ambos se encontravam no quarto iluminado apenas por algumas velas espalhadas pelo cômodo. Luhan estava deitado sobre o colchão, enquanto lia atentamente um romance erótico de algum autor desconhecido e o mais novo permanecia no mesmo lugar, ajoelhado e de cabeça baixa, esperando as palavras da criatura de muitos séculos. Sehun sabia apenas o suficiente sobre o outro, que pouco revelava de si.
Mas havia um motivo: o humano sequer imaginaria que seu Mestre seria... Um vampiro. Os olhos avermelhados desviaram para o rosto escondido do rapaz, que, por um instante, hesitou no próprio pedido. Porém, Sehun não voltaria atrás. Era aquilo que ele queria. Viajar pelo mundo com seu Mestre, a fim de esquecer suas origens e o passado sombrio que o torturava todas as noites. Por que... Sem Luhan, ele seria mais um garoto perdido em Joseon.
“É isso mesmo o que você quer, Sehun?” perguntou o castanho pausadamente, desviando novamente a atenção para o romance. O rapaz piscou algumas vezes e ergueu os olhos, tremendo involuntariamente ao perceber que o rosto do mais velho estava tão próximo do seu que podia sentir sua respiração fria contra a pele. Luhan olhou-o nos olhos, esperando alguma resposta plausível de seu jovem seguidor que, tragando o ar com muita força para os pulmões, respondeu positivamente. “Quero... Mestre”.
_ Você me surpreendeu bastante naquela noite, Sehun. – comentou o Príncipe. – Mesmo sem saber se sobreviveria ou não à transformação, você, cegamente, decidiu me seguir. Mas, permita-me questioná-lo: e se eu não o abraçasse? Ainda assim, me seguiria?
_ Sim. – respondeu direto.
_ Por que, posso saber? – e sorriu curioso.
_ Por que não havia mais ninguém que pudesse cuidar de mim. – gradativamente, seus braços cerraram contra o corpo alheio, trazendo-o mais para perto de si. – Não havia mais ninguém em que eu pudesse confiar. E, se eu não fosse com você, provavelmente estaria morto em um daqueles becos.
_ Mas você descobriu quais são as suas verdadeiras origens. – Luhan assistia a aproximação da face de seu Matador. – Você pertencia ao trono real. Era o filho do rei. – devagar, seu indicador deslizou pela maçã do rosto alheio até a linha do queixo. – Um filho bastardo, mas merecedor do trono. E aqueles homens que fizeram aquilo com você estavam apenas obedecendo às ordens da nova rainha.
_ Eu sei. – sussurrou contra os lábios alheios.
_ Então por que insistiu me seguir, Sehun? – questionou no mesmo tom.
Todavia, o silencio prevaleceu. O loiro tomou os lábios finos do mais velho com delicadeza, sugando-lhes e mordiscando-lhes ao ponto de feri-lo. Logo, o castanho interrompeu lentamente o ósculo, avistando alguns pigmentos avermelhados na boca alheia, reconhecendo o cheiro de seu sangue. Os orbes carmesins observaram o filete de sangue escorrer pelo canto dos lábios de Luhan e, de imediato, Sehun devorou-lhe a boca, iniciando um ósculo provocante e lascivo.
E o Príncipe tinha razão quanto ao seu Matador: ele era faminto.
Em todos os sentidos.
“M-M-e-e-es... Tr-re...” gradativamente, o corpo esguio do jovem rapaz arqueava-se, confuso e, ao mesmo tempo, imerso no prazer que a criatura de muitos séculos lhe proporcionava. Os lábios finos do castanho vagaram pela tez clara, com uma discreta camada de suor lhe cobrindo, enquanto sua atenção se focava a face corada do humano.
Delicadamente, Luhan deslizou os longos dedos pelas coxas do rapaz, arrepiando-lhe a pele, parando no quadril afeminado e, sem fazer nenhum esforço, ergueu-o, lhe invadindo aos poucos. A cada segundo que o homem lhe adentrava, mais o jovem sentia o corpo entrar em combustão, consumindo todo o seu sangue, sua carne e seus ossos. E se Sehun pudesse acreditar um pouco mais, até mesmo sua alma se tornaria cinzas.
