sexta-feira, 3 de junho de 2016

Moonlight - Capitulo Um

Londres, Inglaterra. 20 anos depois...
Os ponteiros do relógio de pulso, produzida por uma marca barata, marcavam exatamente onze e vinte e cinco da noite. Pela quarta vez, o homem de cabelos negros e orbes azulados observaram as horas marcadas, suspirando arrastado e voltou sua atenção para o pub bastante movimentado. Suas mãos estavam frias, mas não por conta da bebida gelada que segurava e sim, do nervosismo em voltar para casa. Ainda que tivesse discordado em saírem naquela noite, Baekhyun fizera companhia à noiva, Taeyeon, que se divertia com a boa música, remexendo-se no ritmo da mesma. Os traços, visivelmente asiáticos, se focaram na morena de mesma nacionalidade que a sua, enquanto um sorriso discreto se formava em seus lábios.
Fora ela. Com suas feições de menina e corpo de mulher, quem o fez se esquecer de seu passado sombrio. Cabelos castanho-escuros, olhos negros, tez alva como a neve que se formaria naqueles próximos meses e um sorriso de tirar seu fôlego. Tudo isso comportado em seu tímido 1,63m de altura, Taeyeon aparentava ser aquela típica líder de torcida ao quais todos os garotos são apaixonados. Baekhyun a conhecera durante uma palestra sobre a história através dos séculos, algo que não era muito do interesse da outra. Aliás, ela havia ido após uma insistência absurda da amiga, que não queria ir sozinha.
Havia inúmeras coincidências entre os dois – na época – estudantes de Cambridge. Como lugares preferidos, bebidas preferidas, artistas ou conceitos de arte que estavam relacionados... Sempre existia mais algum aspecto que os unia. Baekhyun viu naquela garota a única razão de sorrir pela primeira vez em toda a sua vida. Já Taeyeon, ter o rapaz ao seu lado é como se houvesse ganhado na loteria. Desde então, nenhum dos dois decidiu se afastar.
Até que, na hora de apresentar as famílias, Baekhyun sentiu seu corpo congelar. Sequer imaginou que a namorada concordaria em conhecer seus familiares. Claro, o moreno não pensou muito quando a apresentou à sua mãe, Byun Sooeun, que a recebeu sorridente e empolgada. Porém, quando lhe foi perguntado sobre seu meio-irmão, o rapaz apenas explicou que nunca mais soube de seu paradeiro.
Percebendo o longo silêncio do noivo, além do olhar perdido, Taeyeon tocou-lhe a mão, tirando-o de seus devaneios, ao que o moreno piscou lentamente, voltando seus olhos para a bebida. Baekhyun tomou um breve gole de sua cerveja preta, recebendo um olhar preocupado da mais velha. Não era a primeira vez que ele se perdia em pensamentos.
_ Está tudo bem? – perguntou ela.
_ Está. – respondeu, suspirando e olhando novamente para o relógio.
_ Está esperando alguém? – comentou, rindo da própria piada. – É a quinta vez que olha para o relógio...
_ Não. – Baekhyun bufou, rindo breve. – Só estou preocupado por que vamos voltar tarde.
_ Amor. – suspirou ela, entrelaçando ambas as mãos sobre a mesa. – Por favor, não haja como um adolescente que está com medo dos sermões dos pais por chegar tarde em casa. Nós estamos noivos e temos nossa própria casa! Somos independentes de terceiros e estamos juntos! Não se esqueça disso, sim?
_ Eu sei, mas Taeyeon... – o moreno tentou argumentar, mas foi interrompido.
_ Então, não se preocupe com as horas que estão se passando, sim? – e logo retirou o relógio de pulso do maior, guardando-o na bolsa. – Vamos aproveitar esse momento, certo?
_ Amanhã, eu vou precisar corrigir algumas provas dos estudantes...
E, mais uma vez, aquele discurso diplomático. Taeyeon bufou, revirando os olhos, sentindo-se cansada daquelas desculpas do noivo. Ela compreendia que Baekhyun era professor de História de uma escola de ensino médio em Londres e conhecia bem a carga horária que deveria cumprir. Mas não significava que ele não podia sair e se divertir com ela quando sobrava um tempo. Entretanto, seu noivo ainda relutava na mesma ladainha de que, sem a perfeita correção dele, seus alunos não poderiam ingressar em grandes universidades.
