quinta-feira, 9 de junho de 2016

Moonlight - Capitulo Sete

Os passos seguiam tão silenciosos pelo extenso corredor que os próprios seres da noite se assustavam com a presença que surgia. O homem encarava tranqüilo o caminho que seguia, sequer se importando se as outras criaturas se afastavam. O sobretudo em seu corpo esvoaçou conforme o ritmo de seu andar, deixando-o cada vez mais ameaçador e provocante. Um pequeno sorriso surgiu no canto de seus lábios carnudos, fazendo-o erguer o queixo másculo e um discreto suspiro escapou de sua boca. Afinal, era raro quando o ex-líder dos gangrels transitava pela mansão. Todavia, quando isso ocorria, havia dois motivos possíveis: ou desejava caçar... Ou conversaria com o superior. Mesmo não gostando muito da situação... Ele teria que falar com o Príncipe. E, por fim, parou diante a enorme porta de carvalho, empurrando-as.
_ Meu senhor? Permita-me entrar.
Gradativamente, os olhos carmesins se ergueram para a entrada de seu escritório, onde avistara a presença mais inesperada daquela manhã chuvosa. Luhan jamais esperaria a presença de Park Changmin em sua sala. Até onde o homem de muitos séculos podia se lembrar, o pai de Chanyeol não pisava em sua sala desde que seu filho assumira seu lugar. E isso já havia se passado algumas décadas. Entretanto, o que são décadas para os vampiros? Sim. Alguns meses para os humanos. Talvez até dias. O castanho avaliou as feições tranqüilas e, principalmente, o pequeno sorriso do outro, também sorrindo. Logo, gesticulou para que entrasse, enquanto se levantava e seguia até a poltrona, acomodando-se.
_ O que devo a honra, Sr. Park? – começou o Príncipe.
_ Vim sanar minhas dúvidas. – e devagar, colocou a carta sobre a mesa, acomodando-se no sofá. – Tem certeza de que não está ocupado, meu senhor?
Luhan o encarou por uma fração de milissegundos, piscando devagar e gesticulou graciosamente para que o outro começasse seu pronunciamento. O maior agradeceu com um leve aceno de cabeça e mediu suas palavras antes de iniciar.
_ Eu recebi vossa carta e quero entender bem os termos que estão escritos. – começou, mantendo os olhos no envelope com o lacre rompido. – Este é um convite do Sr. Kim Minseok para uma luta até a morte na floresta de Epping. E os termos que ele colocou foram: a luta será apenas um contra um, ou seja, sem ajuda ou reforço; as únicas armas que se podem levar são armas brancas, nesse caso, espadas ou adagas; e a ultima, não menos importante, é que... Aquele que for morto, seus seguidores limparão o desastre ocorrido e não poderão tentar matar o vencedor. Estou certo?
_ Sim. – assentiu. – É exatamente o que há na carta.
_ Vamos ver se eu entendi os termos por partes. – desta vez, o olhou. – Mesmo que a Ordem decida ajudar o seu líder, eles não podem intervir no combate, correto? – Luhan lentamente estreitou os olhos, assentindo. – Ainda que ele esteja em grande desvantagem, Minseok não pode ser ajudado por ninguém dos dois lados. Ou isso seria trapaça. – não demorou muito para que Changmin se lembrasse do segundo termo. – As únicas armas disponíveis que se podemos levar são armas brancas, como espadas e adagas. Mas se verificarmos esse termo em específico, nós, vampiros, não morremos com espadas ou adagas atravessando nossos corpos. Diferente dos humanos, que apenas com uma apunhalada no coração e seus corpos desfalecem.
Desta vez, Luhan tragou um pouco de saliva, sem demonstrar qualquer reação exagerada de medo... Apesar de temer pela vida do outro. Ele sabia que Minseok poderia ser um ótimo lutador, mas Changmin... Changmin era traidor. De alguma forma, que o Príncipe desconfiava, o homem a sua frente encontraria uma maneira de quebrar algum desses termos.