Tentou gritar por ajuda, mas de sua voz, apenas arfares e respirações sôfregas abandonavam-lhe a garganta. Tentou correr, porém sentia seu corpo amolecer no colo de seu Mestre. Sehun não tinha mais forças. A única coisa que pode presenciar era seu sangue escorrendo por seu peito através das duas perfurações em sua jugular, enquanto rebolava involuntariamente contra o membro duro do outro. “Oh, Sehun...” murmurou o homem, limpando a trilha de sangue de seu peito e logo lhe mordendo em outras partes, como a barriga e o braço. Luhan estava admirado com a beleza daquela criança cedendo aos seus desejos, que mesclavam à sua transformação.
Devagar, o deitou sobre o piso de madeira, projetando-se sobre si e moveu-se preciso, impedindo que seu garoto não gemesse tão alto. “H-hum...” miou Sehun, incapaz de afastar o castanho sobre si, enquanto este lhe tomava a boca com um beijo lascivo. As mãos vagaram pelas pernas escancaradas, provocando arrepios devido ao choque de temperaturas, e parou finalmente na intimidade negligenciada. Luhan inclinou-se sobre o órgão, chupando-o avidamente, enquanto o rapaz arfava, revirando os olhos em prazer.
Erguendo-se um pouco, o castanho forçou o mais novo a lhe observar, enquanto deslizava a língua pela extensão da coxa, mordendo-lhe em seguida. Se estivesse mais são, ele teria gritado de dor, mas tudo o que conseguiu emitir fora um urro baixinho. Sehun assistiu o mais velho chupar seus dedos dos pés, ainda lhe estocando, quando, ao reunir o máximo de forças que conseguiu, esticou os braços para Luhan. E com um meio sorriso, o vampiro aninhou-se ali, tornando a beijá-lo.
E, em seu ultimo suspiro, Sehun adormeceu eternamente.
Somente acordara com o sonar de um morcego a 20 léguas de onde estavam. Gradativamente, abriu os olhos, encontrando os semelhantes carmesins de seu Mestre, que pareciam sumir em meio ao sorriso de criança. “Boa noite” sussurrou. Sehun fitou confuso e, simultaneamente, encantado pelo timbre suave e melódico da voz alheia. Já Luhan estava fascinado com a beleza física de seu seguidor: uma tez tão pálida e fria quanto à neve, os cabelos louro-avermelhados estavam mais brilhantes do que o costume, entretanto, seu enfoque ali era nada mais do que as órbitas escarlates do rapaz.
“Boa noite, Mestre”, respondera numa fração de quatro segundos, levemente surpreso, desta vez, com seu timbre suave e rouco. Luhan aproximara-se do ‘recém-abraçado’ e tomou-lhe os lábios num selar tímido. “Seja bem-vindo ao meu mundo... Oh Sehun”, segredou-lhe aos lábios finos, puxando-o e ambos se colaram ao teto, rindo maliciosamente. Aquela seria a noite que o futuro Matador jamais se esqueceria.

O silêncio no cômodo do líder somente se fez presente após o ato consumado. Alguns pertences que estavam devidamente arrumados sobre a mesa agora se encontravam espalhados pelo chão do escritório e do quarto. Os lençóis da grandiosa cama estavam bagunçados e boa parte deles estava caída, enquanto o resto ainda tentava cobrir as intimidades do casal. E em conchinha, os dois repousavam em seu sono.
Minseok, após se entregar completamente àquela louca necessidade de tê-lo em seus braços, adormeceu profundamente, imerso nos cheiros de suor, sexo e, principalmente, colônia masculina. Seus braços mantinham o corpo forte e esguio do visitante próximo de si, como se o impedisse de sua partida. Mas quem disse que o loiro de lábios levemente carnudos... Estava disposto a partir? Alguns fios dourados caíram-lhe sobre os olhos castanho-esverdeados, enquanto este examinava os resultados finais deixado em sua pele.
E não. O líder da Ordem não fora nada gentil consigo.
Aos poucos, suas mãos entrelaçaram as semelhantes do mais velho, e puxaram-nas para o seu peito. Um sorriso tímido transpareceu em seus lábios, surpreso com a velocidade de seus batimentos. Há quanto tempo não tinha aquele corpo junto ao seu? E o que ele fizera nesse tempo todo sem o seu cheiro? O rapaz não sabia explicar. Afinal... Muita coisa aconteceu desde sua saída da Sede.
