quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Moonlight - Capitulo Vinte e Cinco

Algumas horas já haviam se passado naquele grandioso salão, onde estava parcialmente iluminado pelos abajures sobre a mesa. Folheando e relendo cada uma das passagens vividas pelos antecessores de Minseok, Kyungsoo fazia breves anotações numa caderneta, completamente alheio a qualquer som ou indivíduo que adentrasse a biblioteca. Afinal, o mistério em torno do “clã Choi” havia interessado ao moreno de olhos esbugalhados e lábios carnudos. Um pouco afastado de si, estava o mal-humorado – e por que não dizer, sonolento – Jongdae, que havia perdido o sono, enquanto lia alguma obra biográfica de autores contemporâneos. Todavia... O que de fato havia feito o Mordomo do Líder perder o sono? Seria pela ordem que havia recebido horas antes de ir se deitar? Ou o fato de uma senhorita – que estava fora do conhecimento do moreno – visitar a Ordem? E, por que raios aquela garota deveria ser mais importante para o seu Senhor do que ele? Um suspiro arrastado abandonou os lábios finos do maior que folheou uma nova página e continuou sua leitura.
Pelo canto dos olhos, o seguidor de Baekhyun percebeu o desconforto alheio, avistando seu maxilar travado e narinas infladas, enquanto vagava as pequenas írises pela folha. Kyungsoo não esperava que Jongdae aparecesse na biblioteca às 3 da manhã, alegando estar sem sono e se afastar do foco de luz apenas para... Ler próximo a janela. Calmamente, o mais novo se levantou de seu lugar e rumou silenciosamente até o outro, tocando assim, em seu ombro.
_ Por que não vai dormir? – sugeriu, olhando-o.
_ Perdi o sono. – resmungou, folheando uma nova página.
_ E acha que apenas passar as folhas vai fazer seu sono voltar? – e ergueu uma das sobrancelhas.
_ Você não estava muito ocupado com o livro? – questionou retoricamente.
_ Estou. – concordou.
_ Então, por que não volta para ele? – desta vez, Jongdae desviou os olhos para o moreno.
_ Eu voltaria... Mas sua respiração pesada está me incomodando. – rebateu, fazendo o mais velho estreitar os olhos. – Relaxa. Foi uma piada. – brincou, tomando o livro de suas mãos e fechou. – Por que não usa sua insônia em algo mais... Proveitoso?
_ O que quer dizer?
_ Podia me ajudar com o livro. – sugeriu Kyungsoo, retornando para a sua mesa de estudos.
Meio relutante, porém visivelmente conformado, Jongdae o seguiu, parando ao lado do menor que examinava a árvore genealógica dos Choi. Rapidamente, Kyungsoo explicou sobre as anotações que havia feito e as supostas conclusões incertas sobre os antepassados. Para o Mordomo, era surpreendente a quantidade de detalhes que foram ditas pelo menor que lhe mostrava de onde tirou as ideias de seus pensamentos. Logo, sua atenção se voltou ao modelo detalhado da árvore genealógica, enquanto que o rapaz se apoiava sobre a mesa.
_ Eu já li a lenda mais de dez vezes e há algo que me deixa curioso. – por fim, desviou os olhos para o outro. – De todos os membros da família que tiveram dois filhos, um deles sempre morre. Não encontrei registros sobre os que foram feridos em combate ou marcados...
_ E quanto as moças? – Jongdae observou o papel. – Como pode ver, Sooyoung é uma mulher.
_ Que teve dois filhos. – completou. – E antes dos pais delas, a avó também teve dois filhos.
_ Está dizendo... – o moreno estreitou os olhos.
_ A lenda sempre se repete. – Kyungsoo murmurou e, rapidamente, exibiu algumas anotações. – Veja. – e folheou algumas páginas, mostrando o perfil da tataravó de Minseok. – Ahn So Hee, mãe de Choi Minho e Choi Minseok... Não há informações sobre este último... Agora... Choi Minho... Teve uma filha, Choi Sooyoung, que futuramente, se torna mãe de Kim Baekhyung e Kim Baekbeom...
_ Alguma informação do Baekbeom? – Jongdae também verificou as anotações.