Mas o que realmente deixava o Príncipe nervoso do desfecho desta luta mortal era o último termo. E Changmin estava prestes a explicar melhor o termo que tanto o deixava curioso. Além do mais, aquele último termo era uma estranha e misteriosa faca de dois gumes. Por que, se Minseok morrer, a Ordem não poderia se vingar do vencedor e nem mesmo ele poderia salvar o humano do ataque.
Todavia... Assassinar o líder da Ordem dos Caçadores ou mesmo o Príncipe da Cidade poderia acarretar o maior desastre que Londres jamais presenciara. Maior até mesmo que as Guerras Mundiais.
_ E o último termo... – continuou. – Aquele que for morto em combate, seus seguidores limparão a bagunça e não poderão matar o vencedor. Mas estou curioso sobre isso: se Minseok for morto... Será mesmo que a Ordem não fará absolutamente nada? Nem mesmo irão se vingar?
_ Foi o que o Sr. Kim me garantiu. – respondeu o castanho automaticamente, apesar de sua mente estar em outro lugar. – Segundo o próprio Sr. Kim, ninguém dos três departamentos, nem os recrutas e muito menos o seu Mordomo intervirá na luta ou no fim dela. Se o líder deles morrer, eles limparão a bagunça feita e não se vingarão.
_ Compreendo. – e sorriu um pouco mais largo. – Entretanto, meu senhor, eu ainda possuo duas dúvidas e, se o senhor me permitir, gostaria que respondesse sinceramente.
_ Diga. – e involuntariamente, seu maxilar travou.
_ A primeira é sobre o bebezinho. – começou. – O que acontecerá com ele?
_ Está se referindo... – disse pausadamente. – à Baekhyun? – e o viu assentir, sorrindo. – Bem, a Ordem se encarregará de cuidar dele. Para ser sincero, eu não sei o que farão com ele.
_ Hum... – concordou de leve, voltando a olhá-lo. – Agora... Diga-me: o que o senhor estará disposto a fazer se o líder da Ordem morrer, meu senhor? Por que... Até onde eu e meu filho sabemos, há muito mais do que uma ligação política entre o senhor e aquele humano.
As órbitas de Marte encararam as semelhantes do castanho que permaneceu em silêncio, observando-o se erguer e curvar-se gracioso. Devagar, afastou-se do sofá, caminhando até a porta e parou, sorrindo abertamente. E, numa atuação falsa de que se lembrara de algo, ele estalou os dedos e encarou Luhan de soslaio, alegando aceitar o convite da luta. Por fim, Changmin deixou o escritório, permanecendo apenas a fúria e o medo da criatura de tantos séculos. Num rápido movimento com o dedo, as portas pesadíssimas de carvalho se fecharam num baque, ecoando pelo cômodo quase vazio. O vampiro bufou arrastado, descansando a cabeça contra o encosto da poltrona, enquanto seus longos dedos se fechavam contra os braços acolchoados, furando-os.
_ O senhor está nervoso. – a voz grave e rouca de seu Matador soou próxima de seus ouvidos, enquanto as palmas alheias repousavam em seus ombros. – O que houve, meu Mestre?
Sehun notou o olhar perdido do Príncipe sobre a mesa. Devagar, suas mãos se afastaram do corpo alheio, ao que ele se curvou respeitosamente, ameaçando sair do cômodo. E sairia... Se Luhan não o chamasse num fio de voz. O loiro desviou os olhos novamente para a poltrona, encontrando as semelhantes carmesins lhe encarando em silêncio. Aos olhos humanos, o castanho mais parecia uma estátua de mármore ou alguma pintura do século 17 de um autor desconhecido, mas o homem que o observava não podia considerá-lo da mesma maneira.
Para Sehun, Luhan era muito mais do que real. Infelizmente, os humanos ainda não criaram o vocabulário certo para definir o que aquele homem era. Mas, por hora, o consideraria inefável. Em passos lentos, o mais novo se aproximou, sendo acompanhando pelos rubis opacos e abaixou-se a sua frente, exatamente como um aprendiz quando admira a arte e o talento de seu mestre. Encararam-se por longos minutos, que mais pareciam séculos, enquanto os sons a sua volta desapareciam aos poucos.