E seus pensamentos foram interrompidos pelo ressonar próximo ao seu ouvido e o cerrar das mãos alheias contra o seu corpo. O mais novo se encolheu mais contra o peito alheio, segurando a mão onde estava a belíssima e notável aliança prateada. Entretanto, sua preocupação não estava no símbolo. Aliás, nunca esteve.
_ Como pode essas mãos que me afagam e me enlouquecem serem as mesmas que matam vampiros e ameaçam pessoas? – sussurrou Joonmyun, enquanto deslizava a ponta dos dedos pelo dorso da mão alheia.
Outono de 1998. Suho – como comumente, Joonmyun era chamado pelos amigos – era apenas mais uma das muitas crianças da Sede; filhos e filhas de caçadores da Ordem. Seu jeito carismático e fofo foi herdado de seus pais, um renomado caçador e uma notável enfermeira. Se pudéssemos fazer um comparativo... O pequeno Kim seria visto como “o menino popular” de uma escola. Todavia, havia algo que o garotinho de madeixas castanhas não conseguia entender:
Como podia o filho do grande Líder da Ordem dos Caçadores... Ser excluído de tudo e de todos? E por que os outros caçadores não conseguiam se aproximar dele?
Seus amigos costumavam dizer que o garoto recém-chegado era extremamente calado, retraído e pouco interagia com os outros. Diziam também que somente os caçadores mais experientes – aqueles que eles chamavam de “os velhotes” – eram os únicos que se aproximavam para conversar. Mas numa distância segura, pois, uma vez, um garoto tentou se aproximar mais do que o necessário do menino e dois minutos depois, estava desacordado na enfermaria. Entretanto, Suho era curioso. E gostaria de tentar uma aproximação maior, mesmo depois de ouvir as palavras de seu pai que não era aconselhável.
Ele o encontrou treinando numa campina próximo a floresta. Constantemente pulava e socava o ar, como se ali, os vampiros estivessem atacando-lhe. O castanho se impressionou com a velocidade de seus ataques e sorriu abertamente, logo correndo até o outro. “Uau! Você é incrível! Como consegue...”, porém, o garotinho conseguiu fazer o que seus mentores sempre lhe negaram. Suho tocara em Minseok.
Foram exatos três segundos para que o mais velho se enfurecesse e girasse o corpo, a fim de acertar-lhe um golpe. Mas Suho conseguiu desviar agilmente, afastando-se alguns passos. Se não fosse a sua velocidade ou agilidade para se desviar dos ataques – afinal, o nome “Mercúrio” dado por seu pai faz jus ao seu jeito rápido de agir – com certeza estaria no chão, agonizado com a dor em seu rosto. E Minseok também percebera esse dom impressionante do castanho. Todavia, não se deixou se abalar por isso e tornou a atacar.
Vez ou outra, o mais novo escorregava pelas folhas secas, desviando de alguns chutes no ar ou socos seqüenciados. Suho já estava cansado de fugir, quando fora segurado pelas vestes e, literalmente, jogado na direção de um carvalho, chocando-se em seguida. O castanho arquejou, tentando suportar a dor em suas costas e, ao novamente ser erguido, implorou, em meio às lágrimas, para que ele não o machucasse. “E-eu prometo ficar longe de você!” gaguejou, notando aquelas íris azuladas e brilhantes lhe encararem levemente chocadas. “Por favor”, suplicou e quando Minseok o soltou, ele correu o máximo que suas pernas curtas permitiram. Correu... Até se sentir seguro nos braços de seu pai.
E os dias se seguiram após aquele incidente. Seu pai lhe avisara de que Minseok fora repreendido pelo que fizera a si, apesar de Suho ter certeza de que a culpa era sua por ter desobedecido às ordens dos velhotes, e não do garotinho de madeixas acinzentadas. Foi então que decidira fazer diferente. Ao convencer bem sua mãe, o castanho, juntamente com ela, prepararam uma cesta de comida e ele, mais uma vez, rumou na direção da floresta. Sentira-se um idiota por, coincidentemente, vestir uma camisa com capuz vermelha, mesmo que não se achasse como a garotinha do conto de fadas.