_ Que... – folheando mais algumas páginas, ele continuou. – Deixou a Ordem com dezesseis anos. Porém... Não há explicações de ter partido. Por causa disso, eu encontrei também essa coincidência. – e mostrou-lhe um trecho anotado da lenda, com alguns acréscimos. – Note, nas palavras da anciã, a coincidência com os fatos.
“Uma das crianças carregará as características do pai.”
(Sem resposta)
“A outra, a da mãe.”
(Sem resposta)
“Uma das crianças nos deixará.”.
Choi Minseok: o que teria feito?
Kim Baekbeom deixou a Ordem aos 16 anos.
Byun Baekhyun deixou a Ordem aos 10 anos.
“A outra prosperará conosco.”
Choi Minho permaneceu na Ordem como líder.
Kim Baekhyung permaneceu na Ordem como líder.
Kim Minseok permaneceu na ordem como líder.
“Uma das crianças será marcada para sempre.”
Choi Minho foi marcado durante uma caçada.
Byun Baekhyun foi marcado quando pequeno.
“A outra estará ferida para sempre.”
Kim Minseok foi ferido durante o ataque de Chanyeol.
“Uma das crianças morrerá nos braços de seu amor.”
(Sem respostas)
“A outra se vingará de seu assassino.”
(Sem respostas)
“Uma das crianças será lembrada por toda a vida.”
Kim Baekbeom? Se sim, porque?
Choi Minseok? Se sim, por que?
“A outra, por toda a eternidade.”
Kim Baekhyung? Seria o fato de ser o penúltimo líder da Ordem dos Caçadores?
Choi Minho?
“Uma das crianças se apaixonará pelo impossível.”
(Sem respostas)
“A outra será o alvo dessa paixão.”
(Sem respostas)
“Uma das crianças os salvarão do perigo.”
(Sem respostas)
“A outra continuará seu legado.”
(Sem respostas)
_ É claro que ainda não conclui, mas... pelo menos... – continuou Kyungsoo.
_ O que te leva a acreditar que o Sr. Kim é a criança ferida? – Jongdae o olhou.
_ Bem... – pensou um pouco. – O problema na perna dela. – e o fitou. – O Sr. Kim manca quando caminha pelos corredores. Aquilo foi o efeito de algum acontecimento...
_ E o trecho onde é citada a criança marcada? Por que sugere que seja o Sr. Byun? – estreitou os olhos.
_ A lenda diz que uma será marcada e a outra será ferida. – explicou. – Pelo que me lembro, os caçadores costumavam dizer pelos corredores que o Sr. Kim foi ferido quando mais novo ao tentar proteger seu irmão. E o Sr. Byun tem uma marca de mordida em seu ombro.
_ Então, acha que eles são os irmãos citados nos versos?
_ Possivelmente. – concordou. – Porém há muitas falhas, como, por exemplo... “Uma das crianças morrerá nos braços de seu amor”, onde não encontrei nenhuma explicação ou fato relacionado a esse verso.
_ Nem nas outras gerações? – franziu o cenho.
_ Pelo que me lembro da explicação do Sr. Kim, Choi Minho morreu nos braços do Velho Lee. – pensou um pouco. – Mas não creio que isso esteja ligado à lenda.
_ E das características? – suspirou, folheando algumas páginas. – Encontrou coincidências?
E a atenção dos dois se desviou para a fotografia de Kim Baekhyung. Ambos os Mordomos estavam visivelmente abismados com tamanha semelhança ao filho mais novo, Byun Baekhyun. Jongdae riu nasalado, enquanto Kyungsoo anotava mais uma vez em sua caderneta, tornando assim a folhear mais algumas páginas.
_ Então... – continuou Kyungsoo. – Se Ahn Sohee é visivelmente parecida com o tataraneto Kim Minseok... E o Sr. Kim Baekhyung é parecido com o filho Byun Baekhyun... Tem alguma coisa que não está batendo. Como pode a tataravó ser parecida com o tataraneto?
_ Não há nenhuma foto da mãe de Minseok? – o olhou.
_ Sr. Do! Sr. Do! – logo, a atenção dos dois Mordomos se desviou para a entrada, onde um ‘recruta’ corria às pressas em sua direção. – Sr. Do, o senhor precisa vir rápido à enfermaria!
_ O que aconteceu? – Jongdae o olhou, porém, seu foco logo se desviou para o vibrar de seu celular.