A mente do Príncipe se encontrava longe dali. Longe dos semelhantes avermelhados de seu Matador. Longe das conversas no salão principal da mansão. Longe de Londres. Para ser mais direta, sua mente se concentrava nos próximos dias que anunciariam a luta entre o humano que estranhamente o atraía e o pai de Chanyeol. Afinal, Luhan não podia prever o futuro, mas podia cogitar em inúmeros desfechos para aquela noite mortal tão aguardada.
Todavia, nenhum dos desfechos possuía boas notícias.
Droga!
_ Meu senhor... – recomeçou o loiro, chamando sua atenção.
_ Preciso que envie um recado ao Sr. Kim Minseok. – ordenou, respirando lentamente. Sehun, de imediato, cerrou o semblante. Além do mais, ele odiava aquele humano. – Solicite sua presença nesse momento.
_ E qual é o motivo? – rosnou.
_ Confidencial. – rebateu, fingindo não perceber o ciúme em seu timbre. – E de extrema urgência, Sehun.
_ Sim, senhor. – concordou, e numa fração de segundos, Sehun desapareceu diante dos olhos de Luhan.
“E seja rápido”, completou em pensamento. 

O movimento passou tão rápido pelo moreno que a única coisa que conseguiu perceber foi a sua própria queda contra o piso de madeira. Estava naquele salão de treinamento a mais de oito horas e sequer teve tempo para descansar. E não teria. Não, enquanto seu treinador não lhe dissesse para descansar. Deixou-se ficar deitado no chão, tentando recuperar o fôlego da oitava luta perdida contra o mais velho. Ou seria a décima? Kyungsoo se perdeu nas contas e balançou a cabeça, sentando-se.
_ Vamos. – chamou Minseok, enquanto caminhava em torno do menor. – Eu ainda não disse que devia descansar. – e o moreno percebeu o pequeno sorriso nos lábios alheios.
_ Sim... Senhor. – suspirou, apoiando-se no bastão e se ergueu.
O homem de cabelos acinzentados se afastou um pouco de seu aprendiz e entrou em sua posição de combate. Kyungsoo fizera o mesmo e, num segundo, investiu contra o mais velho, acertando-lhe o bastão em movimentos rápidos, enquanto os mesmos eram defendidos pelo mais velho. Minseok apoiou-se no próprio bastão contra o chão e chutou, com os dois pés, o moreno no peito que cambaleou alguns passos para trás, antes de uma nova investida. Novo choque de bastões e quando os mesmos voaram das mãos de ambos, continuaram a lutar. Chutes seqüenciados, socos, saltos e imobilizações foram feitas um contra o outro.
O ‘recruta’ percebeu que seu líder era ótimo tanto atacando, quanto se defendendo, porém, Minseok sequer desviava dos golpes. Nem mesmo quando seu pé quase acertara o rosto do mais velho, o mesmo se afastou: ele apenas defendeu o chute com o antebraço e novamente avançou contra o menor. E então, Kyungsoo decidiu ousar. Numa seqüência rápida, o moreno tentou chutar o homem girando o corpo como num pião. A cada volta, suas pernas voavam na direção do rosto alheio que era defendido pelos braços do maior.
Quando o giro se tornou mais rápido, Minseok notou que estava começando a se cansar e seus bloqueios não o defendia o suficiente: Kyungsoo estava cada vez mais rápido e o impacto, cada vez mais forte. E, após o sétimo giro, o moreno finalmente acertou o rosto do líder que virou o rosto e cambaleou para longe, caindo de joelhos. O menor parou subitamente, apoiando os pés firmemente no chão e lentamente, seu corpo caiu para trás, enquanto o mundo, diante seus olhos, começava a girar mais rápido do que ele.