Caminhara devagar para dentro da floresta, chamando pelo outro, mas não havia nenhum sinal deste. Suho ainda andou um pouco mais para o interior e estava prestes a desistir de procurar pelo garoto, mas ao se virar, assustara-se com a aparição do outro que lhe observava em silencio e caíra no chão em seguida. Minseok ainda o olhara, confuso com a reação exagerada do menor, que se esforçou em ajeitar a cesta e se levantou. “Você me assustou”, riu em seguida, baixando o capuz. E o outro nada dissera. “E-eu trouxe comida”, continuou logo se abaixando próximo da cesta e levantou a tampa.
Não demorou muito para que os dois garotos esticassem o tapete e se servissem de sanduíches e sucos. Vez ou outra, Suho tentavam iniciar uma conversa, mas o máximo que conseguia era um monólogo. Enquanto contava um pouco de sua vida, o castanho acabava rindo em alguns momentos, entretanto, era difícil saber se Minseok realmente estava lhe ouvindo, ou sequer se importava se o outro abria a boca ou não. Por fim, os dois decidiram – ou melhor, o mais novo decidiu – que era hora de voltar para a mansão.
Além do mais, estava anoitecendo.
A parceria deles era forte, comparada aos dos outros garotos da idade deles. O problema é que, durante os treinamentos, Suho se unia aos outros e Minseok... Treinava com os velhotes. Seu pai costumava dizer que, a cada dia que se passava, o garotinho de bochechas grandes estava mais parecido com o pai. Até mesmo na teimosia. “Papai, mas quem era o pai do Minseok?” questionou o garotinho ao mais velho numa noite, antes de dormirem. “O pai do Minseok era o nosso líder. Ele era quem comandava todas as sedes de todos os países.”, explicou, após muito pensar. “Um grande homem e um verdadeiro amigo”.
Quando o castanho ouvira aquelas palavras de seu patriarca, não houve um instante em que Suho não deixara de questionar ao amigo se tudo aquilo era verdade. “É verdade que seu pai, sozinho, matou muitos vampiros?” perguntava a voz infantil curiosa ao mais velho que nada lhe respondia. O menor insistira tanto em sanar suas dúvidas ao ponto de desistir e se calar. Por fim, achara melhor deixar que Minseok se sentisse a vontade para falar. Todavia, os dias se passavam um após o outro e não havia uma palavra sobre aquele assunto.
Foi então que, numa manhã chuvosa, Suho decidiu assistir o treinamento do amigo. Ora... Se o castanho era o mais rápido dentre todos os garotos, Minseok conseguia superá-lo na chuva. A velocidade que atacava e se defendia dos velhotes era quase simultânea. O menor chegou a pensar que era uma injustiça seis homens – com exceção de seu pai – atacarem um único garoto que segurava apenas um bastão e uma arma branca. Mas ele estava enganado. Muito enganado.
Os homens sempre atacavam em conjunto e eram afastados em conjunto. Quando todos se afastaram do menor, Minseok se apoiara em apenas um dos joelhos, ofegante, enquanto encarava e conversava com o pai de seu amigo. Suho não conseguia ouvir a conversa dos dois, já que estava em seu quarto, assistindo-os pela janela fechada. O castanho somente respirara mais calmo quando o mais velho se levantou, encarando seu pai incrédulo. Entretanto, o sorriso que ameaçava deixar seus lábios não conseguira se formar a tempo, já que, num momento, o garoto de cabelos acinzentados estava sendo atacado pelo bando e, no outro... Todos estavam no chão.
Mas o que fizera realmente o castanho temer pela vida de seu pai foi a ousadia e frieza de Minseok arrancar as duas armas dos coldres dos caçadores e avançar em seu treinador. Desesperado, Suho correu para fora do quarto, descendo a grandiosa escada e ao parar diante o portal de acesso ao jardim, seu coração parou subitamente ao avistar seu pai ordenando que seu amigo abaixasse as armas – sendo que ambas estavam apontadas diretamente para a cabeça alheia – ou poderia se machucar. “Eu lhe pedi um favor simples, instrutor Kim”, interrompeu Minseok sério. “Uma única coisa e o senhor se recusou”.