Mas o motivo do jovem professor desejar – ou melhor, implorar – para voltar para casa era outro. Há duas semanas, havia saído nos jornais que seis vítimas foram encontradas boiando sobre o rio Tamisa, sem vida. Todos os corpos estavam inchados devido à grande absorção de água, porém, não foi confirmada oficialmente a causa de suas mortes. Baekhyun desconfiou da informação divulgada no noticiário. Para ele, as vítimas haviam cometido suicídio. Todavia, nenhuma delas possuía características que as denunciasse para essa resposta.
Foi quando recebera, numa noite chuvosa, a ligação de um homem que se chamava Jongdae e que trabalhava para seu irmão. Ele explicou-lhe sobre as mortes estranhas das vitimas, dizendo que todas elas haviam sido atacadas por vampiros sob ordens de alguém da Máscara, e logo complementou de que Baekhyun não se preocupasse, pois os Caçadores e os Zeladores cuidariam daquela bagunça.
_ Será que não podemos ficar mais um pouco? – Taeyeon tentou, de forma manhosa, convencer o noivo a ficar naquele pub. – Só um...
_ Meu amor, não. – Baekhyun respondeu determinado, vendo a mais velha suspirar cansada. Não adiantava mais convencê-lo. Quando ele colocava algo na cabeça, era impossível fazê-lo mudar de idéia. Recebendo o apoio da outra, o moreno ergueu a mão, gesticulando para o barman. – A conta, por favor.
Taeyeon observou o noivo pagar a conta, deixando algumas notas sobre a mesa e pegou o casaco, seguindo-o para fora do estabelecimento. Seguiram pela calçada, atravessando algumas vias e esquinas até entrarem na rua onde moravam. As mãos enluvadas do casal se entrelaçaram, mas Baekhyun parecia mais preocupado com a pouca movimentação naquele horário. Raros eram os carros ou taxis que passavam, deixando um baixo som ecoar quando desapareciam no fim da rua. E, ao estar a alguns metros da casa, o moreno avistou alguns homens parados próximos de um veiculo escuro.
Numa contagem rápida, Baekhyun chegou à conclusão que havia doze homens ali, estrategicamente posicionados num raio de dois metros do carro. Por reflexo, ele puxara a noiva para perto de si, abraçando-lhe os ombros e pediu-lhe que logo entrasse em casa, fechando a porta. Taeyeon estranhou aquele pedido, alertando-o de que ele acabaria ficando trancado do lado de fora, mas foi interrompida por um longo selar em seus lábios.
_ Apenas vá. – concluiu ele, soltando-a.
A morena concordou breve, caminhando rápido até em casa e fechou a porta em seguida. Um suspiro deixou os lábios do professor, que desviou os olhos para o veiculo, onde um homem alto, de cabelos espetados e vestindo um terno escuro desceu, se aproximando. Os olhos pequenos se focaram no rosto de Baekhyun que ainda estava parado na calçada de sua casa, enquanto um sorriso leve transpareceu em seu rosto.
_ Sr. Byun Baekhyun? – disse ele, esticando a mão para cumprimentá-lo. – Kim Jongdae. Falamo-nos ao telefone há duas semanas.
_ Ah, sim. – concordou, cumprimentando-o.
_ É um imenso prazer conhecê-lo. – sorriu-lhe. – Penso que deve saber o motivo por eu estar aqui, não?
_ Suspeito. – murmurou, enfiando as mãos nos bolsos do casaco escuro. – Mas diga-me: por que veio?
Jongdae assentiu leve, gesticulando para que o outro o acompanhasse. Hesitante, Baekhyun o seguiu, aproximando-se do carro e observou o maior abrir a porta, permitindo que ele entrasse. O professor bufou, olhando rapidamente em volta e entrou no veiculo, vendo a porta se fechar ao seu lado. Todo o seu corpo se remexeu nervoso, enquanto relutava em olhar para o homem sentado do seu lado. Não era necessário que ele virasse o rosto para olhá-lo. Só a presença alheia era suficiente para Baekhyun identificá-lo.
_ Você cresceu. – uma voz suave soou dentro do carro, ao que Baekhyun o encarou. – Está mais parecido com nosso pai.
_ O que faz aqui, Minseok? – perguntou, por fim.