O que nenhum dos dois oponentes esperava era a expressão incrédula do Mordomo, enquanto alternava os olhos entre o maldito ‘recruta’ e seu mestre protegendo o local de impacto. Em passos largos, Jongdae abaixou-se próximo ao líder que desviou os olhos para os semelhantes escuros do rapaz e gesticulou que ele estava bem. Mas como Minseok podia estar bem se estava machucado?
_ Senhor? – subitamente, os olhos negros do maior desviaram para os semelhantes grandes e preocupados de Kyungsoo que se aproximava, ainda tonto. – O senhor está bem?
_ O que você fez ao mestre? – rosnou o moreno, pondo-se de pé e antes que pudesse apontar a arma para o garoto, Minseok interveio.
_ A culpa não é dele, Jongdae. – pronunciou-se, girando e sentou no chão, apoiando-se nos braços. – Eu apenas fui descuidado.
Não demorou muito para que as órbitas safiras se desviassem para Kyungsoo, que avistou o filete vermelho no canto da boca pequena. Minseok sorriu de leve, logo fazendo uma careta de dor e levou a mão novamente ao local, enquanto Jongdae mais uma vez abaixava-se ao seu lado, a fim de examinar o ferimento. Entretanto, quando os dedos longos do maior ameaçaram tocar-lhe a face, o homem segurou sua mão, impedindo-o.
_ O que houve? – perguntou o líder.
_ O senhor tem visita. – respondeu, ainda encarando o ferimento do outro. – O Matador do Príncipe, Oh Sehun, veio para vê-lo.
_ O que ele quer? – continuou.
_ Disse que precisava conversar com o senhor. – explicou. – Questionei sobre o assunto, mas ele se negou a responder. Apenas alegou que o Príncipe solicitava vossa presença à Máscara. E que era de extrema urgência.
Minseok encarou as órbitas escuras por longos minutos em silencio. E, aos poucos, Jongdae se sentia desconfortável por ser avaliado pelas pedras preciosas por tanto tempo. O moreno piscou rápido, tragando o ar e a saliva com força e, num breve deslize, sua atenção se desviou para os lábios pequenos e levemente cheios do mais velho, enquanto uma ânsia de tomá-la se apossou em sua mente. Todavia, o Mordomo controlou-se, baixando a cabeça em seguida.
Afinal, era o seu líder.
Ele não podia fazer aquilo.
Além, é claro, de que seu Mestre prontamente correria para os braços do Príncipe da Máscara.
_ Jongdae. – chamou Minseok, vendo-o erguer os olhos devagar para a sua face. – Diga à Sehun que estou ocupado. Eu não irei ver o Príncipe hoje.
O Mordomo piscou incrédulo e surpreso, o que não passou despercebido nem por Minseok e, muito menos, por Kyungsoo que assistia em silencio. Logo, o homem bateu de leve em seu ombro e segurou firmemente sua mão, ao que Jongdae se ergueu, puxando o mais velho para que ficasse de pé. O líder mancou na direção da mesa, levando a mão aos cabelos e bagunçou-os, suspirando arrastado. Aquela não era uma decisão fácil de cumprir, mas ele teria de fazê-la. Ele não podia se deixar levar aos caprichos e desejos do Príncipe sempre que ele quisesse. Até por que, as palavras de Chanyeol ainda rondavam sua mente.
_ M-mas... Mestre. – Jongdae tentou recomeçar. – O Matador... Ele...
_ Você não é surdo, Jongdae. – Minseok o olhou, enquanto abria uma garrafinha de água. – E nem Sehun, por isso, não irei repetir. Agora, se não vê, eu realmente estou ocupado treinando Kyungsoo. – e apontou para o menor que sentiu o sangue gelar ao encontrar o semblante furioso do Mordomo.
_ Sim senhor. – disse entre dentes, ainda fuzilando o nanico de olhos esbugalhados... Digo... Kyungsoo e antes de deixar o salão, fora novamente chamado.
_ E quanto àquele assunto, Jongdae? – questionou.