_ É o paciente! Ele sumiu! – declarou, e, em poucos minutos, Kyungsoo largou todos os pertences sobre a mesa, disparando para fora da biblioteca.
Jongdae retirou o pequeno aparelho do bolso e ao verificar a tela, respirou fundo, desligando em seguida. Ele não podia mais atender aos telefonemas do Matador. Pelo menos, não após ouvir a sentença de seu Mestre. Mas, como esperado do moreno, seu telefone tornou a vibrar em sua mão, fazendo-lhe encarar a tela por alguns segundos antes de finalmente atender.
_ O que quer? – ditou, cansado, no entanto, antes que se acomodasse na poltrona, seu corpo ficou tenso. – Como assim, “você está sendo perseguido por um Adorador da Lua”?
E enquanto o Mordomo de Minseok discutia com o vampiro da Máscara ao telefone, Kyungsoo apressava-se em correr para fora da mansão, rumando pela floresta que se estendia nos fundos do terreno. Carregando uma lanterna nas mãos e uma seringa com morfina na outra, o futuro seguidor de Baekhyun seguiu por dentre as densas e escuras árvores, enquanto a chuva fina encharcava a terra já úmida. Por alguns minutos, os sons da noite ecoavam em seus ouvidos, enquanto que seus olhos atentos vagavam a procura de alguma sombra do paciente.
_ Onde será que ele...
Subitamente, um arrepio percorreu sua espinha, ao mesmo tempo em que a enorme criatura peluda saltou em sua direção, quase derrubando-o na terra. Kyungsoo conseguiu desviar do ataque, deslizando e apontou a lanterna para o monstro, surpreendendo-se com seu tamanho. O monstro bufou, rosnando e exibindo as enormes presas, antes de correr e pular no humano. Sem esperar muito, o moreno correu para longe, desviando das árvores e ao chegar na clareira, seu corpo foi derrubado na grama. O menor bolou pelo chão, apoiando-se nos cotovelos e apressou-se em pegar a lanterna que escapou de sua mão, procurando assim, algum sinal do monstro. Por mais que não quisesse admitir, não havia como esconder o nervosismo de seus batimentos cardíacos acelerados. Suas órbitas escuras vagaram pela imensidão sombria até avistar a sombra gigantesca próxima a entrada para a floresta. Devagar, o moreno se ergueu, recuando alguns passos, ao mesmo tempo que o monstro emergia da floresta, mostrando-se ao adversário.
E, numa velocidade sobre-humana, a criatura avançou contra si, derrubando-o novamente no chão e se sobrepondo no moreno. Kyungsoo nem sempre foi bom em calcular proporções, mas tinha certeza de que aquele monstro -  mesmo sobre as quatro patas – media mais de 2 metros. Um rosnado monstruoso ecoou pela floresta, enquanto a baba escapava de sua bocarra assustadora, caindo ao lado da cabeça do Mordomo. Em momento algum, o moreno desviou os olhos da criatura, enquanto discretamente removia a tampinha da seringa e a apontava para o tronco peludo. Mas, antes que fizesse algum movimento para aplicar a morfina, um grito de ordem chegou aos seus ouvidos, onde um homem de cabelos vermelhos e semblante sério assistia a cena.
Sehun alternou os olhos entre a criatura e o humano, sorrindo animalesco e gesticulou para que o monstro lhe seguisse. Porém, diferente do esperado, a aberração se ergueu e bloqueou o caminho do vampiro. Como se soubesse que o ruivo iria salvar – ou matar – o moreno.
_ Então... Você consegue pensar? – sibilou o Matador, estreitando os olhos.
_ Saia... Daqui... – rosnou o monstro.
_ Está interessado no humano? – o ruivo continuou.
Mas, antes que o monstro avançasse no vampiro, Kyungsoo ficou de pé e pulou nas costas alheias, aplicando a morfina em seu pescoço. A criatura se debateu, na vã tentativa de se soltar do traidor, todavia, quando conseguiu finalmente segurar as vestes do Mordomo e o arremessa-lo longe, seu corpo tombou na grama. Sehun, que assistia a tudo em silêncio, se aproximou devagar do humano e, ao tentar levantá-lo, um sorriso surpreso se formou em seus lábios.