Ainda que anos tivessem se passado e o homem ao seu lado carregasse os conturbados 28 anos de existência, os traços da infância não mudaram em nada. Para Baekhyun, Minseok ainda possuía as mesmas bochechas grandes e os olhos de gato, com sua íris azulada. Característica principal da família Kim. Era uma pena que o professor não se sentia assim, já que ele era fruto de uma pulada de cerca de seu pai. O homem de cabelos acinzentados suspirou arrastado, notando a falha que cometera quando iniciou aquela conversa.
_ Vim garantir se está bem. – respondeu.
_ Não é preciso. – Baekhyun virou o olhar para a janela. – Se queria saber, devia apenas ter ligado. Assim não teria o trabalho de olhar para mim...
_ Por que continua agindo como um moleque desobediente depois de tantos anos? – mesmo proferindo tais palavras, o tom de voz do mais velho sequer se alterou. – Preciso mesmo fazê-lo se recordar do que somos exatamente?
_ Não. – encarou-o. – Eu sei o que você é.
E o silencio preencheu aquele local por longos dois minutos. O mais velho entendia que seu irmão ainda não concordava em entrar para a Ordem, como fora citado por seus mentores. Seus orbes vagaram pela imensidão de seus pensamentos, refletindo sobre a última conversa que ambos tiveram. O dia em que Baekhyun deixara mais do que claro que não entraria para a Ordem, saindo da mansão de seu irmão. Minseok suspirou longamente, e apoiou a mão sobre a bela bengala de ferro puro com revestimento de madeira.
_ Se veio apenas para isso, então... – Baekhyun fez menção em sair do carro, abrindo a porta. – Tenha uma boa noite...
_ Não me arrependo de ter salvado sua vida, Baekhyun. – proferiu, num murmúrio, observando, pelo canto dos olhos, o mais novo lhe olhar. – Ainda que papai tenha me passado tal ordem, eu não me arrependo.
_ Não é o que eu vejo. – disse. – Consigo ver em seus olhos que, se aquele vampiro tivesse me matado, você estaria lhe agradecendo, não?
_ Baekhyun... – Minseok o olhou de soslaio.
_ Pode mentir para quem quiser, mas não para mim. – concluiu. – Você me quer morto...
_ Se eu o quisesse morto, eu mesmo teria te matado. – o mais velho o segurou pelo braço, impedindo-o de sair. – Não deduza e nem ponha palavras na minha boca, Baekhyun. Você não sabe de nada sobre aquele dia.
_ Então, por que me salvou? – estreitou os olhos.
_ Por que você é meu irmão. – respondeu, soltando-o. – E por que eu me importo com você.
Nenhuma palavra deixou os lábios finos do professor, que apenas deixou o veiculo em silencio, fechando a porta em seguida. Minseok fechou os olhos, suspirando arrastado e abriu a porta, saindo do carro. Seus olhos acompanharam o trajeto do irmão até em casa, ao qual sua noiva levemente preocupada o esperava. Apoiando-se na bengala, o homem de cabelos acinzentados caminhou até o outro lado da rua, sendo acompanhado por Jongdae, que em poucos gestos, ordenou que a vigília fosse redobrada.
_ Baekhyun. – chamou Minseok, vendo o moreno desviar os olhos para si. – Nós realmente precisamos conversar.
_ Não é necessário. – respondeu o professor. – Vamos entrar. – e guiou a noiva para dentro da casa.
_ Mas quem é ele? – questionou ela, ainda fitando os dois homens.
_ Ninguém importante. – Baekhyun murmurou.
_ Srta. Kim Taeyeon, certo? – de súbito, o casal parou na entrada, desviando os olhos para Jongdae que os observava atentamente. – A senhorita é noiva do Sr. Byun, não é?
_ Sou. – concordou, sorrindo confusa.
_ Acho que a senhorita tem o direito de conhecer o irmão de seu noivo. – e apontou para o líder da Ordem. – Este é Kim Minseok. Irmão do Sr. Byun Baekhyun.
Baekhyun fechou os olhos e virou o rosto, arrependido de ter permitido que ela escutasse as palavras de Jongdae. Entretanto, Taeyeon olhou para o mais velho, completamente surpresa, soltando-se do amado e caminhando lentamente até o outro. Com um sorriso forçado, Minseok a cumprimentou, selando-lhe o dorso num cavalheirismo tipicamente inglês.
_ Meu Deus... – murmurou ela. – É um imenso prazer em conhecê-lo.