_ Estamos investigando, senhor. – respondeu, vendo-o assentir e finalmente deixar a sala.
_ Desculpe-me por Jongdae. – Minseok fitou o moreno que caminhou devagar até ele, parando ao seu lado. – Não era muito comum vê-lo assassinar alguém só com um olhar.
_ Eu... Estou meio acostumado, senhor. – murmurou, pegando uma garrafinha.
Minseok sorriu de leve, tomando um gole breve de água e desviou os olhos para a enorme janela, enquanto a chuva castigava o vidro em torrentes. Um suspiro discreto deixou seus lábios, fazendo sua mente repensar no que acabara de fazer. O homem de cabelos acinzentados sabia que aquilo poderia resultar algo fora de seu controle, mas não voltaria atrás. Kyungsoo percebeu o olhar perdido do líder que devolvia a garrafa para a mesa e voltou ao centro do salão.
_ O senhor está bem, Sr. Kim? – perguntou o menor, seguindo-o.
_ Estou. – assentiu, apanhando os dois bastões caídos e entregou um deles ao mais novo.
_ Não quer cuidar desse ferimento primeiro? – sugeriu, preocupado.
_ Faremos isso depois. – sorriu de leve, destacando ainda mais o ferimento em sua boca. – Agora, pare de olhar para os meus lábios e se concentre.
_ E-eu não estava... – gaguejou, desviando o rosto levemente corado, o que acabou arrancando risadas do mais velho.
O maior sorriu, apoiando-se no bastão e caminhou até o outro, pousando a mão em seu rosto. Devagar, Kyungsoo o olhou, piscando algumas vezes, ao que Minseok o puxou, deixando seus lábios próximos da orelha alheia. A respiração do mais novo se tornou falha, enquanto seus olhos se desviaram para o rosto próximo ao seu. Por fim, o homem suspirou arrastado, proferindo sua sentença.
_ Antes de voltarmos ao treino... – sussurrou. – Preciso que faça um favor para mim, Kyungsoo.

_ O que ele disse?! – os olhos vermelhos e incrédulos do Príncipe encararam os semelhantes do Matador, enquanto este se mantinha imparcial à resposta. Luhan ainda não acreditava nas palavras proferidas pelo mais novo.
Que estava ocupado, treinando um ‘recruta’, segundo o seu Mordomo, Kim Jongdae. – repetiu e, por um instante, Sehun quase deixou um sorriso de satisfação transparecer em seus lábios. Por um lado, aquilo era um alívio, não ver o seu mestre com o líder da Ordem. Entretanto, aquela informação não agradava nem um pouco o Príncipe da Máscara e era notável em sua face delicada.
_ Muita ousadia de sua parte, Minseok. – sibilou sarcástico. – Estou tentando salvar a sua vida e você me evita.
_ Diga-me, Mestre. – pediu o Matador, vendo o castanho desviar os olhos para si. – Por que tanta urgência em falar com aquele humano?
_ Você não entenderia. – rebateu, apoiando-se no vidro da janela. – Mesmo se eu desenhasse para você.
E ouvir aquilo afetou do loiro de semblante inexpressivo. Seria o mesmo que chamá-lo de estúpido ou tolo. Sehun permaneceu em silencio, baixando os olhos para o chão e não demorou muito para que ouvisse o suspiro arrastado de seu mestre. Afinal, o Príncipe não pretendia dizer aquilo a ele. Pelo menos, não na intenção de magoá-lo. Devagar, Luhan se afastou da janela, desviando os olhos para o mais novo e caminhou até ele, porém não conseguiu envolvê-lo em seus braços.
Por que o outro não permitiu tal feito.
_ Oh, me desculpe. – pediu. – Eu não pretendia ofendê-lo, mas... As coisas, a partir de agora, estão prestes a mudar, Sehun.
_ Eu sei, senhor. – assentiu. – Com licença.
_ Sehun...