“Minnie, por favor!”, gritou Suho, correndo até os dois e empurrou o maior, que sequer se moveu de seu lugar. “Por favor! Por favor!”, chorou desesperado. “Não mata o meu pai, Minnie!”, implorou aos berros. “Minseok!” gritou novamente, soluçando e socando-lhe o peito. “Abaixa a a-arma”, desta vez, o castanho encarou os planetas frios e azulados, que gradativamente desviaram para os semelhantes castanho-esverdeados. E Minseok percebeu que aquilo assustava o menor choroso. O mais novo chorou baixinho, abraçando o pai que lhe afagava os cabelos sem desviar a atenção da face do garoto e não demorou muito para que o mais velho largasse as armas no chão e deixasse o jardim em silencio.
Entretanto, o que seu pai pensou que fosse um blefe... Na verdade, não era. Quando pegara as armas do chão, constatou que as duas... Estavam carregadas.
E desde aquele incidente até aquele exato momento, o rapaz ainda temia a capacidade fria e ameaçadora de Minseok. Involuntariamente, seus dedos se fecharam contra as semelhantes do mais velho, que suavemente roçou o nariz contra a sua nuca, tornando a adormecer. Todavia, ao abrir os olhos, grossas e silenciosas lágrimas desceram por seus olhos, desaparecendo nos travesseiros. Joonmyun sabia exatamente do que aquelas mãos eram capazes.
E ele tinha medo. Muito medo.
Gradativamente, o loiro girou o corpo, permanecendo de frente ao mais velho e sorriu de leve, deslizando os dedos por sua face. Era curioso de se notar quando as feições do homem mudavam: quando dormia, parecia um pequeno querubim; quando encarava algo ou desgostava de alguém, seu queixo travava ao ponto de suas bochechas “inflarem”; quando sorria, o mesmo era contido, mas não deixava de ser lindo. E foi assim, admirando aquelas feições que Joonmyun se aproximou do líder.
Entretanto, o que realmente fez o loiro se entregar completamente ao maior... Eram as suas duas brilhantes e belíssimas safiras.
Eram elas quem fazia Joonmyun se esquecer de toda a sua sanidade e raciocínio e deixar-se levar aos encantos do outro. Devagar, o loiro deslizou o indicador pela têmpora até a bochecha, esperando pacientemente que aquele carinho lhe permitisse a melhor das visões. E não demorou muito para que o homem de madeixas acinzentadas acordasse, encarando os semelhantes do menor. Minseok piscou devagar, logo avistando o sorriso largo de seu visitante e suspirou arrastado, puxando-o para si.
_ Oh, por favor... – riu o mais novo abafado. – Deixe-me vê-las uma ultima vez!
Joonmyun ergueu a cabeça, logo avistando um dos olhos aberto e riu baixinho, desferindo-lhe uma tapa na nádega alheia. Desta vez, o líder assentiu, puxando o outro por sobre si e abriu os olhos, encarando-o por longos minutos. Minseok logo sentiu as palmas frias contra o seu rosto, enquanto tentavam afastar algumas mexas de sua testa.
_ Elas ainda continuam lindas. – murmurou fascinado. – Devia parar de roubar o mar e o céu, Minseok. Isso é feio, sabia?
Aquelas palavras arrancaram um sorriso largo do mais velho que sentou na cama, logo tomando os lábios alheios num beijo saudoso. Sugou-lhe o lábio com calma, não demorando em ser correspondido com afagos nos cabelos e arranhões suaves nos ombros. Abraçaram-se aos poucos, enquanto Joonmyun permitia uma nova exploração em sua cavidade bucal por parte do outro. As mãos firmes de Minseok deslizaram por sua cintura até o quadril, forçando-o a roçar suas intimidades.
_ Seokkie... – miou o loiro, observando-o beijar seu colo e pescoço. – Não faça isso...
Porém, o mais novo fora calado com um novo ósculo. Novamente, seu corpo foi deitado sobre a cama, onde o maior projetou-se sobre si, atacando-lhe com mordidas e provocações pelo corpo. Joonmyun grunhiu, corando na medida em que Minseok trilhava em direção a sua virilha. E por um instante, o loiro sentiu a cavidade úmida lhe tomar o órgão reprodutor com gosto... Se uma batida na porta não soasse do outro lado. Lentamente, os olhos felinos desviaram para a porta de madeira, enquanto a incredulidade estampava em sua face.