_ Idem. – respondeu ele. – Agora que finalmente conheço a ladra que roubou o coração de meu irmão, vejo que estou encantado. És muito bonita, Srta. Kim.
_ Oh, por favor. – corou, voltando-se para o noivo. – Por que não me disse que tinha um irmão, Baekhyun?
Mas o mais novo nada disse. Apenas encarou aqueles supostos traidores que, por alguma razão, decidiram expor sua vida passada. A morena observou o noivo entrar em casa, fechando a porta em seguida e suspirou, balançando a cabeça. Ela conhecia bem aquela atitude do mais novo, e deduziria que Baekhyun não falaria por, pelo menos, dois ou três dias consigo. Devagar, ela voltou os olhos para os dois homens, pedindo-lhes desculpas pela reação precipitada de seu futuro marido e os convidou para um chá, apesar da hora tardia.
Jongdae aceitara o convite, porém, ao olhar para o mais velho, notou que Minseok procurava por algo além da noite. Enquanto Taeyeon adentrava a casa, o moreno seguiu seu olhar, esperando algum pronunciamento do líder. Entretanto, o homem de bengala nada dissera e seguiu a dama até a casa, adentrando-a.
_ O senhor o viu? – questionou Jongdae ao líder próximo ao seu ouvido.
_ Não. Mas seu cheiro está a dez quilômetros daqui. – respondeu em mesmo tom.
_ Ele está vindo para cá? Devemos detê-lo? – agitou-se o mais novo.
_ Acalme-se. – o olhou. – Não faremos nada ainda.
_ Aceitam chá de camomila? – Taeyeon surgira na entrada da cozinha, segurando um bule de chá.
_ Sim. – concordou Minseok, vagando os olhos pela casa.
_ Por favor, fiquem a vontade. – pediu ela. – Pedirei que Baekhyun faça companhia a vocês.
A dupla concordou em silêncio, seguindo para sala de estar, ao que Jongdae permaneceu próximo ao sofá, enquanto que Minseok se acomodara sobre o mesmo, descansando a bengala ao seu lado. Três longos minutos foram o suficiente para que Baekhyun aparecesse na entrada da sala, encarando os dois ‘intrusos’ friamente. O mais velho suspirou, esperando pacientemente que o professor se aproximasse e, assim que o fez, acomodou-se na poltrona de couro escura, fitando-o.
_ Sobre o que quer falar comigo? – começou, após longos minutos se encarando.
Antes que Minseok iniciasse a conversa, Taeyeon surgira na sala, segurando uma bandeja com chá e biscoitos acebolados, pondo sobre a mesa. Os dois visitantes desviaram os olhos para a mulher que estava ao lado de Baekhyun, como se esperassem que ela deixasse o cômodo, já que o assunto que tratariam era de total sigilo. Pelo canto dos olhos, o homem de cabelos acinzentados fitou o mordomo ao seu lado que rapidamente serviu a todos de chá e levantou-se, pedindo que a morena o acompanhasse para que lhe mostrasse a casa. E, ao saírem de seus campos de visão, os irmãos tornaram a se olhar.
_ Há dois dias, recebi uma carta da Máscara. – explicou Minseok. – Pensei de início, que o Príncipe havia decidido solicitar a minha presença. Mas não fora ele quem enviou. – suspirou, retirando o envelope do interior do casaco, entregando-lhe. – Foi enviada pelo atual líder dos Gangrels.
Baekhyun recebeu o envelope, abrindo-o e leu em silencio. A mensagem era curta e bastante direta. “Levarei o bebê comigo. E não se preocupe. Cuidarei muito bem dele, era o que dizia. Os olhos pequenos do professor se estreitaram confusos com a informação e logo voltaram à face inexpressiva do mais velho.
_ “Bebê”? – perguntou ele.
_ A carta se referia a você. – explicou. – Há vinte anos, você era apenas um bebê quando nosso pai foi morto e a sede da Ordem, destruída.
Seu pai. – corrigiu. – Ele não representa mais nada para mim.
_ Baekhyun... – Minseok o encarou, mas logo o outro mudou de assunto.
_ E quem é o atual líder dos Gangrels? – devagar, guardou a carta no envelope, pondo-o sobre a mesa.
_ O mesmo vampiro que tentou nos matar. – suspirou, fitando a xícara em mãos. – Park Chanyeol.