Luhan tentou chamá-lo, vendo-o parar diante a porta. O homem de cabelos loiro-avermelhados esperou algum pronunciamento de seu mestre, mas nenhuma palavra deixou seus lábios. Todavia, o que ele poderia lhe dizer? Que ele não fosse embora? Que precisava alertar Minseok de que Changmin poderia matá-lo? Que temia perder o humano, ainda que começasse a ter sentimentos por seu próprio seguidor? Que algo muito ruim estava para acontecer?
O Príncipe não sabia o que dizer ao seu Matador.
Ele estava perdido. Visivelmente perdido.
_ Senhor? – perguntou Sehun, virando o rosto na direção do mais velho.
_ Está dispensado. – suspirou cansado, vendo-o acenar com a cabeça e partir em seguida.
Em passos lentos, o castanho retornou para a sua cadeira e sentou-se, apoiando a testa na mão. Luhan precisava pensar no que deveria fazer a partir de agora. E, enquanto sua mente disparava em inúmeras possibilidades de resolver seus problemas, Baekhyun se encontrava no pub com alguns colegas de trabalho. Sua dor de cabeça havia começado forte naquela manhã após ouvir o pedido de sua noiva para se consultar ao psicólogo. Segundo Taeyeon, ele ainda estava traumatizado pelo suicídio de sua aluna, mas se esforçava em esconder de todos.
E, contra a vontade, Baekhyun foi ao psicólogo. Depois de muito falar e “contar sobre o sofrimento de ter perdido uma de suas alunas brilhantes” – e nesse aspecto, o professor não estava mentindo –, o especialista deduziu que a morte de Evelyn Byrne o fez abrir os olhos para a realidade do mundo e o quão cruel ele pode ser. Todavia, não era sobre aquela explicação que o moreno estava curioso e sim, sobre a estranha pergunta do homem antes de deixar a sessão:
“Há algo em seu passado que o senhor insiste em esconder, Senhor Byun?”.
As órbitas azuladas encararam o enorme copo de cerveja preta, completamente alheio as conversas e risadas do outros homens que estavam se divertindo. E não demorou muito para que o professor de Química – um homem com seus poucos 29 anos e descendência “viking” (Baekhyun se cansou de ouvir sempre a mesma história de sua origem, apesar de, bem no inicio, estar fascinado pela aparência alheia), com cabelos avermelhados e belíssimos olhos azul-esverdeados – notar o silêncio alheio.
Segundo o moreno, Andrew, Benjamin – professor de Biologia –, Aaron – professor de Geografia – e ele são conhecidos por “Os Marotos” – principalmente por conta da febre Pottermania – pelas alunas da escola. Andrew era chamado por “Aluado” exatamente como Remus Lupin, devido sua aparência esguia e tímida, o que, para muitos, lembrava o famoso personagem da saga. Diferente de Benjamin, que possuía longos e famosíssimos cabelos negros e órbitas de mesma cor de seu representante, Sirius Black; além, é claro, da enorme coincidência em ser melhor amigo de Aaron. 
Baekhyun somente descobrira seu apelido – “Almofadinhas” – quando o mesmo estava exuberante e durante a troca de professores, uma de suas alunas o chamara assim. O que, de fato, ela não estava enganada: pelo que o professor havia entendido da “Família Black”, eles se vestiam da forma mais elegante possível e Benjamin não era muito diferente. 
E como o cabeça d’Os Marotos, estava Aaron e seus gritantes olhos azuis da cor do mar. Estranhamente, aquelas órbitas o fazia se lembrar de seu irmão mais velho, Minseok. Conhecido também como O Senhor da Terra-Média, o professor de geografia sempre arrancou suspiros longos de suas alunas pelo seu jeito cativante e desafiador. Quando Baekhyun questionou Benjamin o motivo de Aaron ser o “Pontas” naquela história, o moreno apenas respondeu que ele, juntamente com o amigo, descobriram que a noiva deste estava lhe traindo. Por isso, o apelido carinhoso.
Mas a pergunta que fica é... Como Baekhyun se tornou o “Rabicho”?