_ Estou feliz que tenha sobrevivido. – comentou, encarando o moreno que se erguia devagar, enquanto apontava uma arma para a cabeça do ruivo. – Você é mesmo difícil de se derrubar. – percebendo que não receberia nenhuma resposta, Sehun suspirou arrastado, levantando-se, ao mesmo tempo que a mira do objeto continuava em sua testa. – É melhor eu ir. Ou serei morto pelos outros caçadores.
E, num piscar de olhos, Sehun desapareceu do campo de visão de Kyungsoo. O moreno ainda tentou olhar em volta, mas já era tarde. O maldito vampiro havia partido. Mancando até a criatura, o Mordomo engatou a arma que carregava e estava prestes a eliminar o monstro quando assistiu o mesmo diminuir de tamanho, simultaneamente à queda dos pelos escuros e grossos. Lentamente, o rapaz se abaixou ao lado do corpo e, ao afastar a manta escura, seus olhos encontraram a face adormecida do improvável.
Deitado a sua frente e completamente nu... Estava o paciente que havia tratado na noite anterior.

_ Alguma notícia de seu despertar?
Kyungsoo e Eunjung encaravam a maca, onde o rapaz de madeixas douradas repousava em seu sono profundo. O moreno negou com a cabeça, ao que a médica suspirou, passando a mão pelo rosto cansado. Desde que foi acordada às seis da manhã, devido ao burburinho e movimentação pelos corredores da Ordem, a mulher parecia ansiosa com o resultado das amostras coletadas do paciente.
_ Sabe de alguma notícia do suposto visitante? – continuou ela.
_ Visitante? – franziu o cenho.
_ Pelo que sei, a Ordem irá receber alguém... Ou alguém vem visitar Minseok... – murmurou, pensativa. – Não ouviu nada sobre isso?
_ Não. – negou, voltando a atenção para o adormecido.
_ Srta. Kim. – logo, a atenção dos dois se voltou para a entrada da enfermaria, onde uma moça se aproximava com alguns papeis em mãos. – Aqui estão os resultados.
_ Obrigada, Lily. – agradeceu a mulher, voltando os olhos para as informações. Kyungsoo fez o mesmo, olhando brevemente, enquanto Eunjung folheava as páginas de exames.
_ Bom dia. – o moreno olhou rapidamente para a entrada, vendo Jongdae se aproximar em passos largos. – Algum sinal do paciente?
_ Até agora, nenhuma. – negou Kyungsoo. – Vamos espera-lo acordar.
_ E os exames? No que deram?
_ Ele... Tem uma anomalia no sangue. – comentou Eunjung. – Talvez um gene a mais... É difícil saber quando não se tem o histórico dele.
_ Minha cabeça...
Subitamente, o trio encarou a maca, onde o rapaz acamado gemia de dor, protegendo a cabeça com as mãos. Eunjung prontamente se aproximou do garoto, e, assim que os olhos deste se abriram, foram prontamente desviados para o moreno baixinho. Kyungsoo permaneceu quieto e sério, enquanto se tornava alvo daqueles brilhantes âmbares, ao mesmo tempo que a médica tentava conversar consigo.
_ Sente alguma dor? – questionou ela.
_ Só dor... De cabeça... – murmurou, ainda observando o moreno.
Jongdae notou o brilho e a intensidade no olhar alheio e reprimiu um sorriso, comentando no ouvido de Kyungsoo que supostamente “o rapaz estava atraído por ele”. E, antes que o moreno pudesse rebater o argumento, seu corpo foi puxado para longe do Mordomo e aprisionado nos braços firmes e castanhos do loiro. Eunjung alternou os olhos entre o trio, sem entender completamente o que estava acontecendo. Como foi que aquele pirralho saltou e tirou o seguidor de Baekhyun de perto do Mordomo de Minseok em menos de quatro segundos?
Era possível perceber o desgosto e desprezo, ao mesmo tempo a proteção e cuidado transparecendo nos poros do paciente. Jongdae conhecia bem aquilo: aquele garoto estava com ciúmes de Kyungsoo, mesmo sem nem saber quem ele era ou o que fazia. Em resposta a toda confusão que havia se formado, o menor acertou-lhe uma cotovelada na barriga, vendo-o se curvar de dor e afastou-se, enquanto dois enfermeiros se apressavam em devolvê-lo à cama.
_ De qualquer forma, eu preciso ir. – ditou o Mordomo. – Ainda tenho alguns assuntos a resolver.
