quinta-feira, 2 de junho de 2016

Moonlight - Prólogo

Busan, Coréia do Sul.  Agosto de 1995.
Chovia muito naquela noite sombria. Os olhos cor de safira, tão famosos quanto o próprio dono, encararam o grandioso jardim, enquanto embalava a sonolenta criança em seu colo. Os cabelos negros, um dos traços fortes de sua personalidade atrevida, estavam desgrenhados e revoltosos, devido à noite mal dormida. Ao seu lado, segurando a barra de seu roupão rubro, um garotinho, de rosto redondo e olhar assustado, encolheu-se atrás do homem, temeroso no que poderia certamente acontecer.
“Minseok...”, chamou Baekhyung, respirando fundo. “Você já sabe o que fazer”.
O garoto ergueu os olhos ao pai e concordou num aceno agitado, pegando seu irmãozinho – ou meio irmão – de dois anos no colo. Mesmo que não se sentisse preparado para cumprir o ultimo desejo de seu pai, Minseok despediu-se do mais velho, recebendo um breve selar em sua testa, acompanhando o Mordomo e braço direito de seu pai, o velho Lee.
Do lado de fora da mansão Kim, um sorriso desafiador brotou nos lábios de Park Changmin, que assistia a ansiedade de seus meninos. Todo o bando rosnou, excitado para a batalha que se seguiria contra o grande matador de vampiros. Caminhando pelos galhos robustos das árvores, o ‘Lorde’, como era conhecido entre os caçadores, observou a rápida movimentação no interior da casa. Ele sabia que Baekhyung tentaria tirar suas duas crias do combate mortal. Mas ele não permitiria isso. Não permitira que algum membro daquela Ordem sobrevivesse à sangrenta luta.
Então, encarregou-se de chamar seu melhor ajudante: Park Chanyeol, seu primogênito.
“Venha”, chamou, esticando a mão para o outro, como quem convida para uma dança no salão. Chanyeol se aproximara do pai, que lhe afagou o rosto com seus dedos longos e unhas compridas. “Há uma tarefa para você, meu pequeno”, segredou-lhe. “A melhor parte do jantar... Eu deixarei para você.”
“O que devo fazer meu Lorde?”, sorriu-lhe, curioso. “Cuide das crias de Baekhyung”, sussurrou. “Banqueteia-te com elas.”
E num curvar gracioso, Chanyeol disparou para longe do bando. Num leve desviar de olhos, Changmin voltou-se para a varanda onde o caçador o esperava em completo silêncio. Podia notar o nervosismo, seguido do medo, por ter a certeza de que não passaria daquela noite. Mas resistiu. Baekhyung não demonstraria seu medo diante o inimigo.
“Ouçam minhas crianças”, começou o líder do bando. “Se sentem fome ou sede, aproveitem. Deixem que suas sensações tomem todo o seu consciente e saboreiem o jantar que estou lhes propondo”. E, por fim, ergueu a mão, apontando o longo indicador para o líder da Ordem, proferindo suas ultimas palavras: “Mas deixem Kim para mim”.
E o ataque se iniciou. Corpos mutilados estavam espalhados pelo azulejo escuro, enquanto o sangue denso se espalhava por todos os cômodos da mansão. Gritos e contra-ataques foram feitos aos vampiros, mas a desvantagem do combate era grandiosamente notável: sete para um. Changmin presenciou o ataque, admirando a valentia de suas crias, enquanto subia as escadas de mármore branco, agora sujos de carmim. A capa escura, tão típica nas histórias de Drácula, esvoaçou-se durante o caminhar, dando um ar mais gracioso e, possivelmente, mais atraente na criatura de muitos séculos.
Em um único movimento de sua mão, as portas de carvalho pesadas quebraram-se como palitos finos, desbloqueando a entrada ao quarto principal do casarão. Lentamente, o caçador se virou, mantendo o olhar sombrio no Lorde, que mantinha um sorriso malévolo em seu rosto.