_ O mesmo que... – começou Baekhyun, levando, inconscientemente, a mão à marca em seu ombro, recebendo um aceno positivo do mais velho.
Ainda que alguns fragmentos daquela tortuosa noite se fizessem presentes em seus sonhos – ou pesadelos –, Baekhyun jamais se esquecera da dor e do medo que tivera ao testemunhar aquele “homem” lhes atacando. Denominava-o assim, pois possuía a aparência de um, mas suas atitudes eram mais humanóides, quase animalescas. Minseok compreendeu o silêncio do irmão mais novo e tomou um gole breve do chá, pousando a xícara sobre o pires.
_ Então, foi por isso que veio me visitar? – o moreno desviou os olhos para a carta sobre a mesa de centro. – Queria garantir que eu estava vivo.
_ Não, apenas. – comentou. – Vim saber como é viver nessa vida... Como diz mesmo? – e levemente uniu as sobrancelhas. – Pacata. Vejo que se sente bem melhor como professor de história e... Noivo.
_ Pergunto-me por que não fez o mesmo. – Baekhyun se levantou, olhando-o longamente. – Assim, não precisaria se preocupar em caçar todas as noites.
_ Eu não caço todas as noites. – Minseok riu, balançando a cabeça. – Apenas quando é necessário...
_ Terminou sua visita? – interrompeu-o. – Se veio apenas para isso, então pode ir.
_ Acho que sua mãe se esqueceu de lhe dar educação, Baekhyun. – o mais velho se ergueu, apoiando-se na bengala. – Por que paciência, você conseguiu de nosso pai. – e suspirou, seguindo para longe do outro. – Mas eu entendo. Deseja somente proteger sua amada, o que é justo. Entretanto, antes de partir, desejo lhe fazer um pedido.
_ Não estou disposto a obedecer. – respondeu, cruzando os braços.
_ Tome cuidado quando andar à noite. – continuou, como se não fosse interrompido. – Garanta-me que ficará atento aonde quer que vá.
_ A casa está bem revestida. – os olhos pequenos e azulados vagaram pelas paredes com fotos de família. Minseok seguiu seu olhar, sorrindo levemente e assentiu, vendo seu mordomo se aproximar com a noiva de seu irmão. – Aos senhores, tenham uma boa noite.
_ Obrigado pelo pequeno passeio, Srta. Kim. – sorriu Jongdae, selando-lhe o dorso da mão.
_ Eu que lhe agradeço. – respondeu ela, abraçando o noivo. – Por favor, venham mais vezes. Eu adoraria conhecê-lo melhor, Minseok.
_ Quem sabe, na próxima, não? – o mais velho sorriu, cumprimentando-a com um aceno de cabeça. – Tenham uma boa noite.
Baekhyun observou-os deixar a casa e seguirem até o veiculo preto, onde os outros homens da vigília fizeram o mesmo com seus carros, partindo em seguida. Aos poucos, uma chuva fina se iniciou, fazendo-os entrarem na casa e fecharem a porta. Taeyeon abraçou o amado, sorrindo minimamente, ao que o moreno lhe retribuiu, selando-lhe o topo da cabeça.
_ Seu irmão é bem misterioso, não acha? – ela comentou.
_ Por que diz isso? – murmurou.
_ Quando questionei a Jongdae por que você não falava sobre seu irmão, ele me disse que não eram próximos. – por fim, o olhou. – Aconteceu alguma coisa para que se afastassem?
_ Não, exatamente. – sorriu fraco. – Só seguimos caminhos diferentes.

Dentro do carro preto, Minseok fitava a janela úmida longamente, enquanto que seus pensamentos divagavam sobre a conversa que tivera com seu irmão. Ele acreditava na capacidade de Baekhyun ser auto-suficiente. Porém, o medo de vê-lo enfrentar seu antigo inimigo fazia o coração do homem bater agitado, como se temesse o pior. E pelo retrovisor, Jongdae percebera o silencio do líder da Ordem. Aquela não era a primeira vez que via as órbitas azuladas do mais velho escurecessem num vazio eterno.
Durante seu treinamento rigoroso como ‘recruta’ para a Ordem, Jongdae, assim como muitos outros garotos na época, conhecera os filhos do antigo líder Kim, morto no ataque à Sede. Um garotinho – de cabelos escuros e aparência assustada – se escondia atrás do outro mais velho que segurava sua mão, enquanto se apoiava num bastão de madeira, sustentando uma perna imobilizada.