Ou alguém era muito atrevido, ou era muito tolo para interrompê-lo naquele momento.
O loiro alternou os olhos entre o líder e a porta e vice-versa, um tanto nervoso pela súbita aparição. Rapidamente, se sentou na cama, depositando um selar estalado no pescoço alheio e sussurrou-lhe que era melhor Minseok se acalmar ou acabaria evidenciando a própria fúria ao infeliz descuidado. Por fim, Joonmyun deixou a cama, dirigindo-se ao banheiro, enquanto o líder vestia um roupão negro, caminhando pesado até a entrada. Quando a porta subitamente se abriu, Jongdae – que estava ali – assustou-se com a aparência de seu Mestre.
O silencio entre os dois durou aproximadamente cinqüenta segundos até Minseok perder a paciência e rosnar para o próprio Mordomo, o que fez o moreno tragar a saliva e o ar com força para dentro de si, antes de começar a falar.
_ Espero que seja algo bastante importante para me incomodar, Sr. Kim. – começou pausadamente.
_ Sim senhor. – concordou o moreno, olhando-o. Mas Jongdae não conseguia disfarçar a surpresa em ver seu líder trajando aquelas roupas. – O senhor tem uma visita. Ele está em seu escritório.
_ Quem? – bufou, quase fechando a porta.
_ Ele, meu senhor. – murmurou. – O Primeiro-Ministro.
_ O que disse? – questionou pausadamente, escancarando as portas.
_ O Primeiro-Ministro da Inglaterra. – repetiu. – Ele está em seu escritório. Disse que o assunto é de extrema urgência e precisava conversar com o senhor... Imediatamente.
_ Tudo bem. – assentiu. – Obrigado e pode voltar a dormir, Jongdae.
_ Tenha uma boa noite, senhor. – desejou o Mordomo, afastando-se.
O líder novamente fechou as portas, passando a mão pela face e suspirou arrastado. Em poucos minutos – e sob o acompanhamento das órbitas castanho-esverdeadas do loiro –, Minseok vestiu a boxer e a calça de moletom, seguindo para o seu escritório que ficava ao lado. Não demorou muito para que os planetas azuis avistassem a figura pública visivelmente cansada. Não aparentando ter mais do que 38 anos, o homem de madeixas escuras e olhos azuis desviou a atenção para o líder, se pondo de pé em seguida.
O coreano sabia bem que aquele inglês de nariz grande e afilado não dormia bem há alguns dias. As olheiras embaixo dos olhos e a tez pálida como papel eram notáveis aos seus olhos aguçados. O Primeiro-Ministro sorriu amarelo, numa explicação muda de que estava de mãos atadas.
_ Desculpe-me interromper sua noite, Sr. Kim, mas há um assunto que preciso... Não. Necessito – corrigiu rápido. – de sua ajuda e de sua cooperação.
_ E o que devo a honra, Sr. Primeiro-Ministro? – questionou, acomodando-se diante o estofado de couro.
_ É de extrema urgência. – explicou. – Bom... Primeiro: deve me garantir que nada sairá dessa sala e atravessará as paredes.
_ Garanto-lhe. – concordou.
_ Segundo: peço perdão novamente por incomodá-lo. – desta vez, sorriu. – Se nosso assunto não fosse tão delicado, talvez não tivesse vindo de casa praticamente correndo.
_ Eu entendo. – e sorriu de leve.
_ Agora, vamos ao que interessa. – e suspirou, colocando a pasta amarelada com a inscrição “TOP SECRET” sobre a mesa. – Há algumas semanas, vocês impediram que a notícia sobre esses desobedientes se espalhasse pela cidade e gerasse o pânico nas pessoas, alegando apenas uma série de supostos “suicídios”. Eu agradeço por aquilo, Sr. Kim, mas a situação agora é agravante.
“Eu, juntamente com o Parlamento, decidi selecionar uma quantidade de policiais da Scotland para vasculhar alguns locais que gerasse desconfiança, a fim de encontrar outros desobedientes. Mandávamos a equipe de buscas dia sim, dia não e nós encontramos isso. O que acha que é, Sr. Kim?”