“Não há mais saídas, Kim”, disse Changmin, observando-o rir de escárnio. “Eu sei, Park”, respondeu, engatando a carabina, cano duplo, e apontou para o outro, puxando imediatamente o gatilho. As balas, benzidas por um dos padres da Ordem, atingiram em cheio o peito da criatura, que sequer fez menção em desviar. Os orbes avermelharam-se em fúria, ainda que o ser não demonstrasse tal reação ao ver seu peito queimar, como se derramassem ácido.
“Acha mesmo que isso vai me matar, Kim? Pensei que fosse mais inteligente”, olhou-o numa falsa preocupação. Baekhyung se manteve em silêncio, soltando a arma descarregada no chão e respirou fundo, removendo as adagas das bainhas. “Estou apenas provocando-o”, comentou, sorrindo. “Se me quer tanto, vem me pegar”.
Dentro do carro que seguia numa velocidade absurdamente alta, Minseok mantinha os olhos no irmão menor, que se remexia nervoso, reagindo a algum pesadelo que tinha naquele momento. Mal sabia o pequeno Baekhyun que os dois estavam vivendo uma tormenta maior ainda. O mais velho – apenas seis anos os diferenciavam – desviou os olhos azulados para o retrovisor, enquanto o velho Lee se apressava em tirá-los dos limites da Ordem.
Todavia, nenhum deles percebeu a súbita chegada de Chanyeol, que caiu sobre o veiculo ainda em movimento. Com uma força descomunal, o mais velho arrancou a porta do carro, quase entrando no interior, se o velho Lee não mudasse o sentido de uma vez, fazendo o automóvel girar num belo cavalo de pau. O vampiro saltou para longe, caindo firmemente de pé. Apressadamente, Minseok soltou-se do banco, ainda com o irmão no colo, e correu para longe do combate, enquanto o matador se posicionava diante o inimigo.
Precisava ser rápido. Precisava salvar seu irmão, exatamente como prometera ao seu pai. Correu pela estrada escura sem sequer olhar para trás. Havia ouvido perfeitamente a ordem do Mordomo se, por algum acaso, fossem surpreendidos por alguma daquelas criaturas. “Fuja imediatamente, Minseok. Não se importe se eu morrerei no combate ou não, você precisa salvar a si e ao seu irmão.” Lágrimas silenciosas escorreram pela face infantil, molhando as cobertas que envolviam seu irmão, mas não ousou soluçar. Não quando precisava ser forte.
O garoto sabia que havia divisões de caçadores próximas as redondezas da Ordem. Então, não seria tão difícil ser encontrado por algum caçador que recebeu o recado da Sede. Se ele conhecia bem aquela estrada, faltavam apenas cinco talvez seis quilômetros até encontrar uma Divisão. Porém, para chegar lá, precisava correr e, se possível, o mais rápido que suas pernas curtas podiam.
Durante todo o trajeto, seu pensamento divagou sobre o que estava acontecendo na Ordem. As chances dos caçadores sobreviverem aquele combate mortal eram mínimas e Minseok sabia disso. Tinha quase certeza de que seu pai também não sobreviveria para protegê-los. E, talvez, nem o velho Lee. Tudo aquilo era apenas para salvar a ele e seu irmão da morte. Estavam retardando as criaturas.
“Aonde pensa que vai?” De súbito, o garoto parou de correr, sentindo todo o seu corpinho miúdo se arrepiar e congelar. Conhecia – contra a vontade – aquele timbre grave em tom de zombaria. Agora, ele tinha certeza: o velho Lee não sobrevivera. Sem pensar duas vezes, Minseok adentrou a floresta, cortando caminho pela estrada até se esconder atrás de uma árvore. Nervoso e assustado, o pequeno procurou por entre as próprias roupas seu rastreador, ativando-o de uma vez e tornou a correr.