Bem... Devido à insistência dos três professores lecionarem no mesmo dia – coincidentemente, História também era uma das aulas –, ele foi incluso à equipe por dois motivos: um, por ser o menor deles, como “Peter Pettigrew” – Baekhyun achava que seria por que ele pertencia a uma sociedade das sombras, assim como o personagem pertencia aos Comensais da Morte – e segui-los o tempo todo; e dois, por que o consideravam solitário demais.
_ Baekhyun. – chamou Andrew, preocupado. – Está tudo bem?
_ Está. – murmurou, sorrindo de leve e tomou um gole breve de sua bebida.
_ Ainda pensando na Srta. Byrne? – Benjamin desviou suas pérolas negras para o menor, arqueando uma das sobrancelhas.
_ Não. – negou, voltando sua atenção para o copo.
_ Ei. – Aaron pousou a mão em seu ombro, chamando sua atenção. – Sabemos que foi uma barra pesada para você, Baekhyun. Sabemos também que os dias seguintes após a morte dela não foi fácil, mas se precisar, nós estaremos aqui por você, ok? Afinal, somos Os Marotos, não somos?
_ Devia parar com isso, Aaron. – Benjamin, como todo o seu sotaque britânico, zombou, balançando a cabeça. – O tempo de ser Pottermaníaco já passou. 
_ Então quer voltar a Terra-Média... – Aaron cruzou os braços, desafiando-o. – Samwise Gamgee?
_ Não... Frodo Baggins. – respondeu Benjamin, rindo em seguida.
_ E eles? – o moreno de olhos brilhantes desviou a atenção para Andrew e Baekhyun. – Quem seria Meriadoc Brandybuck Peregrin Took? O Baekhyun tem cara de Pippin, não acha Ben?
_ Não. – negou o outro. – Andrew é mais parecido com o Pippin. Já o Baekhyun podia ser o Merry. – logo, explicou as razões de tê-los definido assim.
Por sorte de Baekhyun, as explicações do colega de trabalho foram rápidas. O problema era a insistência de Aaron em querer o contrário. A discussão entre os dois amigos – ou melhor, entre o Senhor da Terra-Média e o Senhor da Morte (Benjamin era um notável Pottermaníaco, apesar de conseguir omitir tal informação) – perdurou por algumas horas, enquanto que Andrew pedia para que os dois parassem com aquilo ou chamaria a atenção do proprietário do pub. Até que o menor alegou ao ruivo que iria para casa, deixando algumas notas sobre a mesa e se afastou em silencio.
Não, Benjamin. – Baekhyun ouviu Aaron falar. – Baekhyun é mais parecido com o Pippin. Até por que, ele pode não demonstrar, mas acho que ele é muito curioso...
Baekhyun não é assim. – Benjamin rebateu. – Não vê que não há melhor Pippin do que o Andrew?
Por que vocês dois continuam discutindo quem é quem no “O Senhor dos Anéis”? – Andrew suspirou.
O professor até riria da cena, mas estava mais concentrado na conversa que tivera com o psicólogo. E aquele especialista estava certo, de alguma forma. Além do mais, ele tentava esconder as suas verdadeiras origens, mas, quanto mais tentava, menos parecia conseguir. Até mesmo sua noiva desconfia...
_ Oh, me desculpe! – Baekhyun somente percebeu que havia se esbarrado em outra pessoa quando a mesma se pronunciou, derrubando sua pasta e alguns livros no chão. – É que, ultimamente, ando tão desastrado!
O moreno fitou o chão onde sua pasta estava caída e um homem a apanhava, juntamente com os livros espalhados, juntando-os. O professor avistou o exemplar de “O Retrato de Dorian Gray” caído próximo a uma mesa e tratou de pegá-lo, a fim de devolver ao homem. Seus olhos, ao se desviarem para o outro, constataram que ele era muito alto. Aos olhos de seus colegas que estavam mais afastados, Baekhyun parecia um adolescente perto desse estranho.