Enquanto seus mentores lhes explicavam sobre a razão daqueles dois garotos – aparentemente mais novos que Jongdae – serem tão importantes quantos todos ali, o moreno mantinha os olhos pequenos e escuros no garoto de bochechas grandes e olhar vazio. Minseok – pelo que conseguira deduzir em meio ao discurso – parecia completamente fora de sintonia naquele momento. Como se, o que ele tivesse visto, não fosse aconselhado a mais ninguém.
Mas, o que exatamente acontecera a ele, para que amadurecesse tão rápido? Essa era uma pergunta que, agora, como seu mordomo particular, Jongdae se fazia. Ele havia acompanhado a trajetória do mais velho por longos dezoito anos, desde a sua chegada na Divisão de Caçadores em Londres, no ano de 1997, porém, nunca entendera os pensamentos de seu líder.
_ Para onde vamos agora, meu senhor? – questionou, quebrando o silencio no interior do carro.
_ Para a Máscara. – respondeu, fechando os olhos.
Um arrepio percorreu a coluna do Mordomo que piscou algumas vezes, fechando o semblante. Visitar a Máscara significava não encontrar apenas o Príncipe, mas conhecer os possíveis monstros que tentariam matá-lo. Inconscientemente, os punhos de Jongdae se fecharam contra o volante, enquanto mudava a rota que seguia, observando, pelos retrovisores do carro, os outros veículos seguirem por caminhos diferentes. Aquele era um assunto particular entre o líder da Ordem e o Príncipe da cidade. E nenhum outro seguidor de qualquer um dos lados poderia intervir nesse encontro.
_ Eu devo entrar? – murmurou, mais para si, disposto a proteger seu líder.
_ Não é necessário, Jongdae. – respondeu, voltando as órbitas para a janela. – Não irei demorar.
O veiculo percorreu mais algumas ruas, para então, estacionar em frente aos imensos portões de ferro. Minseok mirou a entrada por longos minutos antes de remover a arma do interior do casaco e deixá-la sobre o estofado do carro, saindo em seguida. Nervoso, Jongdae deixou o automóvel, dando a volta e interceptou o mais velho, parando próximo a si com um guarda-chuva aberto.
_ O senhor está desarmado. – lembrou-lhe. – E se resolverem...
_ Eles não me atacarão. – respondeu, segurando o guarda-chuva. – Agora, entre.
_ Deixe-me, pelo menos, acompanhá-lo...
_ Não quero ter que enfrentar uma guerra por conta de um mal entendido, Jongdae. – resumiu, afastando-se devagar. – Agora, entre no carro e me espere.
Enquanto caminhava lentamente para dentro do grandioso casarão – aos quais seus caçadores chamam de ‘covil’ – Minseok escutou os portões se fecharem atrás de si, enquanto que um sorriso transpareceu seus lábios, para então, seu semblante cerrar e um olhar sombrio surgir em seu rosto. Seria uma longa conversa com o Príncipe e disso, ele tinha muita certeza.
E diante a enorme janela de vidro, observando a chegada do inesperado convidado, o Príncipe sorria em satisfação, enquanto arrumava o roupão rubro sobre o corpo pálido e frio. Pelo canto de seus lábios, ainda havia alguns filetes de sangue escorrendo por seu queixo, fruto de um ‘jantar’ com seu Matador. Os olhos vermelhos desviaram para o homem sentado sobre a cama, que se ergueu, vestindo apenas a calça escura.
Segundo alguns vampiros da própria Máscara, consideravam o novo Príncipe e Matador como irmãos, devido à incrível semelhança entre os dois, apesar de seus semblantes se diferirem. O Príncipe, ou Luhan – para os mais íntimos – possuía traços mais serenos, suaves até, enquanto que seu Matador, Oh Sehun, parecia sempre disposto a atacar qualquer um que cruzar seu caminho.
_ Teremos visita esta noite. – pronunciou-se por fim, o mais velho, removendo o roupão e vestiu-se elegantemente. – Trate de se limpar, por favor.
Sehun arqueou uma das sobrancelhas, enquanto vestia o casaco de couro sobre os ombros. Sob o olhar desejoso do mais novo – pois apenas quatro séculos os diferenciava – o Príncipe o fitou de soslaio, sorrindo levemente e se aproximou de seu Matador, limpando o canto dos lábios alheios com a ponta do polegar. E, finalmente, o encarou nos olhos.