_ Assuntos? – Kyungsoo o olhou confuso.
_ O Sr. Kim irá receber uma visita importante e eu preciso busca-la no aeroporto. – explicou. – Vão precisar de alguma coisa?
_ Se conseguir alguma informação sobre esse garoto... – comentou Eunjung, gesticulando na direção do paciente.
_ Jongin. – respondeu, olhando-os. – Meu nome é Kim Jongin.
_ E de onde você é? – Jongdae o olhou.
_ Sou de Seul, mas faço intercâmbio aqui. – continuou, ainda fuzilando o Mordomo com os olhos. – Estou estudando na Balliol College...
_ A mesma escola onde o Sr. Byun leciona. – murmurou Kyungsoo, desviando os olhos para o mais alto. – Acha que consegue alguma coisa com isso?
_ Posso falar com ele. Com licença. – concordou, saindo em seguida.
Jongin assistiu o homem estranho sair da sala e voltou a olhar para o moreno de olhos escuros e lábios carnudos, engolindo em seco quando este retribuiu o longo olhar. Logo, a médica que lhe examinava se aproximou do baixinho, sussurrando algo em seu ouvido, como se quisesse saber se ele estava bem... Foi isso mesmo que ouviu? O loiro de pele castanha franziu o cenho, ao que o outro concordou, enquanto esperava a mulher deixar o cômodo.
_ Você... Está machucado? – perguntou, olhando-o.
_ Não. – mentiu, sem esboçar nenhuma reação.
_ M-mas... – e, ao respirar fundo, Jongin percebeu um cheiro diferente. – Estou sentindo cheiro de sangue...
_ Sangue? – Kyungsoo franziu o cenho e, ao tocar a lateral de seu corpo, sentiu-o úmido. Logo que trouxe a mão diante os olhos, percebeu a quantidade de sangue que saia. – Droga...
_ V-você está bem? – desesperou-se, levantando da cama e se aproximou do moreno que o empurrou para longe.
_ Você fica aqui. – ordenou. – Eu vou chamar um médico.

_ Baekhyun? É o Jongdae. – disse o Mordomo ao telefone, enquanto dirigia pela avenida principal. – Pode me fazer um favor? Conhece algum aluno chamado “Kim Jongin”? Um sul-coreano que faz intercâmbio na Inglaterra e supostamente estuda em Balliol College...
_ Eu devo ter ouvido falar dele. – comentou. – O que aconteceu?
_ Nada importante. – suspirou, entrando numa rua. – Ele comentou que estuda na mesma escola que você leciona. Tem como conseguir o histórico médico dele?
_ Histórico médico? Mas para quê?
_ Só faça isso para mim, sim? – pediu. – É importante.
_ Vou ver se consigo.
_ Eu agradeço. – e desligou, parando no sinal. Jongdae vagou os olhos pela movimentada rua, quando seu celular tornou a tocar. – Jongdae.
_ Chegou ao aeroporto? – o timbre calmo soou por todo o veículo, fazendo o moreno engolir em seco.
_ Estou perto. – respondeu.
_ Não se esqueça. O nome da garota é...
_ Kim Dahyun. – repetiu, suspirando. – Eu entendi, senhor.
Logo, um silêncio estranho se estendeu entre eles. Por mais que não ouvisse nada de seu Mestre, era possível entender que Minseok estava nervoso e preocupado na outra linha.
_ Ainda está com raiva de mim?
_ Não, senhor. – disse, passando a marcha e partindo.
_ Não é o que parece. Eu fiz algo que o desagradou?
_ Não, senhor. – murmurou e ouviu um suspiro arrastado do outro lado.
_ Não interprete errado. – pediu. – Eu... É importante que você a traga com segurança.
_ Sim, senhor.
_ Pare de me responder como se fosse um robô. – rosnou. – Sabe que eu odeio quando faz isso.
_ Sei.
_ Jongdae!
_ Se me der licença, senhor, eu irei desligar. Acabei de chegar ao aeroporto.
E encerrou a ligação. Jongdae estacionou o veículo em uma das inúmeras vagas e rumou calmamente na direção do prédio, enquanto inúmeros visitantes transitavam de um lado para o outro, a fim de embarcar ou desembarcar em seus aviões. Em uma das mãos, carregava uma pequena plaquinha com o nome da visitante e parou em frente ao portão de desembarque. Longos minutos se passaram até que uma garota, de 1,65m de altura e longos cabelos negros apareceu no campo de visão do Mordomo, sorrindo timidamente. Trajando um vestido azul-marinho, sapatilhas e carregando uma mala pequena, a menor se aproximou do homem e o cumprimentou com um leve curvar.