_ O seu livro... – murmurou, vendo o outro se virar e sorrir largo, enquanto arrumava os óculos de armação quadrada no rosto. Os cabelos castanhos estavam caídos sobre a testa, enquanto trajava uma blusa de gola alta e mangas longas, uma calça, sapato social e um sobretudo. Todos pretos. E Baekhyun percebeu o notável contraste à pele pálida do homem que ainda sorria para si. – Aqui. – e entregou.
_ Oh, muito obrigado. – agradeceu com um aperto de mão, ao que o moreno retribuiu o cumprimento, pegando a pasta de volta.
_ De nada. – murmurou logo se afastando.
Ao deixar o estabelecimento, Baekhyun caminhou devagar pela calçada, novamente concentrado nas palavras do especialista e estava prestes a mandá-lo mentalmente para o inferno, quando sua atenção mais uma vez fora chamada por alguém. Logo, o moreno desviou os olhos para trás, vendo o mesmo homem ao qual esbarrara correr até si, sorrindo abertamente, enquanto se esforçava em não derrubar os livros de seus braços. Por fim, parou diante o menor, ofegando e se apoiou nos joelhos, recuperando o ar.
_ Está tudo bem? – o moreno alternou os olhos entre o homem e o local da qual ele saíra. E se Baekhyun tinha certeza, não eram nem 20 metros de distancia até onde estavam. – Por que correu até aqui? Com essas suas pernas longas, bastava dar alguns passos e você já chegava...
_ Eu... Não costumo correr muito. – riu já mais calmo. – E obrigado pelo elogio. – em resposta, Baekhyun arqueou a sobrancelha. Ele não estava elogiando... Estava? – Você é Byun Baekhyun, não é? Professor de História do Balliol College.
_ Sou. – piscou devagar, um pouco confuso. Como ele sabia daquilo?
_ Que bom. – suspirou aliviado. – Bem... É que fui contratado hoje pela escola. Disseram-me que você é um dos responsáveis pela biblioteca...
_ Espera. – Baekhyun o interrompeu. – Você é quem irá substituir a Sra. McCleen?
Baekhyun tinha conhecimento de que a antiga bibliotecária da escola onde lecionava iria se aposentar e alguém com bastante experiência a substituiria. O moreno até recordou-se das palavras doce da bondosa e respeitada senhora: “espero mesmo que esse substituto seja melhor do que eu, por que se não for, Sr. Byun, eu virei pessoalmente para nocauteá-lo”. E tal lembrança fizera o homem reprimir uma risada, tornando a conversa.
_ Sou. – concordou, sorrindo mais largo.
_ Oh... – surpreendeu-se. – Bem, é um prazer conhecê-lo... – e calou-se.
Baekhyun não prestou atenção em seu nome ou o homem a sua frente ainda não lhe disse? O homem notou o silencio alheio e riu novamente, cumprimentando-o novamente com um aperto de mão.
_ Desculpe. – disse. – Meu nome é Richard. Mas pode me chamar de Rick, se quiser.
_ Richard... – repetiu levemente confuso. – Você é sul-coreano?
_ Meus pais são. – concordou, baixando a cabeça e corou um pouco. – Então... O diretor da instituição me disse que as aulas estão suspensas por causa da morte de uma aluna. É verdade?
_ É. – assentiu, suspirando arrastado. – Disseram que foi suicídio.
_ Bom... De qualquer forma – continuou, tornando a sorrir largo. O moreno, por um instante, considerou que ele, acidentalmente, aplicou botox no lugar errado. – Será um prazer imenso... – e olhou-o longamente. – trabalhar com você.
_ Posso dizer o mesmo. – o cumprimentou logo se afastando. – Nos vemos quando as aulas recomeçarem.
O homem observou o moreno se afastar e piscou devagar, exibindo os dentes branquinhos. Por fim, respirou fundo, enquanto seus olhos aguçados ainda o avistavam – apesar de Baekhyun estar há mais de três quilômetros – caminhando pela multidão.
_ Nos vemos quando as aulas recomeçarem... Bebê. – murmurou.

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