Porém, fora puxado pelas roupas, deixando que Baekhyun escapasse de suas mãos, enquanto seu corpo era jogado contra um robusto carvalho, caindo na terra. Minseok ergueu os olhos, sentindo todo o seu interior gritar de dor, e encarou o maior, que se abaixava próximo ao seu irmão. Chanyeol desviou os olhos do garoto para o bebê, que chorava copiosamente por ter sido acordado de seus sonhos. E um sorriso animalesco tomou o rosto do vampiro, exibindo as brilhantes presas. “Você parece delicioso, bebezinho”, disse.
“Se afasta do meu irmão!” gritou Minseok, arremessando uma pedra, que logo fora segurada e quebrada em inúmeros fragmentos pelo vampiro. Chanyeol fitou o garoto que, inutilmente se erguia, apoiando-se no tronco da árvore e, num rápido movimento, o segurou pelo pescoço, suspendendo-o contra o carvalho. “Que decepcionante”, começou. “Já que quer tanto morrer, eu cuidarei de você primeiro” e sorriu, afastando o rosto do menor e exibindo o pescoço.
Suas pernas minúsculas esforçavam-se em chutar seu oponente, sem muito sucesso, o que arrancava risadas nasaladas do maior. Ele não podia morrer ali. Não quando tinha a obrigação de proteger seu irmão. Sentindo o ar escapar rápido de seus pulmões agitados, Minseok fez seu ultimo movimento, arrancando a curta adaga da bota e rasgou o rosto de Chanyeol, que o soltou, protegendo o local.
O pequeno tossiu, tentando recuperar o fôlego, enquanto que o vampiro apenas respirava fundo, limpando a considerável quantidade de sangue que saia daquele longo corte em sua maçã. Os orbes avermelhados desviaram para o garoto, ao que Chanyeol se aproximou de Minseok, chutando-lhe as costelas. Devagar, o vampiro se abaixou próximo ao corpo que se contorcia de dor e balançou a cabeça. “Tsc, tsc. Que decepção.” murmurou, segurando o rosto redondo pelo maxilar, fazendo-o olhá-lo. “Sinta dor enquanto assiste seu irmãozinho morrer”, proferiu, levantando-se e prontamente, pisou no joelho direito, quebrando-o.
Seu grito ecoou pela floresta densa, assustando alguns animais noturnos. Um suspiro prazeroso escapou dos lábios de Chanyeol, que aos seus ouvidos, aquele som era como música. Minseok protegeu a própria perna, chorando devido à dor constante, enquanto observava o maior se aproximar de Baekhyun, que estava assustado com o que via. O medo tomou conta do corpo do menino, que apenas assistia o maior se aproximar e segurar-lhe a cabeça, para finalmente, afundar as presas em seu pescoço.
“Não!” implorou Minseok, relutando a dor e rastejou-se até a adaga, arremessando-a, numa pontaria quase cega, em Chanyeol, lhe acertando profundamente no ombro. O vampiro soltou o corpo que degustava, passando a língua sobre os lábios vermelhos e sujos, enquanto um rastro de sangue se formava no canto de sua boca. Lentamente, sua atenção se desviou para trás, onde avistou a adaga cravada e removeu-a, ficando de pé.
“Pirralho” rosnou impaciente. “Eu devia ter te matado logo”, declarou, mas antes que pudesse avançar em Minseok, fora atingido por uma flecha, fazendo-o recuar alguns passos. Chanyeol rosnou ao ver a Brigada da Divisão de Caçadores se aproximar e, sem nada dizer, desapareceu nas sombras. O garoto respirou com dificuldade, arrastando-se até o corpinho de Baekhyun e pegou-o no colo, chorando baixinho. Não demorou muito para que os irmãos fossem levados pela Brigada, colocando-os em um carro e direcionando-os à Divisão.
Seus ferimentos e fraturas foram cuidados pelos Médicos da Divisão , enquanto que o capitão questionava ao garoto sobre o ataque à Ordem. Minseok relatou sobre o ocorrido, porém, sequer abandonou sua posição ao lado de Baekhyun. Até mesmo as enfermeiras tinham dificuldade de trocar as ataduras do irmão mais novo quando o mais velho estava por perto.
Além do mais, a regra de seu pai era bem clara: nunca deixe seu irmão desprotegido.

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