_ Você é Kim Dahyun? – questionou Jongdae, franzindo o cenho.
_ Sim. – concordou, retirando o cabelo dos olhos.
Jongdae a encarou surpresa ao perceber que seu olho direito estava com um tapa-olho escuro. Aos poucos, o sorriso de Dahyun foi morrendo, transparecendo um olhar confuso, ao que o moreno baixou a cabeça, sussurrando um pedido de desculpas. Como ele iria saber que ela tinha perdido o olho?
_ M-mas... Por que está me pedindo desculpas? – ela franziu o cenho.
_ Eu... Não sabia que seu olho...
_ Ah! – e tornou a sorrir tímida, voltando a esconder o tapa-olho com o cabelo. – Não se preocupe com isso. Agora, podemos ir?
_ Sim. – assentiu, guiando-a para fora do aeroporto.
Já dentro do carro, Jongdae dirigiu em completo silêncio pela avenida principal, enquanto a garota permanecia quieta no banco de trás. Vez ou outra, as órbitas escuras e pequenas do Mordomo se desviavam para a menina, que apenas retribuía com um pequeno sorriso, voltando a baixar a cabeça. Talvez fosse algo de sua cabeça, mas ela era um pouco parecida com Minseok. Talvez não tanto, mas lembrava os olhos de seu senhor.
_ Então... – começou ela, olhando em volta. – Como conheceu o... Minnie-oppa? – todavia, Jongdae parecia hesitar em contar. Afinal, ela sabia ou não sabia da Ordem? – Olha... Eu sei um pouco sobre essa Instituição. – disse, tentando tranquiliza-lo. – Então... Não tem problema em me contar. Quer dizer, só se...
_ Eu trabalho para o Sr. Kim. – resumiu.
_ Então, você é um Mordomo? – questionou surpresa.
_ Mais ou menos... – murmurou, olhando brevemente para a garota.
_ Você acabou de dizer que trabalha para o Minnie-oppa, e como ele é Líder da Ordem, então você é o Mordomo... Certo? – incentivou, observando-o.
_ Basicamente. – suspirou, tentando dar a conversa por encerrada.
_ Meu pai costumava dizer que meu lugar não era na Ordem dos Caçadores. – comentou baixinho, encarando as próprias mãos. – Mas nós dois sabíamos que éramos da Ordem depois do que aconteceu comigo. – e um sorriso tímido transpareceu em seu lábios.
_ Seu pai? – e as órbitas escuras desviaram para o retrovisor interno.
_ Sim. – concordou. – Kim Baekbeom. Eu sou a única prima de Minseok.
Por um instante, Jongdae quase parou o carro no meio da rua, devido a surpresa ao saber da verdade. Então... A suposta visita que o Sr. Kim receberia era... De sua prima? E por que raios ele não havia dito isso antes? Dahyun, que estava atrás, observou atentamente as reações – agora, tranquilas – do Mordomo que dirigia calmamente até os portões da Sede.
_ É aqui? – perguntou ela, olhando para fora da janela.
_ Sim. – assentiu, finalmente demonstrando seu belo sorriso. – Bem-vinda à Ordem dos Caçadores.
Jongdae estacionou o carro em frente as escadas de entrada e desceu do veículo. Ao contornar, abriu a porta para a garota que agradeceu com um breve aceno, também descendo do automóvel. Todavia, antes que o moreno a guiasse para a casa, a fisionomia do homem de madeixas acinzentadas se mostrou na entrada, onde um sorriso pequeno se formou em seu rosto.
_ Oppa! – disse Dahyun, rapidamente subindo as escadas e pulou nos braços do homem, abraçando-o forte.
_ É bom vê-la novamente. – comentou Minseok, desviando os olhos para Jongdae que baixou a cabeça, corando violentamente. Ele sabia que, mais tarde, teria uma conversa particular com o Líder. – Como tem passado? – continuou, olhando-a.