Minseok baixou os olhos para a pasta aberta, com inúmeras fotos tiradas de muitos corpos espalhados pelos becos e vielas escuras de Londres. O homem piscou devagar, examinando as imagens por algum tempo, enquanto ouvia o discurso e explicações do Primeiro-Ministro.
_ É claro que esses corpos já foram recolhidos e levados a perícia. – continuou. – Não sabemos até quando esses corpos continuarão espalhados pelos becos, mas espero que o senhor me tenha uma explicação sobre essas mortes.
_ Pela quantidade de corpos e o estado em que se encontram... – Minseok alternava os olhos entre as fotos. – Foram feitas por alguém experiente.
_ Temos um desobediente serial killer? – perguntou.
_ Não, senhor. – e sorriu, sem desviar os olhos para o outro. – Eu digo que, quem está fazendo isso, é uma criatura de muitos séculos. Entretanto – logo, o olhou. –, essas pessoas mortas são estupradores, assassinos, psicopatas e bandidos. Se o senhor se preocupa com elas, posso alertar...
_ Não, não é necessário. – interrompeu. – Se eles são apenas isso, então, não precisa incomodá-los. Deixe-os que continuem seus trabalhos.
_ Sim senhor. – assentiu Minseok.
E, enquanto o homem recolhia as imagens, uma foto em especifico chamou-lhe a atenção. Num movimento ágil, o líder tomou-lhe a foto das mãos, examinando-a de perto e relutou contra o sono que ameaçava bloquear seus sentidos. Havia algo de diferente naquela morte em comparação às outras: o corpo da mulher que Minseok examinava estava completamente estraçalhado. Sequer se podia ter certeza da cabeça, colo e abdômen, já que tudo era uma mistura de miolos, tripas, ossos e muito, muito sangue.
_ Algum problema, Sr. Kim? – perguntou o homem.
_ E sobre esta foto? – Minseok mostrou-lhe, o que fez o homem colocar a mão na boca, evitando por para fora o seu jantar. – Perdoe-me, mas precisa me dizer.
_ Bem... – e respirou fundo, afastando o horror de si. – Nós encontramos esse corpo hoje mais cedo. Tivemos que recompensar bem a equipe de busca para que limpassem a bagunça...
_ Onde a encontraram? – interrompeu.
_ Num galpão, há 61 km da cidade. – respondeu. – Acha que isso tem a ver com os desobedientes, Sr. Kim?
Mas Minseok não respondeu. Apenas se levantou e pediu, com educação, para que ficasse com a foto. O moreno, mesmo confuso com aquele pedido, apenas concordou, despedindo-se com um breve aperto de mão e deixou o escritório do líder. Entretanto, a atenção do Mestre não estava mais direcionada ao Primeiro-Ministro e sim, ao desastre na imagem. Era notável ver alguns pedaços espalhados próximo ao que seria um corpo e o mesmo absurdamente destroçado.
_ Venha ao meu escritório. – ordenou ao apertar o interfone.
_ Minseok? – a voz suave de Joonmyun chegou aos seus ouvidos, até o loiro parar finalmente ao seu lado. – Aconteceu alguma coisa?
_ Esta noite... – suspirou pesado, colocando a foto sobre a mesa. – Poderia voltar para o seu quarto?
_ Posso. – assentiu confuso e notou que o outro estava diferente. – Minseok, o que houve?
Não demorou muito para que os passos de seu mordomo ecoassem pelo corredor silencioso, logo parando no interior do escritório. Jongdae curvou-se, ainda vestindo seu pijama e esperou as ordens de seu mestre. Devagar, a atenção do loiro se desviou para o mais velho, pousando a mão em seu ombro, o que fez o homem de cabelos acinzentados suspirar arrastado, virando para o seu Mordomo.
_ Deseja algo, senhor? – Jongdae o olhou.
Minseok olhou rápido para o menor que assentiu, desejando-lhe boa noite e, ao passar pelo moreno, deu-lhe uma tapinha no ombro. E o silencio permaneceu naquele ambiente por longos minutos, sendo interrompido por suspiros arrastados. Jongdae notara o olhar perdido do mais velho e se aproximou devagar, parando a sua frente.
_ Meu senhor... O que houve? – questionou.
_ Algo muito estranho está a caminho, Jongdae. – sussurrou, olhando-o. – E, se eu não estiver errado... Londres se tornará um banho de sangue.

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