_ Comporte-se esta noite. – sibilou. – Não iremos matar o nosso convidado.
_ E o que me garante que ele também não nos matará? – questionou, estreitando as sobrancelhas.
_ Minseok não ousaria. – riu, deslizando os dedos pelos cabelos loiros do outro. – Admiro sua ousadia quando captura um desobediente, mas ele sabe que, ao entrar aqui, são minhas regras que deve seguir.
Luhan se afastou do outro, seguindo para a sua sala e acomodou-se em sua cadeira, atrás de uma belíssima mesa de madeira maciça, com o enorme emblema da Máscara entalhado nela. O castanho tamborilou os dedos sobre o braço da cadeira, contando mentalmente os passos de seu convidado até a entrada, finalizando a mesma no número 52. Lentamente, seus olhos rubis se ergueram, enquanto que um belíssimo e animalesco sorriso se formava em seu rosto.
_ O que devo a honra, Sr. Kim Minseok? – o Príncipe anunciou cada palavra pausadamente, como se saboreasse seus sons.
_ Príncipe. – respondeu o caçador, ainda cercado pelas crias, que estavam protegidas pela Máscara. Minseok sequer deixou sua posição, assim como nenhum dos vampiros ousou abandonar seu lugar, esperando apenas uma confirmação do líder para atacá-lo.
_ Crianças, por favor, se comportem. – o castanho balançou a cabeça, se levantando de seu lugar.
Pelo canto do olho, Minseok assistiu cada uma das criaturas afastarem-se de si, dispersando-se em todas as direções. Logo, seus orbes azulados voltaram para o Príncipe que se encostara à mesa, esperando sua aproximação. Apoiando-se na bengala, o caçador caminhou até o ser de muitos séculos, cumprimentando-o com um leve aceno de cabeça.
_ Vim pedir-lhe para que afaste o líder do Gangrels de meu irmão. – respondeu, entregando-lhe o envelope que recebera.
Luhan abriu a carta, examinando por alguns minutos e suspirou arrastado, assentindo levemente. Seus orbes carmim desviaram para seu Matador, que estava recostado à entrada de braços cruzados e, com um leve aceno, o vampiro desaparecera. Minseok, que acompanhava a tudo, voltou sua atenção para o castanho que descansara a carta aberta sobre a mesa, sorrindo-lhe.
_ Estou surpreso com sua visita ao meu humilde lar, Sr. Kim. – iniciou o vampiro, desencostando-se da mesa de madeira e andou lentamente na direção do humano.
_ Eu agradeço pela... Nada discreta recepção. – comentou, assistindo o maior parar a sua frente e sorrir largo, exibindo todos os dentes. Incluindo as presas.
_ Pelo que percebo... – aspirou o cheiro dele a distância, fechando os olhos e tornou a caminhar pelo cômodo. – Seu Mordomo está lá fora.
_ Sim, ele está. – concordou, ainda observando-o.
_ E sua perna? – questionou, enchendo um copo de vidro com uísque e retornou ao caçador, estendendo-lhe. – Ainda possui dificuldades para caminhar?
Minseok negou a bebida oferecida pelo príncipe, que fingiu demonstrar ofendido pelo negar alheio. E, sem insistir uma segunda vez, tomou o uísque num único gole, retornando para a mesa e encostou-se, pousando o copo vazio sobre ela.
_ Então, veio apenas para isso? – questionou. – Para que eu mantenha Chanyeol longe de seu irmão?
_ Há outro assunto que também desejo discutir, mas esse não é o momento apropriado. – explicou.
_ Eu entendo. – murmurou, observando-o atentamente. – Permita-me dizer, mas está bastante elegante esta noite, Sr. Kim.
Os olhos felinos do homem de cabelos acinzentados se desviaram para os orbes avermelhados do vampiro, que mantinha um sorriso quase tímido em seus lábios finos. Quase, por que timidez não existe em seu vocabulário. Minseok conhecia bem aquela técnica do Príncipe que o admirava em total silêncio. Talvez, só talvez, se fosse um pouco mais fraco, poderia ter cedido o próprio pescoço para alimentar aquela criança adulta. E Luhan aceitaria de bom grado.