_ Bem... Viver no Japão não é tão fácil... – deu de ombros, enquanto sentia os dedos longos do mais velho percorrerem por seus cabelos e, ao afastar a mecha do olho direito, Minseok piscou rápido, levemente surpreso. – Ah... Sobre o olho...
_ Ele me disse. – murmurou, vendo-a desviar o olho surpreso para o maior. – Fico feliz que esteja bem. – sorriu, logo gesticulando para que entrasse na mansão. – Pode trazer a mala dela, Jongdae?
_ Sim, senhor. – concordou o Mordomo, abrindo o porta-malas do carro.
Enquanto se dirigiam a escadaria, Dahyun se encolhia no abraço lateral do primo mais velho, porém, sua beleza e inocência não passou despercebido por um futuro Mordomo que era tratado pela enfermeira. Kyungsoo pode avistá-la subindo as escadas da mansão ao lado de Minseok que conversava calmamente consigo. Logo que a moça terminou a sutura, o rapaz arrumou o casaco no corpo e seguiu para a escadaria, subitamente sendo impedido por Jongdae que segurou seu pulso.
_ O que foi? – questionou o menor.
_ Aonde vai? – o Mordomo sorriu, enquanto carregava a mala para o andar de cima.
_ Eu... Iria conversar com o Sr. Kim. – respondeu, seguindo-o.
_ Nesse momento, ele está ocupado...
_ Quem é a garota com ele?
Lentamente, Jongdae estreitou os olhos e encarou o menor que continuava a observá-lo. Devagar, sua atenção se voltou para o corredor de acesso ao escritório de Minseok, ao que Kyungsoo o seguiu com um olhar, voltando a encará-lo.
_ Por que quer saber? – perguntou.
_ Por nada. – resumiu.
_ Tudo bem. – deu de ombros, afastando-se calmamente. – À propósito, ligue para o Sr. Byun. Provavelmente, ele deve ter conseguido as informações sobre o nosso paciente.

_ E... Como andam as coisas por aqui? – perguntou Dahyun, sentando-se no sofá, ao lado do mais velho.
_ Estamos passando por algumas complicações, mas nada muito preocupante. – explicou.
_ Eu ouvi o anuncio do Primeiro-Ministro sobre a onda de crime. – o olhou. – São esses vampiros que estão fazendo isso?
_ Na verdade... – suspirou. – É algo pior.
_ Pior? – franziu o cenho. – Tipo... Muito pior do que vampiros?
_ Eu ouvi dizer que você é especialista sobre uma raça... Diferente. – começou.
_ Sim. – assentiu. – O que tem?
_ Meus homens e eu achamos que um dos pacientes... Pertence a essa raça.
_ Eu... Posso dar uma olhada nele? – pediu.
_ Eu esperava que você descansasse primeiro, Dahyun-ssi. – sorriu Minseok.
_ Depois de todo esse mistério? É claro que não. – riu baixinho.
Por fim, Minseok se levantou e guiou a garota para fora de seu escritório. Vez ou outra, Dahyun observava a perna manca do primo, visivelmente preocupada. Ela sabia o que havia acontecido a ele e chegou ao ponto de discutir com o próprio pai por não conseguir a guarda do outro. Ao descerem as escadas, rumaram até a enfermaria, onde o paciente estava deitado na cama. Do seu lado, Kyungsoo fazia algumas anotações numa folha, enquanto conversava ao telefone.
_ Bom dia. – desejou Minseok, ao que a atenção dos dois se desviou para a entrada. – Sr. Do, esta é Kim Dahyun. – apresentou-a. – Este é Do Kyungsoo. – e, finalmente sussurrou em seu ouvido. – Futuro Mordomo de Baekhyun.
_ É um prazer conhece-lo. – sorriu de leve, se virando para o moreno de madeixas douradas. – Este é o paciente?
_ Sim. – concordou Kyungsoo. – Kim Jongin.
_ Hum... – assentiu. – Posso dar uma olhada nos exames?
Rapidamente, o moreno entregou os papeis dos resultados e esperou, em silêncio, a resposta. Dahyun verificou alguns dados e composições e, involuntariamente, afastou a mecha de cabelo escuro do rosto. Nem Jongin, e muito menos Kyungsoo, conseguiram esconder a surpresa em seus olhos.

_ Bem... – concluiu ela, desviando a atenção para o dono dos âmbares. – Você tem razão, Minseok-oppa. Ele é um deles.

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