Aquela troca de olhares durou o tempo suficiente para que os passos súbitos e pesados ecoassem pelo assoalho de madeira, se aproximando da sala de reunião. O caçador piscou lentamente, baixando o olhar, porém, o Príncipe não fizera o mesmo, focando-se nas feições do homem. Minseok se virou devagar para a porta, onde um homem de quase dois metros de altura – 1,85m para ser exato – se apresentara, vestindo uma calça preta e um roupão azul-marinho, exibindo o tronco despido e pálido, enquanto um sorriso triunfante se formava em seus lábios.
Logo que os orbes vermelhos alcançaram os azulados do caçador, seu sorriso se alargou, exibindo não apenas os dentes, mas as presas pontudas do vampiro. Finalmente, algo naquela noite parecia lhe empolgar. Muito mais do que as quatro parceiras que estavam em sua cama. Sem perceber, Minseok sentiu o sangue correr rápido pelas veias, todavia, tratou de se acalmar, já que fizera os três vampiros salivar em desejo. Luhan engoliu em seco, gesticulando para que o novo convidado se acomodasse, enquanto guiava o humano até uma poltrona.
_ Ora, ora, ora... – começou o maior de cabelos escuros e espetados. – Então, recebeu minha carta, Sr. Kim?
_ Chanyeol, por favor. – o Príncipe se pronunciou, olhando-o. – A razão do Sr. Kim ter vindo pessoalmente à Máscara é bastante simples. Ele deseja que você fique longe de seu irmão.
_ Desculpe, mas, quando eu quero algo... – Chanyeol riu, sem tirar os olhos do caçador. – Eu mato quem for preciso para conseguir.
_ Sr. Park, eu quero que entenda uma coisa. – Minseok iniciou, examinando a própria bengala. – O ocorrido há 20 anos ainda está atravessado em minha garganta. – e o encarou. – Então, não pense que não irei fazer nada sobre aquela noite.
_ Devia tê-lo matado quando ainda era um moleque, Sr. Kim. – sorriu em deboche.
_ Questiono-me por que não o fez. – franziu o cenho, fingindo estar confuso. – Aliás, estava comigo e com meu irmão em suas mãos.
_ Eu também não me esqueci do que fizera comigo. – falou, erguendo a cabeça. Logo, o caçador notara a linha horizontal abaixo do olho esquerdo através da luz.
_ Então, ainda guarda a adaga que arremessei em você? – sorriu de leve.
_ Claro. – concordou. – Assim como seu irmão também deve carregar a minha assinatura em seu ombro, não?
Aos poucos, o sorriso de Minseok morreu, enquanto seu semblante se fechava. E aquela reação empolgava o líder dos Gangrels. Chanyeol cruzou as pernas, esticando os braços no encosto do sofá, ainda mantendo os orbes avermelhados no rosto do caçador. Luhan, que assistia a tudo em silêncio, suspirou arrastado, pousando as mãos sobre o encosto da poltrona e desviou os olhos para o maior.
_ A questão, Chanyeol, é que você deve ficar longe de Baekhyun. – concluiu o Príncipe. – Será que pode fazer isso?
O moreno tombou a cabeça para trás, fechando os olhos e suspirou longa e pesadamente, voltando os olhos para o caçador. Por fim, deu de ombros, sorrindo abertamente. Luhan deduziu que o líder dos Gangrels obedeceria à ordem. Minseok pensava o contrário. Para ele, Chanyeol iria capturar seu irmão a todo custo. E aquilo era apenas uma questão de tempo. Notando que o Príncipe pronunciava suas últimas palavras sobre aquele consenso, o maior se ergueu, deixando a sala de reunião.
_ Ele não vai obedecer. – comentou Minseok.
_ Chanyeol pode ser louco, mas não tanto assim. – explicou. – Se está tão preocupado, posso colocar cães de guarda para vigiá-lo...
_ Não é necessário. – disse, pondo-se de pé. – Agora, se me der licença, preciso voltar, ou meu Mordomo tomará uma decisão nada coerente.
_ Compreendo. – sorriu. – Mas, quanto ao outro assunto, Sr. Kim... Quando irá me dizer?
_ Esta noite. – Minseok o olhou, acenando brevemente com a cabeça e afastou-se, sem antes sussurrar: – Estarei esperando-o em meus aposentos.

_ E eu estarei lá. – respondeu.

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